Eduardo Hoornaert 1 de agosto de 2021

No momento em que escrevo, segundo dia do mês de outubro, as máquinas de produzir prefeitos e vereadores pelo Brasil afora, estão funcionando a todo vapor. Vejo propagandas eleitorais sempre mais ‘terceirizadas’ e industrialmente produzidas. A tendência vai se acentuando com o correr dos anos. Penso que chegará o tempo em que o candidato não precisará mais nem sair de casa nem mesmo abrir a boca. Bastará fazer aparecer sua imagem, devidamente retocada, em todas as esquinas da cidade, repetir até a exaustão sua música e fazer com que o número de seu partido entre na mente de um número máximo de pessoas. Então o candidato em questão não terá mais nada a fazer a não ser pagar o preço que a empresa de propaganda lhe cobra. Isso mostra que o problema da democracia é mais complicado do que se costuma pensar. Pode-se perguntar se as pessoas desejam realmente a democracia, se elas são efetivamente ‘democráticas’ e sintonizam com os políticos que afirmam, desde o século XVIII, que a democracia é o melhor sistema de governo. Inúmeros indícios na vida de cada dia mostram que a democracia não parece constituir uma referência para a grande maioria das pessoas. A impressão é que as pessoas não se sentem mal em ser manipuladas por grupos pequenos, formados por pessoas ricas ou poderosas. Hoje os manipuladores da opinião pública se sentem tão à vontade que não temem mais em mostrar suas caras. Os super-ricos e super-poderosos aparecem nas revistas, nos jornais, na TV e nos grandes eventos. A impressão geral é que as pessoas gostam dessas exibições, ou seja, gostam de ser enganadas. Aparecem imagens sempre mais fantásticas de formas de poder autoritário e essas imagens se repetem de mil maneiras na TV, nos livros, nos mega-eventos religiosos e nas igrejas em geral. Cada igreja hoje é (mais ou menos) carismática. Basta navegar pela Sky para ver como funciona o mundo de hoje na mente da grande maioria das pessoas: um mundo de fantasias em torno do poder e da manutenção da ordem. Se Machiavelli voltasse hoje, ele ficaria admirado ao ver como sua descrição da realidade política corresponde perfeitamente ao que acontece hoje. Realmente, mais do que nunca, ‘o homem é um ser disponível’. Quem estiver em condições de manipular o ser humano, terá inevitavelmente sucesso, pois o homem estará sempre ‘disponível’ para ser enganado. No mundo da grande comunicação não aparece de forma nenhuma a vontade de participação ou de democracia. O que aparece é o seguimento dos bem sucedidos, a vontade de imitar e de alcançar uma carreira de sucesso. Essa vontade do seguimento aparece de forma clara nos mega-eventos religiosos, hoje programados por praticamente todas as religiões. Sobressai a figura do papa, que encarna o poder total e pede que se siga cegamente o caminho que ele indica. Caro leitor, prezada leitora, quer fazer uma pequena pesquisa comigo? Que tal entrarmos, em imaginação, numa livraria? O que nos chama a atenção, logo na entrada, são os grandes best-sellers. Está aí ‘O senhor dos anéis’, de J.R.R. Tolkien, escrito em 1954, que passou recentemente a venda de 200 milhões de exemplares, um monte de livros capaz de encher uma sala de teatro. ‘O Código da Vinci’, de Dan Brown, vendeu 86 milhões em 2010. Vamos para os DVDs. A primeira edição do filme Matrix (1999) custou 65 milhões de dólares e rendeu 456 milhões. A segunda (Matrix reloaded) custou 127 e faturou 740. Foi o único filme, até agora, que arrecadou 100 milhões de dólares num único fim de semana. Só no Brasil 5 milhões de pessoas foram ver o filme. Isso já basta para que tiremos uma simples conclusão: o grande público gosta de ver e de ler histórias montadas sobre o mesmo esquema autoritário. Por meio de um caldo de imagens, filosofias, referências literárias e culturais aparece sempre a mesma ideia: o poder é conquistado por pessoas que se sacrificam inteiramente e que devem ser seguidas. Permeia essa produção uma nostalgia não confessada do tempo que tudo estava em ordem, numa sociedade organizada segundo uma ordem clara e simples, enfim, numa sociedade baseada em obediência. A simplificação, o encanto da imagem e a força do som se juntam para expressar o que a maioria das pessoas é e quer ser: um rebanho de cordeiros que segue o pastor (sempre benevolente e corajoso). A alma generosa e corajosa do pastor domina os ‘cordeiros’ e as ovelhas, seguindo uma lei que parece provir da própria natureza. As imagens repetidas, em filmes, livros, revistas e programas de TV, acerca da manipulação oculta do mundo que só pode ser combatida por seres excepcionais, fazem com que as pessoas não percebam que elas mesmas estão sendo manipuladas por forças nada ocultas. Por trás dos best-sellers e dos filmes e programas televisionados de enorme sucesso existe a realidade do mundo em que vivemos. É um mundo onde se pratica a cada momento um ataque ao cérebro emocional das pessoas. Um ditado americano diz com clareza o que está acontecendo no mundo de hoje: ‘enquanto você dorme, eles criam sua realidade’. Quem são eles? Nos Estados Unidos, eles são bem conhecidos e se chamam NBC News; CNN; Fox News Channel; CBS News; ABC News; BBC World News. No Brasil, o nome deles é Globo, a TV Globo (Globo News etc.). Como é possível ficar sentado durante horas diante da TV e não perceber que a TV Globo tem o Brasil na mão e trabalha dia e noite para nos transformar em cordeirinhos e cordeirinhas, aparentemente inocentes, mas na realidade cruéis e insensíveis, ignorantes do que realmente se passa em nosso redor? 2nd October 2012

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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