I – Um Deus compassivo (Mc  6, 30-34)

O texto do Evangelho deste domingo termina afirmando que Jesus teve compaixão da multidão, porque eram ovelhas sem pastor. E superando o cansaço resultante das pregações passadas, começa novamente a lhes ensinar sobre o Reino de Deus. Este texto, entendido em toda a sua importância, é de enorme para nossa vida de cristãos.

Porque tudo o que sabemos de Deus nos foi revelado por Jesus Cristo. E ele revela Deus não somente por suas palavras, mas, sobretudo por sua pessoa, pelo modo como se comportava e vivia, ou como reagia aos acontecimentos do dia a dia. “Felipe, quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 8). Esta afirmação valoriza enormemente o texto de hoje: “e Jesus teve compaixão da multidão” (Mc 6, 34). Pois significa, nada mais nada menos, que Deus tem compaixão de nós, que nosso Deus é um Deus misericordioso, compreensivo, sensível às aflições próprias de nossa condição humana.

Verdade fundamental para a nossa vida de cristãos, pois cada um de nós vive como cristão dependendo da imagem que tem de Deus. Um Deus impassível, exigente, que vigia tudo o que nós fazemos, rigoroso em suas normas e implacável em seus mandamentos, fará do cristão alguém que vive dominado pelo medo de pecar e de ser condenado. Sua fé acaba por ser mais um peso, mais uma preocupação em sua existência já tão difícil de ser suportada. Conheço pessoas que têm medo de Deus, que procuram dele se afastar e exclui-lo de sua vida concreta.

Onde se situa o problema? Na representação que receberam de Deus que, certamente, não era aquela que foi revelada por Jesus Cristo, tal como aparece da parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32). Pois esta manifesta um Deus que é Pai, que livremente nos chamou à vida, que nos ama, que quer nossa felicidade, que compreende nossa fragilidade, nossas carências, nossos infortúnios, e também nossas incoerências e nossas quedas, sem dramatiza-las ou considera-las motivo para romper conosco.

Se nós temos esta imagem verdadeira de Deus revelada por Jesus Cristo, nossa vida não mais transcorrerá sob a ameaça de normas e de proibições, e sim no cuidado de corresponder a este amor primeiro de Deus que nos chamou a viver como seus filhos e filhas. Pois o amor infinito de Deus por nós supera qualquer pecado, como afirmou o apóstolo Paulo (Rm 5, 20). Por mais que desçamos ao fundo de uma vida pecaminosa, sempre encontraremos a mão de Deus a oferecer seu perdão e sua ajuda e fazendo-nos experimentar uma paz que não conseguiríamos alcançar.

A única condição que nos é pedida consiste em tratar nossos semelhantes do mesmo modo com que Deus nos trata. “Sede misericordiosos como vosso Pai celestial é misericordioso” (Lc 6, 36). Pois nossos semelhantes são tão frágeis como nós e nós não lhes somos superiores.

Uma representação equivocada de Deus origina uma imagem de uma Igreja fria e moralista, obcecada pelo pecado e pelo desvio, sem muita compreensão pela realidade vivida e, por vezes, duramente suportada pelo ser humano. E como o ser humano tem necessidade de sentido para sua vida, ele se afasta da instituição eclesial e vai buscar o que lhe falta em espiritualidades exotéricas, em técnicas de autocontrole da moda. Não nos admira que as novas gerações se afastem da Igreja e do Deus tal como vem anunciado por alguns pregadores.

