Rômulo Viana 1 de julho de 2021

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Amar e deixar-se amar. Talvez a vocação primeira do ser humano.

E deixaram-se amar. E foi por isso que até hoje, cerca de 13 anos depois, amam-se num amor divinal. Mas de quem estamos falando? Deixem-me apresentá-los.

O ano é por volta de dois mil e seis. O cenário, um encontro de Ceb no Ginásio do Colégio Dom Amando. O primeiro olhar partiu unicamente dela. Olhar silencioso e particular. A paixão nascia ali. Sim. Mas um amor desse tipo não é vivenciado sozinho. Embora naquele momento seu olhar tenha ficado a espera de uma resposta. Resposta esta que não veio por parte dele: rapaz de altura mediana, cabelo crescido, diversos colares no pescoço, pulseiras artesanais no punho, e sem falar nos anéis de tucumã que tinha em cada dedo da mão esquerda. Da parte dela, quem sabe se por essa aparência não muito convencional faltou-lhe a coragem de chegar junto e confessar o que acabava de sentir. Faltou coragem, ousadia. E sobrou medo…

Um ano depois e a vocação nasceria. Reencontraram-se nas dependências do antigo Colégio Objetivo, por ocasião do Curso de História da Igreja na Amazônia. Ela o reconheceu: ainda usava colares e anéis. E ele a conheceu: olhos radiantes, cabelos negros e lisos, lábios carnudos e provocantes, porém sem batom. E perdeu-se numa paixão meteórica. Também era amor. Uma vez apaixonados viveram uma semana mágica. Não se largavam um só instante. Acariciavam as mãos numa simetria perfeita. Dialogavam como se se conhecessem há muito tempo. A intimidade aparente não antecipou o momento certo do beijo. Que só veio lá pelo terceiro dia numa escapada furtiva em plena hora de almoço. Um único beijo. Como se deixaram entrelaçar esqueceram-se do proibido: um pecado que impossibilitaria qualquer tentativa de um namoro. Eram, pois, vocacionados a vida consagrada. Ele, prépostulante a padre. Ela, aspirante à freira.

A partir da semana seguinte não mais se beijaram. Não mais se encontraram. Assumiram de fato a vida religiosa. Só nos olhares o amor se correspondia. Foi assim durante todo aquele primeiro ano. O sentimento ficou mais distante quando, no ano seguinte, ele cursou todo o postulantado em São Paulo. Sabe-se que durante este período apenas uma carta foi escrita. E quando ela recebeu leu uma única vez e a queimou em seguida. Tinha medo das superioras descobrirem.

Passado esse ano, ele retornou e foram vivenciar o noviciado em dois mil e oito. Naquela época as duas congregações caminhavam juntas. Embora estivessem próximos, os corações se distanciavam. Ela relutava em seguir o caminho religioso. Ele a perseguia com olhares, apertos de mãos e abraços íntimos. E a cada oportunidade que tinha de abraçá-la sussurrava ao pé de seu ouvido: “eu te amo”. Realmente, o amor lhe tomara de conta. Perdeu totalmente o interesse pelo convívio comunitário. As laudes, hora média, vésperas e completas não passavam de leituras demoradas. Nas adorações ao Santíssimo, adormecia na capela num sonho em que somente ela fazia parte. Sonhos sem amassos. Sem pecado. Sonhos simplesmente de amor… E nem nos passeios e convívios sentia interesse. Nesse ritmo, embriagou-se numa tristeza e angústia sem fim. Queria a todo custo provar novamente daquele doce e suave beijo de quase dois anos atrás. E em meados de agosto pediu dispensa. Três anos de seminário e uma saída que nem mesmo ele sabia o motivo. Se era amor, paixão ou vocação só o tempo responderia.

Ela continuou na vida religiosa. Meses depois também viria a sair. Assim como ele, não soube definir o motivo. Levaram vidas separadas até certo ponto. Ou melhor, até ele saber que ela também havia saído. Quando soube, partiu numa busca desenfreada por quem tanto se apaixonara. E tempos depois revelavam ao mundo o amor que durante todo aquele tempo de congregação se manteve escondido. Sim. Finalmente juntos!

Hoje completam quase seis anos de um amor que se revigora a cada instante. Não acreditam que perderam a vocação que tanto almejavam. Pelo contrário, encontraram a vocação que de fato lhes era devida. Pois, de toda essa experiência lembram com total exatidão da antiga frase que ficava na sala do convento e que em diversas ocasiões refletiam-na juntos e que hoje, acreditam que ela responda perfeitamente o destino que traçaram, ou que lhes foi traçado: “Nossos caminhos são mistérios da Divina Providência”.

Obs: O autor é poeta e fotógrafo amador. Trabalha na UFOPA / campus de Óbidos.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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