“Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a… E se o teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora… E se o teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o” (Marcos 9,42-43, 45, 47).

“Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos” (LS 2).

Como seria possível nos livrar de partes do nosso corpo sem ter graves consequências à nossa saúde?

Ao invés de olhar para o sentido literal destas palavras no Evangelho de Marcos, precisamos encontrar nas entrelinhas o que Deus revela para nossa conversão mais profunda e nosso compromisso com uma vida de discipulado missionário. As palavras de Jesus são um lembrete difícil de que não podemos ser flexíveis aos hábitos pecaminosos.

Partindo desse chamado radical de que devemos cortar e arrancar tudo o que nos desvia do caminho de amor e justiça, podemos nos aproximar desses ensinamentos de Jesus refletindo sobre o que nos ensinam sobre os pecados ecológicos que ainda cometemos hoje. Do que precisamos nos livrar em nossas vidas para evitar as graves consequências à saúde da nossa casa comum?

Se nossas mãos forem motivo de queda, evitando trabalhar e buscando alimentos fáceis de cozinhar, produtos de limpeza pesada, tecnologias desnecessárias e produtos cosméticos testados em animais, é melhor cortar fora a preguiça de nossas mãos e buscar alimentos mais saudáveis, produtos naturais de limpeza e de cosméticos, e evitar comprar tecnologias que não precisamos.

Pois é melhor trabalhar com nossas mãos para cozinhar o que precisamos e usar produtos não-nocivos do que causar a exploração laboral e animal e uma poluição ainda maior em nossa casa comum devido a essas indústrias que sustentam nossas necessidades preguiçosas.

Se nossos pés forem motivo de queda, optando por usar o transporte mais rápido em todas as ocasiões, sem prestar atenção no tipo de combustível que está sendo usado, é melhor cortar fora nosso comodismo e priorizar caminhadas, bicicletas, carros elétricos, caronas ou transporte público.

Pois é melhor gastar mais tempo para chegar nos lugares ou investir mais dinheiro num outro tipo de carro mais sustentável, do que causar um aquecimento maior em nossa casa comum devido à pegada de carbono do nosso transporte.

Se nossos olhos forem motivo de queda, evitando de olhar para onde vai nosso lixo quando sai de nosso campo de visão, achando que ao “jogar fora” o lixo ele já não é nossa responsabilidade, é melhor arrancar nossa indiferença e reconhecer que nada nunca é realmente jogado “fora”, mas simplesmente é realocado para outra parte da nossa casa comum.

Pois é melhor pesquisar sobre o gerenciamento e coleta de lixo e resíduos em nossos bairros e sobre opções de reciclagem e compostagem, do que causar a nossa casa comum a “transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (LS 21).

Para sermos discípulas e discípulos missionários de Cristo em um mundo que é degradado pelo nosso estilo de vida, devemos reconhecer nossos pecados ecológicos e nos ajudarmos nessa conversão ecológica para garantir um planeta mais saudável, que por sua vez é o que pode sustentar pessoas mais saudáveis.

Neste caminho de conversão ecológica através do qual buscamos seguir o chamado de Deus para cuidar da criação, devemos reconhecer também aqueles e aquelas que também estão “expulsando demônios” (Mc 9,38) em nome de um planeta mais saudável.

No mundo inteiro existem movimentos populares, iniciativas privadas e públicas, organizações não governamentais, empresas internacionais e empreendimentos políticos que buscam construir o mesmo caminho que estamos trabalhando para um futuro mais justo, limpo e sustentável.

A todos esses indivíduos e grupos fora da Igreja que encontramos neste caminho comum, Jesus diz: “quem não é contra nós, é a nosso favor” (Mc 9,40).

Vamos em frente juntos, cortando e arrancando nossos pecados ecológicos e construindo uma casa comum mais limpa e saudável.

Perguntas para reflexão:

  1. Quais são alguns pequenos privilégios que uso para facilitar as rotinas diárias que estão, na verdade, prejudicando a criação? Quais — hábitos, produtos, alimentos — o Senhor está me chamando para cortar e arrancar?
  2. Existem iniciativas ambientais na minha vizinhança das quais posso participar?

https://drive.google.com/…/1BA50z0aivKEaxy6uW2lyhY…/view

Obs: A autora é Consultora Teológica do Movimento Laudato Si’

Suzana Moreira é mestra em Teologia Sistemático-Pastoral e bacharel em Teologia pela PUC-Rio. É Animadora Laudato Si’ pelo Movimento Católico Global pelo Clima e integrante da TeoMulher, rede de teólogas e cientistas da religião feministas. Ela trabalha como tradutora e intérprete de português, inglês e espanhol, e pesquisa sobre teologia latino-americana, teologia do corpo, ecoteologia e teologia feminista. Atua no Instagram, Facebook, YouTube e Twitter como Suzi Teóloga ajudando a divulgar conteúdo teológico de maneira acessível e atrativa.

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Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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