(professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,
decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio *)
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Os Estados Unidos surpreendeu o mundo e também seus aliados ao assegurar a saída do Afeganistão de suas tropas, diplomatas e cidadãos. Outros países estrangeiros procederam da mesma forma.  E os afegãos, aterrorizados com a chegada do novo governo, despertaram a compaixão mundial ao buscar desesperadamente os aeroportos e outras caminhos para deixar o Afeganistão.

Embora os dirigentes do Talibã tenham declarado que os direitos humanos serão respeitados, reina a apreensão em quase todas as esferas, dentro e fora do país de que tal não aconteça.

Há um segmento da população que nesse momento se encontra especialmente presente no coração de todos: as mulheres e meninas afegãs, que com a chegada do regime de força, veem-se ameaçadas de perder liberdade e direitos duramente conquistados nos últimos anos.

Em universidades afegãs, professoras e alunas se despedem por ter certeza de não poder manter as atividades acadêmicas.  O Talibã segue à risca uma interpretação da lei islâmica, segundo a qual as mulheres não devem frequentar lugares públicos, como escolas e universidades; não podem sequer sair à rua se não forem acompanhadas por uma pessoa do sexo masculino; devem cobrir inteiramente o corpo e o rosto, usando burca, além de véu.

 A ética do Talibã, que não é a do Islã como um todo nem sequer a da maioria, proíbe que o corpo da mulher seja visto por outro homem que não o marido. Isso confina as mulheres ao espaço doméstico e exila-as de possibilidades de crescimento pessoal, como estudos, trabalho, mobilidade nos transportes, viagens etc. Vestes que não sejam a burca são terminantemente proibidas, invisibilizando assim corpos e rostos das mulheres.  Para as meninas, vigora a mesma lei. Não podem sequer escolher seu futuro, que será decidido pelo pai ou, na falta deste, por algum parente do sexo masculino.

Diante do que pode acontecer com as afegãs, algumas mulheres ilustres manifestaram sua preocupação e desacordo.  A chanceler alemã Angela Merkel, ao se inteirar da volta do Talibã a Cabul, qualificou a situação de “amarga, dramática e terrível”. Hillary Clinton, secretária de estado dos EUA durante o governo Obama, e o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau manifestaram também preocupação.

Nas ruas de Cabul reina o silêncio.  Os cartazes onde aparecem mulheres com rosto descoberto, maquiagem e cabelos à mostra são cobertos com tinta. Algumas ativistas de direitos de mulheres e crianças no Afeganistão estão dispostas a conversar com o governo talibã,  para mostrar a riqueza de recursos humanos que são as mulheres afegãs e tentar negociar a manutenção de direitos e liberdades conquistadas.  No entanto, há insegurança e apreensão no ar.  A vulnerabilidade das mulheres é como um fantasma que hoje paira sobre a cabeça de cada menina ou mulher afegã.

Em 2009, aos 11 anos, Malala Yousafzai, ativista paquistanesa, assistiu à chegada do Talibã no Paquistão, onde vivia, e escreveu em um blog, sob pseudônimo, que se despedia para sempre de sua escola e amigas, certa de que não poderia mais voltar a estudar. A jovem se tornou conhecida no mundo inteiro por sua defesa da educação feminina no Paquistão.

Em 2013, a caminho da escola, Malala foi baleada na cabeça e teve o olho esquerdo perfurado pelas armas talibãs, que assim procuravam impedir a repercussão de suas denúncias.  O governo britânico mandou um avião buscá-la no Paquistão e a menina recuperou-se após várias cirurgias. Aos 17 anos, Malala emocionou o  mundo ao receber o Nobel da Paz, sendo a mais jovem da história a quem foi outorgado este prêmio.

Apaixonada pelos estudos e pela vida acadêmica, frequentou a universidade de Oxford, na Inglaterra, de grande prestígio, onde se formou em filosofia, política e economia, em 2020. Diante da tomada de Cabul pelo Talibã, a ativista usou as redes sociais para pedir ajuda das potências globais, sobretudo para mulheres, minorias e defensores dos direitos humanos.

Impressiona a igualmente trágica trajetória de opressão da mulher pelo mundo por parte das estruturas patriarcais e pela força da violência. Susan Sontag, conhecida pensadora estadunidense, escreveu sobre o fato de a violência e a guerra serem um jogo masculino do qual as mulheres participam pouco ou nada.  Acrescentamos que a exclusão das mulheres de atividades que poderiam trazer-lhes desenvolvimento pessoal e social também o é. Assim como o desrespeito e a apropriação indébita e violenta dos corpos das mulheres, que sistematicamente têm sido velados, cobertos, invisibilizados, ao mesmo tempo em que suas vozes são silenciadas.  A resistência feminina é muitas vezes punida com a violência e a morte. O crescimento do feminicídio em tantos países, entre eles o Brasil, é uma prova cabal.

Que neste momento tão difícil e delicado que vive o Afeganistão, suas mulheres não percam o que construíram ao longo de suas vidas; que suas meninas e jovens não sejam impedidas de sonhar e desejar um futuro e possam a ele ter acesso por meio da educação, do trabalho e da vida pública. Que os corpos e espíritos femininos possam ser e viver livres, como livres  foram pensados pelo Criador. Enquanto isso não estiver assegurado, as mulheres do mundo inteiro devem  repetir: “Somos todas afegãs”.

Obs: Maria Clara Bingemer é autora de Teologia Latino-Americana: raízes e ramos.

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