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Enquanto em Brasília, o presidente se esmera em diariamente fabricar alguma crise para distrair o povo e desviar a atenção da tragédia atual que o Brasil atravessa, os movimentos sociais e os grupos  organizados nas bases preparam para a próxima semana mais um Grito pela Vida e pelos Direitos de todos/as. Nesse contexto, recordamos a memória de três bispos católicos que, pela sua atuação para além da Igreja, se tornaram profetas da paz e da justiça para todo o nosso povo. No mesmo dia 27 de agosto, recordamos o falecimento de Dom Helder Camara, (1999) que foi arcebispo de Olinda e Recife, Dom Luciano Mendes de Almeida (2006) que presidiu a conferência dos bispos católicos no Brasil e foi arcebispo de Mariana, MG e de Dom José Maria Pires (2017), arcebispo de João Pessoa, PB. Poucos dias antes, lembrávamos Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, que também nos deixou em agosto (12/08/2006). Cada um desses pastores tinha o seu carisma próprio e o seu jeito de ser profeta, mas todos viveram o serviço pastoral, procurando despertar a vocação profética de todas as pessoas movidas pelo amor solidário.

Nenhum desses pastores passou pelo sofrimento de ver, em nossos dias, setores das Igrejas cristãs se revelarem cúmplices do governo do ódio e defenderem a barbárie. Pastores e grupos eclesiais tradicionalistas parecem dar razão ao que dizia o famoso cineasta norte-americano Woody Allen: “Deus deve ser um cara bom, mas os amigos dele, eu não recomendaria”.

Esse é um desafio que vem desde a época de Jesus: o nosso modo de viver a fé e a nos inserir na vida social testemunha quem é o Deus no qual acreditamos. A maior revolução dos evangelhos foi que Jesus contestou a religião cultual e discriminatória do templo de Jerusalém e nos ensinou que Deus é Amor e só pode amar. Se é Deus, não poderia ser o Senhor todo-poderoso, amigo dos seus amigos e inimigo perigoso de quem não aceitar submeter-se aos seus caprichos.

Infelizmente, quando, na história, uma Igreja cristã adere a um império e se torna aliada dos poderosos do mundo, ela legitima uma visão cruel e mesquinha de Deus. Assim, os povos originários das Américas, assim como africanos e asiáticos, conheceram o Cristianismo colonizador e aliado dos europeus conquistadores.  Apesar da resistência de alguns missionários, quase todas as Igrejas foram coniventes com a escravidão e corresponsáveis pela perseguição e condenação às culturas originárias de nossos povos. Por isso, temos uma dívida histórica com as comunidades indígenas e negras. E esses bispos profetas, dos quais, neste final de agosto, recordamos a memória, nos deram exemplo de consagração a serviço dos mais pobres.

Atualmente, em todo o continente latino-americano, os povos indígenas se articulam em organizações independentes que propõem um novo paradigma de civilização para toda a humanidade: o bem viver. Trata-se de uma transformação social e política baseada na prioridade do bem comum e da relação do ser humano consigo mesmo e com a mãe Terra e toda a natureza. Essa busca do bem-viver radicaliza a democracia a partir do diálogo comunitário e aprofunda uma espiritualidade que vê o Amor divino presente em todo o universo. Exige profunda transformação cultural e social. Para quem é cristão, lembra o que escreveu Paulo aos romanos: “Não se conformem com esse mundo, mas o transformem pela renovação de suas mentes” (Rm 12, 1).

Obs: O autor é monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares.
É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 57 livros publicados no Brasil e em outros países. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes).

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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