A insistência do advogado do autor, em ação de usucapião, para a designação de audiência de justificação em data mais próxima, ante uma pauta cheia, me levou, com sua concordância, a marcá-la em horário que, geralmente, dele não fazia uso para audiência: oito horas. Alertei-o que, sendo a comarca longe da capital, teria de chegar muito cedo, porque, das nove horas em diante, três audiências já estavam marcadas. Quem avisa amigo é.

Chegou, realmente, no dia aprazado, pelo menos o advogado, presente na pensão, onde, à época, me hospedava. Estava na sala das refeições. A audiência, efetivamente, seria feita. E com essa certeza muito antes das sete e meia eu já estava no fórum, porta aberta, a demonstrar que o expediente ali já tinha começado.Um pouco mais indaguei ao porteiro se tinha gente para a audiência, a resposta sendo sempre negativa. Às oito horas se aproximou, a mesma resposta negativa, até que, às oito e quinze, vazia a sala de entrada, a calçada e os arredores do fórum, mandei lavrar certidão que a audiência deixou de ser realizada em face da ausência das testemunhas. Designaria outra data, depois.

Dez minutos antes das nove horas, o advogado adentrou, bem eufórico, para me avisar que as testemunhas estavam presentes, perguntando a que horas eu faria a audiência. Peguei os autos da audiência das nove horas, respondendo que estava esperando mais cinco minutos para chamar os interessados. E aí, mencionei o nome do autor. Não era a sua audiência, que, fora marcada para às oito horas. A que eu ia realizar,  designada para às nove horas, já era outra. A fila andava. Lastimei que não tivesse chegado a tempo.

Me lembrei depois de Bonifácio Fortes, nas aulas de direito administrativo. Passou um trabalho para se fazer em casa. Deixou bem claro o dia da entrega, batendo e rebatendo na mesma tecla de que, depois da aula, não receberia mais nenhum trabalho. Alguns alunos não levaram a sério. No dia aprazado, não fizeram a entrega devida. O mestre, então, a lembrar que, no judiciário, prazo não se perde. Não receberia mais nenhum trabalho. Ao que eu acrescentaria: e se chega ao fórum antes do horário de audiência. Infelizmente, não pude dizer ao advogado, que retirou-se do fórum, a cara fechada, sem uma só palavra de despedida –  Diário de Pernambuco, 10 e 11 de abril de 2021.

Obs: Publicado no Diario de Pernambuco
[email protected]
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras   

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços

ExposiçãoDesenhos

Série "Natureza"

Série Natureza

DeJanelaEmJanela

DeCostas

Série "Detalhes"

Série "MoradaImprovisada"

Série Morada Improvisada

Finados

Tratando de peixe

Série Flores

Série Flores

Esporte na Colônia

Série Natureza 01

Série Natureza 05

Caxambu

Caxambu

Caxambu - 02

Caxambu - 01

Penumbra...

Aglomeração...

Portão florido...

Barra Palace

Conjunto Harmonioso...

Reunião privada...

Espaços ocupados...

Arquitetura Perfeita...

Convergência II

Convergência I