• Introdução
  • Saudação a cada companheiro/a. Abraço especial aos familiares, parentes e amigos das 600.000 pessoas vítimas da covid. Luto tem o sentido de solidariedade humana e luto significa compromisso em cobrar a responsabilidade por tantas mortes.
  • O Cepis, fundado em 1077, como posto de luta contra a ditadura, na tarefa da formação política, teve em P. Freire uma de suas grandes inspirações. Por isso, se alegra em participar dessa homenagem ao Patrono da Educação no Brasil. Nos alegramos também por nos juntar nessa homenagem, juventude da classe trabalhadora, representado por duas jovens mulheres, sinal que o legado P. Freire e a bandeira da Ed. Popular, estão mais vivas que nunca. São memórias que não morreram, espraiaram-se.
  • Freire costumava dizer que seus escritos foram sempre relatórios sistematizados de sua prática educativa. Dizia que se alguém usar esses seus relatórios deve estar disposto a recriar, a refazer, a reinventar os caminhos. Afirmava que “quem apenas copia ou decora, não aprende”. Dostoievsky de outra forma, disse “quem sabe como fazer, mas ainda não faz, ainda não sabe”.

 

  1. A P é uma concepção de educação em disputa. Eduardo Galeano, em seu poema, “Nascedor”, pergunta “Por que será que tem gente que tem esse perigoso costume de continuar nascendo? Quanto mais o insultam, quanto mais o manipulam e o traem, mais ele nasce”. Para negar o caráter político da educação, de forma consciente ou não, tem gente que reduz a Educação Popular ao metodologismo. Madre Cristina, do Instituto Sedes Sapientiae alertava:” quem quiser fazer só pedagogia, só metodologia, sem visão política, acaba fazendo a contra-educação popular.” Há outros que reduzem a EP a um mero método de ensino e aprendizagem ou a um método de alfabetização. O Próprio Paulo disse: “sou um educador e não um metodólogo”. E há os que intenta tornar a EP uma categoria abstrata e academicista. EP é bem mais que essas visões. No ato de diplomação da turma de 300 pessoas, alfabetizadas em 40 horas, estava presente o primeiro ditador do golpe de 64. Esse general chamou Paulo Freire e disse “sempre desconfiei que você era subversivo, agora tenho certeza”.
  2. Só existe EP ligada a processos de luta Popular. Perguntado como definiria a EP, P. Freire não hesitou e sintetizou: Educação Popular são todos os esforços de mobilização, organização e qualificação (política, técnica e cultural) que preparam as classes populares para o exercício do poder que necessariamente devem conquistar. Pedagogia do oprimido e não é pedagogia para o oprimido; ela se refere à trajetória que deve a assumir a classe oprimida. A EP ajuda no processo de despertar e desatrofiar o corpo, a mente e o coração e, com isso, devolver a vez e a voz à classe oprimida e a transformar trabalhadores/as em sujeitos políticos capazes de assumir decidir o destino coletivo de toda a sociedade. Ed. Pop. é irmã gêmea do Trabalho de Base, da organização popular.
  3. EP é uma concepção de Formação política, entendida como ferramenta que divulga a estratégia de poder de uma organização e qualifica militantes para implantar sua proposta, em determinada base social, visando transformar, pela raiz, a estrutura da sociedade capitalista. É fácil entender o ódio da burguesia quando propõe a ‘escola sem partido’, na sua batalha de ideias contra a educação libertadora. Sua intenção é apenas treinar, escolarizar e domesticar a força de trabalho. Paulo Freire repetia: “os patrões não têm medo de gente faminta, eles têm medo de gente que pensa”. A EP foi entendida por muitos lutadores/as. Um camponês de GO cantava: “gente não é boi de carro, pro carro de boi puxar; gente tem mente, mente que pode girar, gira a mente do carreiro e a canga pode quebrar. Um verso de G. Vandré alertava:” …porque gado a gente marca, tange ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente”.
  4. A EP é uma concepção política e pedagógica de Formação. É política quando afirma que é Popular para significar que é uma pedagogia que tem lado e que nesta sociedade dividida em classes, opta pela classe que trabalha. Assim, é uma pedagogia que tem uma intencionalidade clara: qualificar atores políticos, que sejam protagonistas, comprometidos com a construção da nova ordem social, sem exploração e sem dominação. E é pedagógica porque entende Educação como o processo de extrair do povo o que o povo já sabe, negando que o povo seja ‘tabula rasa’, mesmo quando nem sempre sabe que sabe, nem tem consciência. Essa pedagogia acolhe o contraditório saber do senso comum, mas problematiza essas “certezas” para que a classe explorada dê novos passos, no conhecimento da realidade. Além disso, como “o povo, muitas vezes, sabe o que quer, mas quer o que não conhece” ( Gil), educadores/as partilham com o povo, o saber acumulado da prática social (teoria, ciência, história…) como uma chave para entender a realidade e atuar sobre ela. No processo educativo, educador e educando assumem a postura de respeito, sem superiores ou inferiores, e utilizam o diálogo, o convencimento, o intercâmbio de saberes a fim de atuar sobre a realidade para transformá-la e transformar-se. Por isso, todos os atores envolvidos, (pesquisadores, pedagogos, militantes e povo) participam em todo o processo educativo, com autonomia e parceria, com tarefas diferentes, mas sem desigualdades.
  5. A eficiência e eficácia da EP se mede por seus resultados. Há formação política se: a) anima e apaixona o oprimido ao resgatar sua identidade e autoestima; b) mobiliza e rompe dormência e a sensação de impotência gerada pela dominação e acenam para o individualismo, o consumismo e o fatalismo; c) qualifica a militância para atuar na realidade social; d) consegue resultados que beneficiam a vida concreta e eleva o nível de consciência – há conquistas concretas e politização; e) provoca a multiplicação criativa, a partir de uma parte para atingir a massividade; f) compromete com os processos legítimos de luta pela emancipação humana; g) articula práticas, em níveis sempre mais amplos.
  • Segredo e convocação nas atividades de Educação Popular

