D. Edvaldo G. Amaral 15 de maio de 2008

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Certamente, o chamado “amigo leitor” achou estranho o título de nosso artigo de hoje. É o temor generalizado da morte e o pavor que o nome já inspira. E, no entanto, diariamente, os que rezamos a Ave Maria, concluímos com a expressão “agora e na hora de nossa morte”. E em uma das jaculatórias mais conhecidas, nós imploramos à Sagrada Família (Jesus, José e Maria) duas graças: “Assisti-me na última agonia” e “expire em paz entre vós a minha alma.” E assim, em muitas de nossas orações diárias, nós pedimos ao Pai uma boa morte. Aos seus jovens alunos adolescentes, dom Bosco inculcava fazer todos os meses o que ele denominava “o exercício da boa morte”. Consistia essencialmente em fazer uma preparação para o chamado de Deus. Terminava com uma breve oração “pelo primeiro que morrer dentre nós”. E nem por isso, os jovens alunos do Oratório de Turim foram menos alegres, irrequietos, amantes dos esportes e cheios de vivacidade. O cristão vive para morrer. Entenda-se: a morte é o termo final de nossa existência e o instante último e decisivo do nosso “peregrinar terrestre”, como gosta de dizer a liturgia. Na verdade, o cristão deve viver como se nunca devesse morrer, isto é, em contínua atividade, sempre com novos planos, projetos e sonhos. E ao mesmo tempo, deve viver como se devesse morrer a qualquer momento, isto é, estar preparado para ser recebido pelo Pai. Não é “ter medo da morte”, mas é saber viver como se ela não existisse e, ao mesmo tempo, estar sempre preparado para ela, que só exige uma condição para acontecer: isto é, estar vivo. Sebastian Politi, em seu livro Una musica infinita, analisa com profundidade de doutrina e riqueza de argumentos esse temor da morte. Cita trechos de um teólogo alemão J. Ratzinger (Você hoje sabe bem quem é…) que diz: “O mundo burguês oculta a morte. Num famoso jornal americano não se pode escrever a palavra ‘morte’. Nas funerárias e nos hospitais oculta-se cuidadosamente o fato da morte.” O teólogo brasileiro pe. Libânio acrescenta: “Tudo se transforma em matéria de consumo: a morte como imagem e a morte como silêncio”. A morte perde sua densidade. A sociedade moderna não tem um lugar para a morte.

O livro de Politi recebeu em português um sub-título que revela melhor seu conteúdo A Escatologia Cristã. A escatologia cristã distingue-se essencialmente das esperanças humanas, limitadas e falíveis. Deus é nossa única e segura esperança. A morte redentora de Cristo é a resposta final e a explicação convincente de todos os sofrimentos humanos e de nossa própria morte.

(*) É arcebispo emérito de Maceió.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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