Maurício Cavalheiro 15 de março de 2016

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Após mais um dia de trabalho, Ataulfo dirigiu-se com alguns amigos para uma choperia, pretendendo abster-se dos problemas do escritório e do mundo. Entretanto, como nos diálogos predominavam os atentados terroristas, decidiu retornar para o aconchego do lar.
Instalou-se no automóvel e pouco mais de um quarto de hora, estacionava em frente ao número 36, da Alameda dos Querubins.
Superou o portão e, depois de alguns passos, penetrou a chave na fechadura e adentrou.
– Nicinha!!! Ô Nicinha!!!
Desatou a gravata, jogando-a na poltrona.
– Nicinha, cheguei!!!
Lançou o paletó sobre a cama. Retirou quase toda a roupa. Ficou apenas de cueca.
– Nicinha!!! Cadê você, Nicinha!!!
“Ô mulherzinha pra bater perna. Nunca está quando eu preciso” pensava, caminhando para a cozinha.
Abriu a geladeira e retirou uma cerveja. Preparou uma porção de presunto e sentou-se à mesa, onde estava depositado o jornal do dia, que estampava cenas da guerra contra o terrorismo de Osama Bin Laden.
“A resistência do líder Talibã, e a intransigência norte americana, estão dizimando inocentes”.
Por mais que Ataulfo quisesse ficar alheio aos acontecimentos, não podia. Com o jornal nas mãos, procurou ler todos os artigos que tratavam daquele episódio. Deteve-se diante de um artigo:

“Antraz – a resposta Talibã”
Dezenas de pessoas já foram contaminadas
por um pó branco que, geralmente, chega
ao destino por via postal. O simples contato
tem provocado o Antraz, doença que pode
causar a morte.

Ataulfo, com repugnância, lançou o jornal ao chão, sorveu o restante da cerveja e levantou-se para pegar outra. Nesse momento, ao olhar novamente para a mesa, avista um envelope.
– De quem será essa carta? Resmungou. Será de outro credor?
Volveu-se para pegá-la. Quando a abriu, estremeceu: não havia nenhuma correspondência dentro do envelope; mas, sim, um PÓ BRANCO! Começou a tremer e, a sua reação fez com que o conteúdo do envelope caísse sobre sua mão.
– VOU MORRER!!! Gritou desesperado. VOU MORRER!!!
Ataulfo ruiu ao chão. Começou a tossir e a sentir uma forte dor no peito.
– SÃO OS SINTOMAS!!! VOU MORRER!!! Gritava tanto, que toda a vizinhança poderia ouvi-lo. Talvez fosse esse o seu desejo: que alguém viesse para socorrê-lo.
Cada minuto parecia ser um século. Respirava com dificuldade. Começava a sentir o hálito da morte.
– VOU MORRER!!! NICINHAAAAAAAA!!!
Nicinha entra alvoroçada e desfaz-se rapidamente de alguns embrulhos. Socorre o marido.
– O que foi, Ataulfo??? O que você está sentindo, pelo amor de Deus???
– Vou morrer, benhê… Fui contaminado pelo antraz… Malditos terroristas!!!
Nicinha também começa a gritar em prantos.
– Eu não quero ficar viúva!!!
– Você vai encontrar alguém melhor que eu…
– Não quero ninguém!!! Eu só quero você, meu amor!!!
– Cuide bem dos nossos filhos…
– …
– Nicinha… balbuciou – Preciso fazer uma confissão pra você… antes que seja tarde demais…
– Agora não é hora… deixa pra depois…
– Mas, eu vou morrer!!!…
– …
– Nicinha… Esforçou-se, olhou dentro dos olhos da esposa e revelou: eu traí você… e várias vezes… com a Julinha… com a Nanda… com a Raimunda… como se chama aquela mesmo que trabalha na loja do Orlando?
Se ele não estivesse nos braços da morte, ela, certamente, o expulsaria de casa depois de decepar-lhe o falo. Aquele infortúnio exigia que ela o absolvesse.
– Qual o homem que nunca traiu sua mulher? Isso é apenas um detalhe, insignificante nesse momento.
Ataulfo ameaçava fechar os olhos, como se ouvisse o chamado da morte.
– Onde você se contaminou, meu amor?
Com dificuldade, ele apontou para a mesa. Nicinha olhou e não viu nada.
– Não tem nada na mesa, querido… Apenas essa garrafa vazia de cerveja… esse resto de porção de presunto… Huuuuum! Que delícia!!!
– CUIDADO!!! Alertou ao ver a mulher com o envelope na mão.
– Cuidado??? Mas, isso é apenas um envelope… Foi a Dona Nenê que me deu… Estou preparando um bolo para o nosso aniversário de casamento… Acabou o fermento e ela me cedeu um pouco nesse envelopinho… – Revelou acomodando a cabeça do marido entre suas pernas.
Ataulfo, envergonhado, sorriu. Desconcertado, levantou-se e disse:
– Pensei que fosse o tal antraz… Ainda bem que não corro risco de morte… Graças a Deus estou vivo… e bem vivo!
A mulher, pasmada, dirigiu-se à área de serviço e retornou com uma vassoura na mão.
– Seu cachorro!!! Se não morreu pelo antraz, vai morrer de tanta vassourada… Mulherengo! Traidor! Vagabundo!
– Ai! Ui! Para com isso, benhê… Ai! Ui!

Obs: O autor é membro da Academia Pindamonhagabense de Letras é autor de: Lágrimas de Amor – poesia; O sapinho jogador de futebol – infantil; O estuprador de velhinhas & outros casos – contos; Histórias de uma índia puri – infanto-juvenil; O casamento do Conde Fá com a Princesa do Norte, e Um caso de amor na Parada Vovó Laurinda – cordéis.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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