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Tenho um amigo que está na UTI. E não paro de ver pessoas perguntando sobre seu estado, inclusive as que não gostam dele. Quando entramos em contato com a doença ou a morte de alguém, nos sentimos impotentes em relação à vida e recebemos um aviso: Cedo ou tarde isso pode acontecer com você também. Se você nunca se preocupou com a pessoa doente por quem acha que deveria se preocupar, você sente culpa. Começa a se questionar sobre tudo o que deveria ter feito e não fez, ou sobre tudo o que não deveria ter feito e fez.
Interessante que, as pessoas que sempre se preocuparam, e cuidaram de alguma forma desse meu amigo, não ficam por aí dizendo tudo o que fizeram por ele. Elas não precisam se explicar, elas até sentem que poderiam ter feito mais (como todos nós deveríamos mesmo), mas suas mentes estão em paz. Por quê? Porque elas tinham um vínculo com ele. No dicionário, vínculo é “ a capacidade de ligar, unir, atar uma coisa à outra”. Quem se sente vinculado a uma pessoa, se faz participante da vida dela. Há um investimento afetivo. São laços invisíveis de afeto que os ligam.
As pessoas que, por algum motivo, não quiseram ou não tentaram criar esse vínculo afetivo, procuram, “antes que seja tarde”, construir uma relação do tipo fast food com o adoentado. Já vi de tudo. Parentes que ficam 24 horas ao lado da pessoa doente no hospital, sem aceitar revezamento; colegas que fazem campanhas no Facebook com fotos aterrorizantes da pessoa doente; alguns choram um choro de remorso (que sempre é mais alto). Tudo bem fazer tudo isso. Mas qual o motivo real? Tenho um alerta: se a doença não for alzheimer, o adoentado não perdeu a memória. Ele sabe quem você é, o que fez ou deixou de fazer em relação a ele. Sabe quem foram as pessoas que o acolheram em momentos difíceis, quem chorou e riu junto a ele e quem o ouviu e torceu por ele. Sabe quem investiu sua energia nos dias parecidos do cotidiano pensando no seu bem estar. Todos nós temos alguns poucos nomes de amigos e familiares que nos veem à mente em momentos difíceis e até nos fáceis também.
Você pode brincar e divertir uma criança com tudo o que ela quiser. Mas em momentos de medo e angústia, você perceberá que a mesma procurará quem cuida dela de verdade, quem dispensa atenção e afeto. Não raramente, pula para o colo da mãe. Lembro de um pai me contando que seu filho, após sofrer um acidente de carro, gritou o seu nome na maca mesmo estando quase inconsciente. Talvez por ser um tipo de “registro mental afetivo”. Sentimos saudade de algo ou alguém, que nos tocou afetivamente. Adélia Prado diz: “O que a memória ama, fica eterno”.
Penso que o amor se faz com gotas que se transformam em mar ao longo do tempo. Não dá pra criarmos um tsunami para imediatamente o outro se ligar a mim. O vínculo leva tempo, dá trabalho.
Entretanto, não desejo aqui responsabilizar ou julgar ninguém. Gostaria apenas de alertar para que nossos relacionamentos sejam mais maduros, menos narcísicos, mais empáticos e menos dissimulados para nosso próprio bem. Para um mundo com menos culpa e mais ação. Para não sermos alertados a mudar somente quando uma morte ou uma doença grave nos atropela direta ou indiretamente.
Termino perguntando: Após morrer, como você gostaria de ser lembrado pelas pessoas com quem conviveu? Como elas te viam? Qual foi a sua relevância no tempo em que viveu aqui? O que dirão no seu velório? É, estranhamente já estou pensando nisso e espero que não seja tarde demais.
Obs: O autor é Psicólogo, palestrante, terapeuta de família casal.
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