Djanira Silva 1 de outubro de 2021

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Esvaziei gavetas, prateleiras, armários e baús. Das prateleiras expulsei livros, livros velhos, novos, eloqüentes ou silenciosos. Livros de doutrinas, leis e orações que me obrigaram a conhecer o mal. Dos cadernos arranquei uma por uma todas as páginas escritas. Poupei as mais eloqüentes – em branco. Desfolhei velhas cadernetas rasguei em mínimos pedaços os pensamentos fugitivos que se aproveitaram dos meus descuidos buscando no arrimo das letras, a salvação. Dos álbuns expulsei retratos de meninas vestidas de organdi, meias soquete sapatos pulseira e obediência. Dos armários arranquei vestidos temáticos e simbólicos os brancos, cheios de enganos e promessas. O da primeira comunhão para me limpar de um pecado que já recebi cometido e me obrigaram a assumir para depois esquecer. O vestido da mulher que atravessou a igreja para o outro lado da vida e nunca mais voltou. Tentei apagar imagens adolescentes cheias de sonhos com os olhos voltados para um futuro que virava passado. Restaram apenas momentos, momentos de ilusões de desejos inventados, reprimidos. Fechei os olhos e neles tranquei a imagem da mulher madura que construiu um sonho pensando que era um ninho e foi apenas uma nuvem desajeitada desfeita pelo vento.
Enfileirei os registros de todas as fases da vida e colei tudo numa só imagem que guardei não sei onde. Retrato vivo e cruel de uma história banal. Estacionei diante do meu hoje e dos sonhos que jamais se transformarão em êxtase e paixão. Tentei resgatar os minúsculos pedaços de pensamentos fugitivos que se evadiram de mim e se aquartelaram entre as folhas de uma velha caderneta num momento de descuido .
A mulher de tão madura caiu em tentação. O gavião saqueou o ninho.
Hoje abomino teorias, pensamentos e palavras vãs que tentaram me ensinar os caminhos da ida. Sozinha, aprendi os da volta. E, de repente, era dona de uma saudade. E foi dentro dela que vi pano preto forrando as paredes de um caixão onde estavam enterradas as algemas que me haviam prendido a juras e mandamentos que me obrigavam a ser boa. A Bíblia me contou histórias que jamais pude entender. Guardei lembranças reduzidas que couberam inteirinhas dentro da minha inocência.
Quero agora a tranquilidade do esquecimento que em suas passadas macias caminha para lá e para cá fazendo e desfazendo as banalidades amealhadas, como se fossem um tesouro.
Para sofrer faço mágica, tiro uma saudade de dentro da outra entro nas brincadeiras de roda, nas procissões, nos encontros furtivos em noites de maio. E, na passagem para o desencanto da maturidade festejo o santo esquecimento.

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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