O primeiro barbeiro de que guardo lembrança é Abílio, no Beco Novo. A barbearia ficava em sala na frente da sua casa, na terceira esquina tomando a Igreja como ponto de início em direção ao Cruzeiro. Depois, se instalaria na esquina, ainda do Beco Novo, com a Rua da Pedreira, em salão que, até algum tempo atrás, sempre hospedou barbearias. Enfim, num salão paroquial, voltado para o oitão da Igreja. Daí, foi para Aracaju,  morando no Santo Antonio. Já é falecido.  Fui seu cliente nos dois primeiros endereços. Era risonho, de bom papo, camisa sempre por debaixo da calça, barba impecavelmente escanhoada, cabelo raspado, e, salvo engano, fumava charuto. Não era só Abilio, mas Abilio barbeiro, integrando a trilogia dos barbeiros que atraíram para o nome a profissão, ao lado de Rosalvo barbeiro e Nego barbeiro.

Tenho a impressão que se não foi o primeiro barbeiro a cortar meu cabelo, – aí me faltam dados -, foi o primeiro, do qual, me lembro com exatidão, a cortá-lo, sobretudo pelo vexame que, com uns quatro anos, passei, um dia, ao cortar o cabelo na sua barbearia.

Ocorreu nos tempos em que mamãe era quem nos levava, eu e Bosco. Deveria ser uma epopéia, porque mamãe só saia à rua u impecavelmente arrumada, além de ser sumamente lenta, sem falar que tinha de arrumar os dois pimpolhos. O fato não me enaltece. Cortamos o cabelo, primeiro eu, depois Bosco. A barbearia, na sala da frente da casa. que ficava no alto. Da calçada para a rua, numa inclinação, um certo gramado. Chovia. Eu já tinha passado pelo sacrifício de ficar sentado, todo coberto pela capa branca. Mamãe distraída, conversando com Detinha, esposa de Abílio, eu, livre da vigilância,  me soltei. Atraído pela chuva, da calçada desci até a rua, onde uma grande poça de água fazia presença, num convite para pisar na água e nela se jogar.  Foi o que fiz. Ao ser descoberto, corria para um lado e para outro, dentro da água.

Ainda hoje me impressiona a calma materna. A preocupação só de me enxugar para evitar resfriado ou gripe. Nenhum carão. A esposa do barbeiro trouxe uma toalha. O fato foi essencialmente positivo por um motivo especial: não tivesse ocorrido, não me lembraria de ter cortado o cabelo sob a guarda de mamãe. Às vezes, a traquinagem é positiva. Foi o caso – Diário de Pernambuco, 1º e 2 de maio de 2021. .

Obs: Publicado no Diario de Pernambuco
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Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras   
 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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