I – Matrimônio cristão ( Mc 10, 2-16 )

Vivemos um tempo de muita instabilidade e insegurança devido às transformações que ocorrem na sociedade em nossos dias. As instituições sociais entram em crise, entre elas a família e o matrimônio. Numa sociedade pluralista as novas gerações carecem de referências sólidas para construírem suas personalidades, mostram-se frágeis e temerosas de compromissos sérios. Numa sociedade secularizada a influência da Igreja se encontra diminuída ou simplesmente ignorada. O sacramento do matrimônio não passa de uma solenidade tradicional que pode ser tranquilamente dispensada. Daí a fracasso de muitos casamentos, juntamente com a incidência preocupante de novas uniões, com sérias consequências para os filhos.

Como reagir nesta situação? Jesus nos oferece dois ensinamentos importantes. Primeiro. Sua crítica ao marido que repudia sua mulher pressupõe o costume daquele tempo, no qual a mulher era considerada propriedade do marido que dela podia se desfazer quando quisesse. Repudiada, ela estaria destinada a mendigar ou a se prostituir para sobreviver. Jesus condena tal procedimento invocando a intenção primordial de Deus pela estabilidade da união: “Eles são uma só carne” (Mc 10, 8). Sua palavra mostra íntima coerência com todo o seu ensinamento, que insiste sempre no valor único do amor fraterno, do qual o amor conjugal é uma de suas modalidades.

E com razão, pois quem ama quer não só o bem do amado, mas também que este amor não acabe e assim permaneça para sempre. O amor autêntico não tem prazo de validade, embora vá amadurecendo ao longo dos anos. É ele afinal que sustenta todo matrimônio em sua trajetória repleta de momentos felizes e de situações críticas. Se há amor, as desavenças normais são superadas e a afeição mútua amadurece. E se experimenta a felicidade por caminhos inesperados.

Mas Jesus nos transmite outro ensinamento. Porque a estabilidade matrimonial é hoje um sério desafio para os casais devido à atual sociedade. Cometeríamos um erro se fossemos condenar de antemão aqueles que se separaram e se encontram em novas uniões, considerando-os, sem mais, culpados e responsáveis. A palavra de Jesus é clara: “Não julgueis” (Mt 7, 1), pois não conhecemos o interior de cada pessoa, seu passado com as experiências sofridas, seu presente com os condicionamentos atuais. Só Deus conhece o coração de cada um de nós. Nota-se também que, para muitos, o fracasso do primeiro casamento os fez amadurecer e chegar posteriormente a outra união mais madura e mais estável.

A atitude cristã diante dos que estão separados ou recasados deve ser de compreensão e de aceitação. Não esqueçamos que Jesus nos ensinou ser a pessoa humana mais importante do que a norma (Mc 3, 1-5) e que a misericórdia deveria ser uma característica do cristão (Lc 6, 36). Certamente o amor autêntico quer durar para sempre, mas igualmente evitemos julgar as pessoas porque desconhecemos seu interior. MFM

II – O perigo da riqueza (Mc 10, 17-30)

Jesus considera as riquezas bem diversamente de como as julgavam seus antepassados. Para estes elas significavam benção de Deus, com o pressuposto que os ricos as recebiam por terem sido fiéis aos mandamentos de Deus. Jesus, pelo contrário, não vê com bons olhos aqueles que possuem muitos bens. Por outro lado, sabemos que muitos conseguiram certo bem-estar econômico porque trabalharam duro para aí chegar, e não se explica que sejam de antemão considerados pecadores e desonestos. Também sabemos que adquirir bens, garantir a sobrevivência sua e da própria família, prever a subsistência na velhice, são procedimentos perfeitamente sensatos e justos. Consequentemente uma preocupação por ter de que viver é própria do ser humano. Diante disso como fica a palavra de Jesus?

Certamente Jesus concordaria com estas observações, pois o seu grupo de apóstolos dispunha de uma reserva de dinheiro para os gastos necessários numa vida itinerante, reserva esta confiada a Judas, como sabemos. Portanto a questão não está em possuir bens, mas sim no modo como as pessoas se relacionam com os mesmos. Assim Jesus condena os ricos que só pensam em aumentar suas fortunas, como descreve na parábola do rico insensato (Lc 12, 16-21), que se apegam ao que tem (Mt 19, 22), que servem mais ao dinheiro do que a Deus (Mt 6, 24), que ignoram o sofrimento do pobre como o rico Epulão (Lc 16, 19-31).

Pois Jesus sabia muito bem que a riqueza tem uma atração própria que seduz e cega as pessoas, privando-as de sua liberdade. Pois honra, amigos, subserviência, poder de influência, vantagens sociais, e oportunidades econômicas, tudo isso pode conseguir quem dispõe de muito dinheiro. Não é sem motivo que, em geral, os pobres são mais solidários com os necessitados do que os ricos. E como os bens a serem usufruídos por todos são limitados, aqueles que os têm em demasia privam os demais dos bens necessários para a vida. Os milionários de hoje o são, porque dois terços da humanidade vivem na pobreza.

Jesus teve amigos e seguidores que nada tinham de pobres, como Lázaro, Zaqueu e José de Arimateia, mas que se mostraram sensíveis aos demais, não se deixando aprisionar pelo afã de ter sempre mais. Vivemos hoje numa sociedade com uma espantosa oferta de bens. Utilizada por fabricantes e comerciantes, a mídia nos seduz fazendo-nos considerar o supérfluo como necessário, reduzindo-nos a robôs obedientes e insaciáveis. Aqui a palavra do Papa Francisco é muito oportuna: sobriedade! Saibamos nos contentar com o necessário e ajudemos os necessitados com o que sobrou por não gastarmos com o supérfluo. Saibamos colocar nossos bens, sejam eles naturais, financeiros, culturais, ou profissionais a serviço dos mais pobres e experimentemos que a felicidade está mais em dar do que em receber. MFM

Caros amigos,
Saibamos usar para os demais os bens que Deus nos concedeu!
Já se vislumbra uma luz no fim do túnel da pandemia.
Abraços,
MF

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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