A EP não é uma receita ou mágica, nem uma porção de informações e de técnicas. Toda atividade de formação deveria ser uma convocação para esse jeito apaixonado de educar, onde as pessoas colocam sua alma. Pois, Educação Popular é um ato de amor. À pessoa apaixonada não se ensina como agradar a pessoa amada, ela descobre o jeito de agradar seu amante. “A militância entrega sua vida por um punhado de sonhos” (P.Mujica).

Esse modo apaixonado de crer no povo, plantado no coração da militância, é a energia contagiante capaz de vencer a fúria e a sedução da classe opressora. Essa força invade seu coração, seu pensamento e sua ação e se expressa em forma de compromissos, gestos, atitudes, beleza, garra, festa, cultura, companheirismo…. O poeta, o profeta e o revolucionário usam a irreverencia como a melhor forma de dizer a verdade. Às vezes, sua voz se enche de indignação contra a injustiça e em outras, se derrama em ternura e solidariedade.

No 09 de outubro, reverenciamos a memória de Ernesto Che Guevara. Sua coerência reafirmava que o exemplo arrasta mais que as palavras. Ele dizia que “pedagogia é o exemplo”. Com ele, educadores/as são convidados/as a repetir: “Temos nossas mentes e nossas mãos cheias da semente da aurora e estamos dispostos/as a semeá-la e a defendê-la para que dê frutos. Isto alimenta a resistência, apesar e através da tempestade

Freire, sabia que não há militância sem risco e experimentou, na carne o exílio e a incompreensão. Frente a uma pressão escreveu um dia uma carta onde terminava dizendo: “Saio, mas não saio. Se existe uma briga, pela qual se deve brigar sempre é a luta pela dignidade coletiva. Cada homem e cada mulher briga em uma esquina. A gente pode até mudar de esquina, mas o que a gente não pode é mudar de briga”.

*Fala do Cepis, SP, 07/10/2020 – via remota

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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