Uma representação correta de Deus, baseada na pessoa de Jesus Cristo, nos leva a viver uma vida cristã mais pessoal, mais fundamentada no amor e não no medo, mais livre e menos sujeita a prescrições, num relacionamento direto e confiante com o Pai de Jesus Cristo e também nosso Pai. E experimentaremos viver nossa fé com maior liberdade, com uma oração mais pessoal, com maior sensibilidade à voz de Deus, enfim com mais paz e alegria.
MFM

Caros amigos,
Que o Deus de Jesus Cristo esteja muito presente e atuante na vida de todos vocês!
Mario França

II – A multiplicação dos pães  (Jo 6, 1-15)

O capítulo sexto do evangelho de São João nos fala do alimento corporal (o pão cotidiano), do alimento que dá sentido à vida humana (a fé em Jesus Cristo) e do alimento espiritual que é a eucaristia. Sem dúvida necessitamos de todos eles em nossa existência. Todos eles são dons que Deus nos dá. Entretanto vamos nos limitar à eucaristia porque participamos da eucaristia no domingo e devemos captar melhor seu sentido profundo para vivê-la mais pessoalmente.

Consciente de que vivia as últimas horas de sua existência Jesus quis ter uma última refeição com seus amigos, dando-lhe, entretanto, outro sentido ao tomar o pão, distribui-lo com a afirmação: isto é o meu corpo entregue por vocês, e ao tomar o cálice com vinho dizendo ser seu sangue, sinal da nova aliança. E terminando com um imperativo: fazei isto em memória de mim. Corpo e sangue significam para o judeu a pessoa mesma. Portanto Jesus queria que se lembrassem dele como de quem ele realmente foi, a saber, alguém que viveu para os demais, que deu sua vida pelos outros, sobretudo pelos mais necessitados.

Portanto a eucaristia é a celebração da própria vida de Jesus, do que constituiu o núcleo de sua existência. E que deve constituir o núcleo da nossa vida, já que somos seus discípulos e no amor fraterno é que nos identificamos como cristãos. “Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns para com os outros” (Jo 13, 35). Portanto a celebração eucarística é também a celebração do que mais verdadeiramente nos constitui como cristãos. Portanto sua finalidade é também alimentar, fortificar, e amadurecer nossa vida cristã.

Porém há uma séria condição para que saiamos da missa com a fé renovada e mais forte. Porque a celebração eucarística é um sinal da entrega de Jesus aos demais, que deve ser repetido a seu pedido: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19). Sinal significa alguma coisa que aponta para adiante e que só tem sentido quando nos remete ao que quer assinalar (a luz verde ou vermelha nos semáforos). Pensando bem, tudo o que encontramos no cristianismo é sinal, porque nos remete a Deus que ultrapassa nosso conhecimento direto. Palavra de Deus, sacramentos, imagens, cantos, a própria Igreja, todas estas realidades apontam para Deus. Portanto não podemos ficar retidos e nos contentar com o que veem nossos olhos ou escutam nossos ouvidos.

Portanto na celebração eucarística importante é nosso olhar, nossa postura, nossa atenção. Vejamos o que está por trás do que vemos e ouvimos. Na consagração o sacerdote apenas repete as palavras de Jesus, pois é ele quem entregou sua vida e se dirige a nós. Na liturgia da Palavra é Deus quem nos fala; nos cantos (glória e santo) louvamos a Deus, na consagração invocamos o Espírito Santo e em seguida rezamos a Deus pela Igreja, pelos vivos, pelos mortos, e também  por nós mesmos presentes na celebração..

Tudo isto já nos coloca em comunhão com Deus se participamos devidamente da celebração. Antes da comunhão rezamos a oração ensinada por Jesus, reconhecemos não ser dignos da mesma e ao comungarmos o corpo ou a existência de Cristo respondemos: amém, quer dizer, eu creio, eu aceito, e me comprometo a viver esta existência no amor fraterno. É a comunhão que me dá forças para tal, é este alimento que me capacita a viver como cristão. Depois da comunhão deveria seguir um momento de conversa pessoal com Jesus Cristo já que com ele quero me identificar.

Se conseguirmos ter este olhar que vai além da celebração visível então certamente sairemos da Igreja mais firmes na fé, mais pacientes na esperança e mais solícitos na caridade. A eucaristia terá sido realmente um alimento para nossa vida cristã, e não apenas um rito que presenciamos.
MFM

Caros amigos,
Com votos de uma vivência eucarística mais verdadeira!
Abraços fraternos,
Mario França

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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