(professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,
decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio *)
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O pensamento ocidental se destaca por integrar unidade e pluralidade, semelhanças e diferenças, convergências e divergências, acordos e conflitos. Assim fazendo, procura responder ao maior desafio do pensamento hoje, que é, segundo Edgard Morin, “a necessidade de um pensamento adequado para enfrentar o desafio da complexidade da realidade, ou seja, de coletar as conexões, interações e implicações recíprocas, fenômenos multidimensionais, realidades que são ao mesmo tempo solidárias e conflitivas.”

Se nosso lugar de fala é o sul do mundo e concretamente a América Latina, vem com isso a preocupação de incluir e cobrir rostos e vozes da complexa e múltipla realidade do continente a fim de pensar uma antropologia que traga consigo o movimento incessante e a configuração multidimensional de uma realidade que pensa a vida como mistério de amor e reciprocidade. Nossas origens são europeias, aqui chegadas com a colonização, mas também afro-americanas, refletindo a matriz multicultural de um continente rico no tesouro de seus povos nativos juntamente com a nova síntese de miscigenação aí gerada, quase sempre feita em circunstâncias dolorosas de opressão. Somos a América do Norte presente no sul, o sul dialogando com o norte, um novo mundo que se inspira no antigo e olha para o antigo para inspirá-lo.

No século XX, acontece no pensar sobre a cultura e a religião neste sul do mundo, um salto de qualidade que permite entender a mística já não mais como um exercício abstrato e solitário do mundo e seus dramas.  Agora as paredes do mosteiro (ideal e realmente) foram derrubadas para traçar pequenas vias, caminhos pequenos percorridos por todas as ruas, nas fábricas, nas periferias, no meio dos excluídos, nos bombardeamentos, nos campos de concentração ou de refugiados. Enfim, no calar com compaixão em meio às noites dos mais vulneráveis, para estar próximos em uma nova experiência de aliança “com Deus, com os outros a partir dos mais pobres, na casa comum”, como diz e propõe o Papa Francisco.

Nada pode ser mais verdadeiro do que essa afirmação. No “século sem Deus”, como foi chamado o século 20, a experiência de Deus não deixou de dar-se com intensidade e vigor. E isso continua a acontecer no século 21, com originalidade e uma nova liberdade. Vamos encontrar a experiência de Deus fora dos espaços sagrados, em plena laicidade ou em meio a múltiplas diferenças, aprendendo e compartilhando até com outros místicos de outras religiões e confessionalidades. Ou mesmo com aqueles que não professam religião alguma Essa mística contemporânea será inseparável de uma ética ou prática.

Sempre foi assim? Talvez no fundo sim. Pode-se lembrar de Teresa de Ávila, agraciada com todos os dons possíveis e extraordinários, afirmando que o que importava eram as obras. Mas hoje tal traço se torna mais explícito, uma vez que a mística é cada vez mais vivida como uma abertura dos olhos não só para dentro, mas também para fora, para o mundo e para a vida onde vivem os homens e as mulheres e toda a terra. E se dá no belo e difícil movimento de existir. As experiências do absoluto ocorrem no menor do relativo e do pequeno que a contemporaneidade traz como desafio e inspiração. É mais do que nunca uma experiência de comunhão: com o mistério de Deus e com a dor do outro e o gemido da terra.

Acontece que a gestação desse novo traz no feminino seu lugar de gestação.  Esse pensar complexo abre espaço às manifestações e iniciativas das mulheres e do feminino em geral. Não é à toa que a analogia com a corporeidade feminina e a terra é forte e desafiadora. Os gemidos da terra e a opressão patriarcal das mulheres têm muitas afinidades e até geraram uma corrente de pensamento e espiritualidade chamada “ecofeminismo”.

A grande pensadora americana Susan Sontag diz em seu livro “A dor do outro” que a violência é um jogo masculino. A máquina assassina de guerra tem um gênero, é masculina. Sem querer generalizar e criar exclusões, temos que reconhecer que esta afirmação tem alguma verdade. Nosso pensamento tem sido hierárquico e, em certos casos, dualista. Integrar o feminino torna-se um belo desafio, integrando complexidades e gerando reciprocidades fecundas.

É mais que tempo de reconhecer as mulheres que marcaram a história do Ocidente e geraram seu futuro a partir da sombra cruel e diabólica da Shoah: Edith Stein, Simone Weil, Etty Hillesum. Três judias, três mulheres, com experiências um tanto heterodoxas de Deus, mas luzes de um novo caminho de fé e transformação da realidade. Outras poderiam ser adicionados a eles: Teresa de Calcutá, Mama Antula, Bakita

E acrescentaria também as mulheres que no sul do mundo transfiguram realidades sórdidas com a vida que pulsa em seus ventres e iluminam o futuro da humanidade. Elas podem ser nomeadas aos milhares, enquanto indivíduos ou coletivos. Entre estas estão as Mães da Plaza de Mayo, na Argentina, as Mulheres de Calama, no Chile, as Mães do Tráfico, no Brasil, as Mães em busca de tesouros da fronteira do México trazem o feminino para o centro do pensamento e do debate, e sugerem um novo aspecto da declinação da vida em feminino. Elas experimentam a tensão entre a unidade e a alteridade em seus corpos e a entregam ao mundo, proclamando a comunhão como o maior paradigma da vida em todos os níveis.

Na comunhão reside o paradigma maior. Somos filhos da comunhão e não da solidão. E no exercício do pensar, sentimo-nos desafiados a integrar complexidades, construir reciprocidades e gerar uma comunhão cada vez mais profunda.

Obs: Maria Clara Bingemer é  autora de O protagonismo dos leigos na evangelização atual (Ed. Paulinas), entre outros livros.

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