Luiz Vieira, por teu intermédio, ao cantares do Ataulfo Alves  Laranja Madura, conheci os desencantos de uma laranja madura na beira da estrada: “Tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé”. Ri e aprendi  muito com teus  xotes, casos e causos. Me vi no relato da idade pueril de teu filho Eduardo, que após tantas vezes ao escutar-te, ou a tua esposa dizer-lhe: “se apanhas é porque fizestes algo de errado”, ao ver Cristo na cruz pergunta a vozinha: “Vó por que ele está tão machucado, o que aconteceu com ele?”. A vó procurando justificar diz-lhe: “É que ele apanhou muito, os soldados bateram muito nele”. E aquela criança em sua comovente ingenuidade retruca: “Vó se ele apanhou é porque fez alguma coisa de errado né?”

Não posso deixar de relatar Luiz Vieira que já de menino também aprecio mel, mas muitas vezes “me lasquei” de ferroadas das abelhas, mas  depois que me ensinastes foi uma beleza: “Eu dei de mão num cacetinho, fui devagarinho com cuidado e com carinho, futucando devagar”. A partir daí foi  uma “mão na roda”  e as abelhas passaram a ser minhas sócias…

Ouvindo teus xotes Luiz Vieira, procurei não me ver nunca “Pagando o Pato”, pois é uma situação difícil e complicada, desse modo procurei evitar  “muié da perna fina”, porque me baseava no que tua vó te dizia desse tipo de mulher: “Só duas coisas acontece num vareia. Se dá pra boa já se vê desde menina. Ou então cresce pra falar da vida alheia”. E dessas “cortadeiras” de “línguas afiadas”, até hoje corro às léguas, de “bater com os pés na bunda”, para ficar delas, bem distante.

E sobre o casório grande Luiz Vieira? Taí. uma coisa que ainda não sei:  se  foi “burrice da idade”! E  aquele “arrependimento… ninguém diz, mas tem vontade”! até agora não vivenciei, até porque, além do amor jurado e sacramento no altar naquele dia, felizmente nenhuma criança surgiu em desespero dizendo: “manhê… eu quero fazer pipi”. Mas numa coisa acredito que concordamos: “casar é bom… mas ser solteiro é uma beleza”.

Teus casos, causos e xotes caro Luiz Vieira, me fazem relembrar meu pai Pedro, outro pernambucano, e que, sem nenhuma alusão ou pretensão também traz o sobrenome Vieira. É que ele sempre te mencionou como um grande artista, amante da poesia e  de um grande difusor da cultura popular. Assim, confirmando as observações de meu pai, posso dizer-te: tua produção literária são registros de edificações para a cultura popular, de tamanha importância como são as pirâmides  para o Egito.

Contudo, gostaria de dizer-te o que  mais me encanta ainda são teus  poemas. Quanta sabedoria, quanta beleza, quanto poesia e principalmente quando mergulhas no tema daquela palavra única, que exprime os mais diversos sentimentos: a saudade. Confesso, sem nenhum constrangimento, estimado Luiz Vieira que cheguei muitas vezes a sentir inveja, boa (se é que existe inveja boa) de teus poemas emocionantes e adoráveis, mas é que eles sempre me encantaram e continuam a me encantar.

Em minha modesta opinião és um dos poetas que melhor descreves aquele sentimento. Quem não entender a dor no peito,  as noites mal dormidas, aquela vontade do reencontro, o contar dos segundos para poder abraçar novamente a amada, o prazer simplesmente de balbuciar o nome dela, sentir o seu perfume na brisa, mesmo que esteja a quilômetros de distância, compreenderá infalivelmente,  ao ler teus poemas, que tudo isto são só os açoites da saudade.

Quantas vezes estive sentado à beira daquela estrada da qual perguntastes: “Pra onde vai essa estrada seu moço. Queira por favor, dizer. Meu amor foi ontem nela moço. E não voltou pra me ver”. Como sofri, como um condenado, mas entendi: “Sem sofrer não se pode amar. Louvo a Deus meu sofrimento e a  vontade que eu sinto de chorar.” Também supliquei  e não conto as vezes: “Quero que voltes. Como volta a primavera”.

Luiz Vieira teus versos são como relatos de cada um daqueles que amam. Este sentimento universal, aprofunda-se na alma de muitos, contudo, raríssimos são aqueles que podem relatar com tanta perfeição e de forma  poética e sublime o distanciamento, mesmo que por curtíssimo tempo, daquela “causadora” da saudade. E como é acalentador aquela “Paz do Meu Amor”: “Você é isso: Uma beleza imensa. Toda recompensa de um amor sem fim. Você é isso: uma nuvem calma. No céu de minh’alma; é ternura em mim.” Quem vivendo um amor profundo, não se sente criança? Chega mesmo a ficar “abestado”, rir de tudo, vive cantando….  Após um beijo ardente flutua, flutua e flutua e sente: “ No calor do teu carinho, sou menino-passarinho.Com vontade de voar.”

Fico feliz que passeastes com Luiz Gonzaga nas mesmas odes que enriqueceram nosso Nordeste e especialmente nosso glorioso Pernambuco. Hoje vocês devem estar cantarolando juntos no céu, em perfeita harmonia com os anjos. Fiquem em paz.

Saudades de você grande poeta Luiz Vieira!

Obs: O autor, Prof. Dr. Rômulo José Vieira é Acadêmico da Academia de Ciências do Piauí; Acadêmico da Academia de Medicina Veterinária do Piauí; Acadêmico correspondente da Academia de Medicina Veterinária do Ceará; Acadêmico correspondente da Academia Pernambucana de Medicina Veterinária.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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