1. Ivair era de uma organização que resistiu à ditadura militar. Tinha claro sua missão de ajudar o povo a descobrir a raiz da exploração e lutar por uma sociedade onde produção e a apropriação da riqueza fosse social. Já sabia que, na luta popular, a consciência não nasce da verdade enfiada goela abaixo. Que era preciso entrar pela porta que o povo oferece, pois, tomar consciência é um processo pessoal, despertado por alguém e que só cresce cultivado numa caminhada coletiva.
  2. Num sábado de 1969, como de costume, foi à feira. Lá notou uma coisa que nunca tinha notado – o açougue desossava a carne e jogava os ossos no lixo. Da mesma forma os feirantes, por um pequeno defeito, jogavam fora muitas frutas, verduras e legumes. Mas, teve a sorte de encontrar um velho amigo de infância. Depois dos abraços e notícias, falaram da situação pessoal e do bairro. Seu amigo morava na periferia porque o salário era pouco. Disse que lá havia desemprego e fome.
  3. Trocaram de endereço e prometeram se visitar. Ivair, lembrado de sua missão, pensou que a visita podia ser começo de uma longa estrada. Quinze dias depois, foi conhecer a casa do amigo que até ficou chateado porque ele levou junto um pouco de mistura para ajudar na comida. Além de conhecer a família, conheceu mais gente de quem ouviu e viu a situação. A turma gostou da conversa; era a primeira vez que alguém de fora escutava eles. Pediu que ele voltasse outras vezes.
  4. Ivair voltou alegre, mas cheio de muitas perguntas. Porque uma coisa é ler e falar sobre fome e pobreza; outra coisa é ver e sentir a miséria do povo. Por isso, procurou estudar mais sobre a fome numa cartilha que dizia o quanto a classe trabalhadora produz de alimento, o quanto os ricos jogam na caixa do lixo e o tanto de povo que come migalhas recebidas de favor ou caridade. Acalmou sua indignação ao se lembrar que revolta sem ação não vai a lugar nenhum; que a informação só vale quando se usa ela na vida.
  5. Na outra visita, trouxe um pacote de café e algumas cartilhas. Como já era conhecido, foi visitar outras casas. Na fisionomia, na fala e nas panelas vazias tornou a sentir a dor da pobreza. De tarde, o amigo chamou os vizinhos pra tomar um café. Na conversa, o assunto foi a situação do povo. Aí, Ivair perguntou: o que é que vocês fazem? – A gente faz bico e espera pelo governo e a bondade de uma igreja. Mas, não podem fazer nada? – Ah, seu Ivair, a sina do povo é esperar
  6. Antes de sair, Ivair pediu ao amigo que distribuísse as cartilhas com gente que tivesse interesse e soubesse ler. E também saber se elas topavam conversar sobre o assunto. O amigo se tornava um semeador. Veio pouca gente pra falar da cartilha, mas os que vieram entenderam a mensagem. A maioria achou motivo pra não vir. Ivair lembrou que o povo crê com os olhos e pensou nos ossos e verduras. Perguntou, então, se os ossos e verduras não dariam um Sopão Comunitário?
  7. O amigo fez uma consulta. Uns acharam que era humilhação, que o povo não queria nada e que só um dia de comida não resolvia o problema. Só uma senhora viu o que muitos não viam – que comer bem uma vez era vantagem sim e, desafiou a turma a experimentar. Mas, como vamos fazer? Ivair ajudou a organizar e a repartir as tarefas. Foi criada a primeira lei: quem participa come e diz em que a família pode ajudar: um pouco de sal, pimenta, arroz, macarrão… ou se oferecer pra cozinhar.
  8. No dia, uns foram pegar a ossada, outros as verduras, outros foram emprestar panelas, no grupo escolar… A diretora ficou tão animada que ofereceu até fogão e pratos. Nem é preciso dizer que essa atividade virou uma festa e atraiu curiosos. O Sopão ficou famoso porque matava a fome, reunia o povo, todos ajudavam e era ocasião de conversa. Na mente do povo brotaram ideias. Pois, gente tem mente que gira, mente que pode girar, gira a mente desse povo e a sina pode quebrar.
  9. O pedreiro quis saber porque trabalhador só come os restos? O jovem falou: o Sopão mostra que se pode resolver outros problemas. A catequista gostou da fala do bispo: se dou comida aos pobres me chamam de santo, se pergunto porque passam fome, me chamam de comunista. E muitos repetiram: esse tal de comunismo deve ser coisa boa pra pobre; se fosse ruim já tinha chegado. Sentindo na vida que pode, o povo entende que vale; aí, a canga sacode, não há patrão que o cale!
  10. O Sopão foi a ponta do novelo, uma conquista que animou outras lutas. Na realização dessas ações apareceu gente com iniciativa, disposta, critica, sincera, discreta… Ivair se concentrou na preparação desse núcleo como referência, ponto de unidade e motor do grupo, nas vitórias, fracassos e repressão. Isso, ajudou o grupo a passar da conquista imediata para entender o sistema de exploração. Para resistir e manter o rumo, o grupo teve de se articular com outras experiencias e pessoas.

*(história acontecida em tempos de ditadura) – Maio/21

 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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