I – Quem é o maior (Mc 10, 35-45)

“Quem quiser ser grande, seja o vosso servo” (Mc 10, 43). Certamente uma afirmação provocativa, paradoxal mesmo para nossa compreensão. Entretanto muito justa. Vejamos.

O ser humano é um ser social, o que significa que não pode se desenvolver e atingir sua maturidade a não ser com a ajuda de outros seres humanos. De fato, ele não consegue dominar todos os diferentes setores da sua existência por si só. Portanto deve ser necessariamente ajudado por outros. Seja já na sua infância e juventude, seja ao longo de sua vida. A realidade é complexa e plural, impedindo que ele a conheça em toda sua plenitude. Necessitamos ser ajudados pelos que conhecem o que nós mesmos ignoramos: médicos, advogados, engenheiros, técnicos em computação, representantes políticos, até por profissionais cuja ausência iria paralisar nossa vida, como garis, cozinheiras, motoristas, lojistas, e outros mais.

A sociedade humana só pode ser tal pela ajuda mútua: ajudamos e somos ajudados, servimos e somos servidos. Naturalmente existem serviços que supõem mais esforço, mais formação, mais risco, sendo consequentemente melhor remunerados. Mas nem por isso deixam de serem serviços aos demais. Numa república representativa o presidente, os ministros do Supremo, senadores, deputados e vereadores são os representantes dos que os elegeram, isto é, estão a serviço dos seus eleitores.

O mal surge quando o espírito de serviço desaparece naqueles que detêm o poder resultante de seus conhecimentos, de seus cargos, ou simplesmente de seu status social, quando são seduzidos e escravizados pelo poder, pelo prestígio social, pela facilidade de conseguir vantagens e benefícios, ou simplesmente por sucumbirem à vaidade e à soberba desprezando seus semelhantes. Como constatamos este mal em nossa atual sociedade! Infelizmente sabemos que nem mesmo a Igreja em seus hierarcas ficou imune a esta tentação.

Quando Jesus afirma que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10, 45), ele está expressando o que foi sua vida. Encarregado pelo Pai de levar homens e mulheres a uma vida feliz, a uma sociedade fraterna, a uma salvação que tenha início já neste mundo, ele dedicou seus anos de vida a pregar e realizar o Reino de Deus, isto é, pôs-se a serviço da humanidade e ainda nos enviou o Espírito Santo para que continuasse sua missão ao longo da história. Por isso mesmo, por mais paradoxal que esta verdade possa nos parecer, temos que reconhecer que a fé cristã nos apresenta a Santíssima Trindade a serviço do ser humano. E a razão é simples: porque Deus nos ama.

Consequentemente o serviço aos demais é o que dignifica e realiza os seres humanos. Aí eles encontram paz, alegria e felicidade, como pais e mães, como esposos, como educadores, como profissionais, como voluntários, simples, anônimos, mas certamente maiores diante de Deus que os famosos deste mundo. Servir é reinar, diz um ditado muito verdadeiro. MFM

Caros amigos,
Servir, sentir-se útil, levar vida a outros, deixar a humanidade melhor do que a encontramos, aqui se encontra o autêntico sentido da vida.
Como viveu e nos ensinou Jesus Cristo.
Mario França

II – Saber ver (Mc 10, 46-52)

“Mestre, que eu veja” (Mc 10, 51) tem um significado mais amplo do que parece à primeira vista, já que o “ver” implica mais do que um simples “olhar”. Este diz apenas que direcionamos nossa atenção a um objeto, ou a uma pessoa, ou mesmo a um evento, sem realmente conhece-los em sua realidade. O “ver” diz mais: chegamos de fato ao núcleo do que conhecemos, ultrapassamos sua aparência, atingimos sua verdade.

Jesus, em sua vida, não ficava preso ao que seus olhos lhe mostravam, mas soube passar do olhar para o ver. Assim aconteceu quando se deparou com Zaqueu (Lc 19, 1-10), quando chamou Mateus (Mt 9, 9-13), quando foi abordado por uma pecadora (Lc 7, 36-50), quando olhou para o rosto da viúva de Naim (Lc 7, 11-17) ou quando teve diante de si uma multidão de pobres abandonados por seus pastores (Mc 6, 30-34). Jesus não se deteve num simples olhar, mas os viu como seres amados por Deus e, portanto, dotados de uma dignidade e de um valor ignorados pelos demais.

É a fé que nos possibilita passarmos do olhar para o ver. Ela atua como uma chave de leitura qualificada, que nos impede restarmos presos às aparências, mas nos conduz ao âmago da realidade, das pessoas ou da sociedade. Ver as pessoas à luz da fé nos leva a sermos mais compreensivos, indulgentes, pacientes, descobrindo nelas o que apresentam de valor ou de positivo em meio a seus condicionamentos pessoais, nem sempre por elas dominados apesar de seus esforços. O ver nos possibilita julgarmos as pessoas como gostaríamos também de ser por elas julgados.

Mas a fé nos permite igualmente ultrapassar um mero olhar para a sociedade, que se acostumou a achar normais suas contradições, suas desigualdades, e suas injustiças, ou ainda a revoltante realidade das multidões famintas, dos emigrantes forçados, das guerras provocadas pelo comércio de armas, das leis do mercado que privilegiam os mais ricos, dos desperdícios provenientes do consumismo. Para muitos esta é a realidade a ser aceita, pois permanecem no olhar. Mas não para o cristão que sabe ver.

Este tem consciência que o mundo pode e deve ser outro, pois devemos nossa vida a Deus que ama a todos, que é Pai de todos, que quer a felicidade de todos, já que todos somos irmãos, como enfatiza o Papa Francisco em sua Encíclica Fratelli tutti. Igualmente a Encíclica Laudato Sì conclama todos a uma ativa tomada de posição diante do descalabro infligido à natureza com sérias consequências para os mais pobres do planeta. O Papa não se contentou com o olhar, mas como Jesus soube ver a realidade e as pessoas em sua verdade. Trata-se de um sério convite que ele nos faz para sabermos ver e agir consequentemente e não ficarmos no olhar resignados e passivos.

Importante é o desfecho do texto evangélico: “ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (Mc 10, 52). Ao seguir Jesus, ao se tornar um discípulo seu, o cego ultrapassou o olhar e passou a ver em Jesus alguém que deveria ser seguido, dando início a uma nova vida. Quando alcançamos o ver, iluminados pelo Espírito Santo, nossa vida não permanece a mesma. MFM

Caros amigos,
Que nossa fé permita sabermos ver e atuar por um mundo melhor.
Mario França

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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