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Chico canta o “Cotidiano” e vem, de suas múltiplas origens, me dizer que, mesmo na delicadeza e na simplicidade, se pode ser muitos, o tempo todo.

Mestre da arte de vadiar pelos diversos seres que o habitam, me leva, sua voz, a minhas pequenas pátrias, a minha insistente busca de afinidades, no desejo obstinado de encontrar compatriotas.

Cresci estrangeira – numa casa “portuguesa com certeza” que tinha cheiro e cor de muito antes, de além-mar, e que foi, a um só tempo, esteio e estranheza, já que, lá fora, no chão, na argila ou na lama onde fui gerada, tinha vala negra e menininho barrigudo, sem calça e de pé no chão… E se me sufocou, sempre, o calor da temperatura-ambiente, simultaneamente só crescia, em mim, o fogo da vontade de me consumir em envolvimentos e aproximações.

Agora, o Chico canta o rio e o barco Paciência… E lá estou eu, atirada um ano atrás, no Rio Amazonas, buscando quem era, quem sou. Achei. Voltei cheia de mim. Quis mais que nunca a proximidade. Quis, mais que sempre, orgulhar-me da flama e da chama, ainda quando elas representem dor e até morte.

Fui outrora de uma terra onde brotava esperança.
Depois fui de uma outra, onde germinava coragem.
Fui dedicação e fui esquecimento… principalmente esquecimento de mim mesma.

Minha pátria, nesse exato momento, tem pouco mais (ou menos) de 30m² e hoje, enquanto escrevo, abriga vinho português, queijo francês, envolvidos pela magia indígena brasileira e, por isso mesmo, traz interiorização universal.

Estou indo… cada vez menos só… a caminho da construção de meu destino. Mas vou sozinha.

Se reconheço hinos e flâmulas nos parceiros de momentos sublimes, choro minha estrangeira e inadequada dor de ser só eu mesma, depois que tranco a porta e consigo me perder, até no box de um banheiro onde nem tenho espaço pra me virar.

Tive pátria, um dia, quando subi a montanha do orquidário Guinle, na Petrópolis da minha infância, e me senti livre, aspirando o perfume do mato e da terra e, quando, gritando minha alegria, provoquei desconforto a minha volta. Aquela terra era minha! Ao menos naquele ínfimo instante em que eu e ela nos misturamos –  essência pura!

Encontrei minha pátria outra vez, perto do céu, inebriada com a altura e a beleza da neve brilhante ao sol. Era eu que estava ali e eu era, a um só tempo, aquilo tudo!

Tive pátria, no país de meus avós, e chorei por aquele encontro, misturando as águas de riachos para tentar levar D. Pedro de volta a Inez de Castro, num momento eterno, que eu pude reter com minha respiração. E, também, na grande cambalhota cósmica que a terra do Vale do São José do Rio Preto me mostrou, tanto tempo antes. Senti a paisagem e soube que sempre fora assim.

Perdi minha Pátria tantas vezes também!
Uma vez foi quando, no colégio, menina ainda, me disseram que as águas que rolavam de meus olhos eram deselegantes e eu, chorando na hora da festa, era, portanto, um pária.

Depois, virando adulta, quando minha emoção foi chamada de stress. Acho que esgotamento nervoso é mais ou menos como embarque sem passaporte. Você fica retido na alfândega, porque não tem o reconhecimento externo para entrar nem sair, de nenhum lugar.

Mas Pátria, mesmo, eu própria me senti, por inteiro, quando pari meus filhos, com enorme dor e prazer extasiante. Pátria sangrenta e poderosa, de onde saíram três criaturas fortes e cheias de Vida que eu, terra fértil, favoreci eclodir.

E mais Pátria ainda fui, ao ver jorrar de meus seios, até então quase imperceptíveis, alimento quente e confortante. Ao vê-los, minhas crias/criaturas, saciadas e em paz. Ao ver-me nutriz – terra boa. Como quando se perderam e se encontraram, em mim, os companheiros que confiaram em minhas sendas. Que bom poder ser porto seguro! Que bom ser a terra mater/pater – pátria! Que bom conter e dar prazer!
E a experiência de poder ser terra à vista?
Que bonito o olhar que recolho, quando penso ser quimera e me posso ver como Terra Prometida!

Um dia, esse meu corpo foi pouco pra tanto querer – virei instituição. E soberba e pretensiosamente (só hoje sei) fui me tornando Escola. A Vida, como comprometimento, me ofereceu o mote: que fosse Viva a destinação que eu ia dar a minha história. E foi.

 Depois de, nem posso enumerar quantos, momentos de profunda emoção, eu sabia que minha pequena ilimitada pátria tinha ficado guardada dentro de muita gente. E pude libertá-la dos grilhões de tempo e de espaço.

Hoje, sou quase velha. Disfarço bem, mas vou me encaminhando pra uma nova passagem. Procuro quais serão as próximas etapas. Cada vez mais lentamente, é verdade. Quem vê não diz, porque quem vê não sabe de um tempo em que fui intangível.

A Pátria de hoje é fortalecida diariamente pelos desenganos, tanto quanto pelas surpreendentes pequenas alegrias: ora é um passarinho que canta um mio, ora uma criança que confirma: “Aqui encontrei amor”; ora um amigo antigo que acena solidariedade e compaixão; ora um desencontro novo que vira desafio.

  Minha pátria hoje, sem notícias de tevê ou de jornal, resume-se a afetos e a eles decidi me jogar por inteira. Vivo de poucos sorrisos, irrigo-me de lágrimas inevitáveis e sonho abraços.

Minha pátria chega, às vezes, em encontros nunca vividos. Pode ser, como agora, na música do Chico, ou no “Assédio” do Bertolucci.  Mas, se o filme “O Paciente Inglês” falou tão profundamente em mim é porque, com certeza, tenho irmãos e parceiros, onde quer que eles estejam.

Acabei por descobrir que, nesse chão mesmo, que tem nome e território demarcado como Brasil – e não é à toa –  mora meu fogo interior e tenho ido à procura dele.

Tem horas que ele aparece na vela, que teimo em acender, ritualmente, pra pedir e agradecer – agradecer e pedir – num exercício sem fim de desejar e merecer… Outras vezes a chispa me pega no meio do sono e acordo tendo a certeza de ter sido visitada. Acolho a presença que me surpreende e acolho-me, na capacidade gratificante de ser ancoradouro.

 No céu, encontro a Luz e ela me diz –“Sossega! Tudo isso é muito maior que você!”
Sou, nessa hora, parte de um todo que me envolve com tal segurança e tranquilidade, que posso saber exatamente de onde vim

São pátria também – e são território e pertencimento – os fugazes e eternos momentos de encontro a dois. Delicio-me e peço que durem. Que parem todos os relógios, que pare meu coração-bomba/ritmada, que pare o ar, que eu possa saber que sou e que já não estou sozinha.

Que eu possa esquecer que estive perdida, que eu possa despreocupar-me de ir lá fora e encontrar guardas da alfândega que vão querer saber:

–          Por quê?
–          Pra onde?
–          Pra quê?

Coisas a que eu, agora, só posso responder com um balanceio de cabeça, que aprendi, contemplando os passarinhos.

(Texto escrito em 07 de setembro de 2000, para ser lido no  Sexta Cultural do Centro Cultural Viva e publicado no blog www.vasosagrados.zip.net em 11.09.2007).

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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