Djanira Silva 1 de setembro de 2021

[email protected]
www.djaniragamboa.blogspot.com.br

Quando escrevo textos humorísticos, é para desativar uma tristeza crônica da qual nunca falo. Faço do riso um escudo contra as dores da vida. Isto, porque, enquanto rio ou faço rir, nunca estou só. A dor, provoca o isolamento e raramente conseguimos comunicá-la.
Henry Bérgson afirma que a comicidade é dirigida à inteligência pura uma inteligência que não funciona isoladamente ela tem que estar em contato com outras. Quem ainda não experimentou a sensação desagradável de assistir sozinho a uma comédia? O riso só faz sentido quando compartilhado. Promove a comunicação. É um sentimento facilmente dividido enquanto as queixas e as lamúrias repetidas tornam-se cansativas e nos distanciam uns dos outros..
As grandes dores são mudas. O sofrimento contado com, freqüência, torna-se banal. Do riso a gente precisa. Mesmo as pessoas mais sérias e casmurras não são imunes a ele. Uma boa anedota é contada e repetida inúmeras vezes. Não conheço reunião onde as pessoas se juntem para chorar, nem mesmo nos velórios onde há até quem conte piadas. Eu mesma, durante um enterro fiz o melô do defunto: eu não vou vão me levando…
As coisas que fazem rir são simples. Os pessimistas deixam, por onde passam, uma onda de tristeza e melancolia.
Quando Aristóteles afirmou ser o riso a arte do feio, não quis com isto dizer que o ato de fazer rir fosse feio e sim que ninguém ri do belo. Rimos do cômico, do ridículo, do grotesco, enfim do feio. Uma pessoa que cai, involuntariamente, provoca o riso imediato. Deixar escapar um pum? Nem pensar. Dos animais só rimos quando apresentam alguma verossimilhança com o ser humano. Rimos também do ser humano que se assemelha a um animal.
Nosso propósito é mostrar que se pode fazer rir sem apelar para o palavrão nem para as misérias alheias. Às vezes, um simples trocadilho ou o emprego de uma palavra com duplo sentido são suficientes para tornar humorística uma cena do cotidiano.
A presença de espírito, a observação, a capacidade de captar momentos engraçados, enchem o nosso anedotário de histórias bem contadas e inteligentes. E nisto, o brasileiro é mestre. Não é preciso ser doutor em alguma coisa para ter o dom de fazer rir. Haja vista a literatura de cordel, elaborada por pessoas simples, às vezes analfabetas, é uma fonte inesgotável de situações pitorescas extremamente engraçadas.

Nas minhas experiências do dia a dia cheguei à conclusão de que a vida nos dá os elementos de que necessitamos para criar o bom o ruim o triste o alegre. Optei pelo alegre e pelo triste. Das observações do primeiro momento escrevi dois livros. A Maldição do Serviço Doméstico e o Deixe de Ser Besta. Pretendo escrever o Deixe de ser Doido. Acho que já estou com a semente na mão.
A velhice tem suas alegrias, dormir, por exemplo, é uma delas e acordar viva é outra. Sempre aconselho às amigas, quando abrirem os olhos, pela manhã, mesmo sentido alguma dor, riam, riam, gargalhem, a dor à esta altura é um sinal de vida. No dia em que acordarem, sem sentir nada, os filhos darão a notícia: mamãe morreu.
Aos jovens, recomendo, brinquem, dancem, namorem, aproveitem a vida. O que sobrar levem para o médico, de preferência o geriatra que trata do velho para ele morrer com saúde.
Quando uma pessoa, de certa idade afirma que se sente com 18 anos, pode internar, é débil mental. Outras dizem, cheias de empáfia: não me troco por uma jovem de quinze anos, ora, eu me troco, mas não acho quem queira.
De manhã olho-me no espelho. Acho-me ótima, a pele boa, penso até que sou bonita, a ilusão dura pouco. Ponho os óculos, pense numa coisinha feia.

A nossa língua portuguesa é cheia de armadilhas. Por exemplo:
Se a comida frita é fritura, por que a assada não é assadura, se quem anda no mar é marujo por que quem anda no ar não é araújo, se um verso pequeno é versículo por que um texto pequeno não é testículo, por que uma tese grande não é uma tesão?
Extrair da vida o que ela tem de melhor e aproveitar ocasiões para rir é uma das melhores táticas para se viver mais ou menos bem. Rir de si mesmo, é um barato, tira o prazer de outro rir primeiro. Quem quiser rir de mim, fique à vontade.

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços

ExposiçãoDesenhos

Série "Natureza"

Série Natureza

DeJanelaEmJanela

DeCostas

Série "Detalhes"

Série "MoradaImprovisada"

Série Morada Improvisada

Finados

Tratando de peixe

Série Flores

Série Flores

Esporte na Colônia

Série Natureza 01

Série Natureza 05

Caxambu

Caxambu

Caxambu - 02

Caxambu - 01

Penumbra...

Aglomeração...

Portão florido...

Barra Palace

Conjunto Harmonioso...

Reunião privada...

Espaços ocupados...

Arquitetura Perfeita...

Convergência II

Convergência I