Eis a grande questão. Quando as pessoas se surpreendem ao descobrirem que eu escolhi fazer Teologia na faculdade e dar continuidade no mestrado, normalmente a pergunta que segue é essa: “Mas… o que é a Teologia? Você estuda o quê?”

Tem gente que acha que na Teologia se estuda a Doutrina da Igreja Católica, tem gente que acha que se estuda as religiões, tem gente que acha que se estuda os Dogmas da Igreja Católica, tem gente que acha que se estuda a Filosofia que com o tempo acabou se desvinculando da Teologia, tem gente que acha que só padres estudam Teologia, tem gente que acha que só existe Teologia católica, tem gente que acha que só existe Teologia cristã, tem gente que acha que qualquer curso com o título “Teologia” pode ser considerado como Teologia, tem gente…

Assim como existe muita gente, existem várias chaves de leitura. Eu não tenho nenhuma pretensão de um dia conseguir responder o que realmente é a Teologia. Mas quando me perguntam o que é que eu faço, eu costumo dizer que eu estudo sobre Deus a partir da fé católica. Só que mesmo esse tipo de resposta, dá muito pano pra manga.

Se formos analisar a etimologia da palavra “teologia”, fica claro que, em primeiro lugar, não se restringe ao mundo cristão e, em segundo lugar, pode ser usado em diversos contextos diferentes. “Teologia” vem do grego: theos+logos = deus+palavra. Na verdade, o próprio termo “logos” pode ser traduzido de diversas maneiras, como discurso, estudo, razão, conhecimento… Mas a ideia central acaba sendo que “teologia” significa pensar ou estudar sobre deus. A expressão surgiu na Grécia clássica e era intimamente ligada à filosofia. Apesar de que na tradição cristã, as primeiras comunidades já pensavam também sobre Deus, o termo “teologia” só começou a ser usado no Cristianismo lá pelo século IV pelos Padres da Igreja (uns caras religiosos legais que começaram a dar os fundamentos para os conceitos cristãos). No mundo acadêmico (como entendemos a noção de Academia hoje), surge apenas no século XII com a criação da primeira universidade na história, em Bolonha, Itália, quando Teologia e Filosofia ainda não se distinguiam tanto assim e, também, quando a Igreja é quem funda essa nova moda de “universidade” que acaba durando até hoje. Não sou especialista em história, então peço desculpas pela minha maneira simplista de fazer esse esboço, mas acho que é o suficiente para ter uma noção. Teologia não é algo particular do Cristianismo, mas devido ao contexto em que surge como estudo sistemático, por muito tempo acabou sendo associada só ao Cristianismo.

Outra coisa importante para contextualizar: quando surgem as universidades no século XII, não existia ainda a ideia de “Igreja Católica” como vemos hoje, ainda nem tinha acontecido a Reforma Protestante. A única grande divisão que existia no Cristianismo era entre a Igreja do Ocidente e do Oriente: o grande cisma tinha acabado de acontecer, no século XI, devido justamente a uma falha de comunicação sobre formulações teológicas do credo de fé (diga-se de passagem, essa “falha de comunicação” começou a ser discutida lá pelo século V, foi se agravando devido a questões políticas que infelizmente determinavam muito a maneira da Igreja se desenvolver, e acabou no século XI com essa divisão da Igreja Latina com a Igreja Ortodoxa que existe até hoje, apesar de que hoje em dia alguns dizem que super daria pra rever as questões teológicas que deram origem a todo esse drama).

Ou seja, toda essa contextualização pra dizer: Teologia não se restringe à fé católica, nem ao mundo cristão, nem ao campo acadêmico. Eu diria que qualquer pessoa que realmente se dedique a refletir e questionar sobre Deus – mas profundamente mesmo, determinando seu modo de ver e viver a vida – pode ser considerado teólogo, assim como na Grécia antiga qualquer pessoa que realmente se dedicava a refletir e questionar a realidade como um todo e ajudar a outros refletirem e questionarem também, eram filósofos. Mas como a gente vive num contexto em que o que mais se valoriza é um título acadêmico ou um diploma para comprovar qualquer tipo de saber, então nem todo mundo pode ser considerado teólogo nem filósofo.

Então, no mundo acadêmico atual, o que se estuda na Teologia? Bom, como disse antes, se a Teologia não se restringe ao mundo cristão, quer dizer que – teoricamente – qualquer religião pode não só ter seu próprio estudo sistemático da Teologia, como fazer teologia por si só (pensar sobre Deus) de acordo com sua crença.

A primeira coisa que determina a especificidade da Teologia é o pressuposto da fé, quer dizer, para estudar Teologia você parte do princípio de que Deus existe. Só que como esse Deus existe, como pode ser conceituado, como se manifesta, e etc., são questões que variam de acordo com a fé que você professa. Aqui já fica claro porque Teologia não é a mesma coisa que Ciência da Religião (ou Estudos da Religião) – esta não parte do pressuposto da fé e pode ser entendida mais como uma sociologia da religião, onde se analisa as crenças, os comportamentos, as instituições, etc. Por isso eu só sou capaz de falar o que é a Teologia a partir da fé cristã, que é a que eu creio, e dentro da prática católica, que é a Igreja da qual faço parte.

Dentro daquilo que eu conheço da Teologia cristã católica, existem vertentes diferentes, campos diferentes, especialidades diferentes. Por exemplo, existem vertentes ultraconservadoras que só reconhecem as definições doutrinárias e dogmáticas até o Concílio de Trento, que foi no século XVI. Por outro lado, existem vertentes que reconhecem o percurso histórico que a Igreja Católica tem traçado nas últimas décadas, especialmente desde o Concílio Vaticano II, com uma maior preocupação pastoral, que por sua vez implica em atualizações das definições doutrinárias e dogmáticas para que façam sentido em pleno século XXI.

Existem também campos diferentes de acordo com a área de especialidade do saber teológico, por exemplo: Teologia Bíblica – estuda os textos bíblicos a partir dos idiomas originais em que foram escritos (grego e hebraico); Teologia Dogmática – estuda o embasamento conceitual-teológico das verdades reveladas por Deus (dogmas) da Igreja Católica; Teologia Sistemática – estuda a doutrina e os dogmas de uma maneira mais abrangente e aprofundada, usando também da filosofia para analisar o desenvolvimento e reformulações da doutrina e dos dogmas ao longo da história para poder dar continuidade ao desenvolvimento e reformulações da fé católica hoje; Teologia Pastoral – estuda as implicações práticas da doutrina e dos dogmas no contexto da vivência da fé na comunidade da Igreja. Existem outras áreas também, mas com estas já dá para ter uma ideia da complexidade da coisa.

O que eu acho mais interessante sobre a Teologia é o quanto ela precisa ser interdisciplinar para manter-se pertinente. Se a gente parte do pressuposto da fé no Deus que se revela na história e que se encarnou e nos dá a missão de encarnar também o Reino do Amor aqui e agora, não podemos fazer Teologia só para teólogos. Conseguir dialogar com outras áreas do saber é o que garante que a Teologia que está sendo feita não seja morta. Se ela é capaz de ser entendida, reconhecida e questionada por especialistas de outras áreas, quer dizer que ela ainda é atual e instigadora – assim como o Espírito é sempre novo e perturbador. E muito além do campo acadêmico, a Teologia precisa aprender a falar com sua própria comunidade de fé no contexto em que se vive. Não adianta fazer aprofundamentos lindos e comprovações maravilhosas da fé se isso não está chegando no povo que constitui a Igreja. Quantos teólogos você já leu sem precisar ir procurar o significado de algumas palavras do texto? Ou melhor, você já leu algum teólogo? Até mesmo os documentos da Igreja, como é possível entender a profundidade deles sem a noção teológica por detrás?

Essa é a tarefa mais difícil de uma pessoa teóloga. Ela precisa articular a tradição cristã, com o magistério (a instituição Igreja Católica) e a cultura da época em que vive. Isso não só não é fácil, cria tensões. E muita gente não entende que as tensões são necessárias para o crescimento. A doutrina da Igreja ao longo da história surge a partir de interpretações, opiniões, e muitas discussões até os diversos aspectos serem realmente apropriados e definidos como parte da doutrina de fé. Até mesmo os dogmas, aquilo que entendemos como verdades reveladas por Deus, sempre tiveram de ser discutidos para poderem ser conceituados numa linguagem que fizesse sentido na época em que foram pensados e dentro de toda nossa limitação humana. Todo esse esforço para verbalizar aquilo que nunca vai ser totalmente abarcado pela nossa razão: o próprio Deus.

As tensões que existem entre Teologia e Magistério não devem ser vistas como um perigo ou algo contra a fé, mas como uma necessidade fundamental para se manter a fé mesmo com todas as mudanças de época. Isso não quer dizer que a tradição cristã muda ao longo do tempo – sua essência permanece sempre a mesma, que é a pessoa concreta de Jesus Cristo ressuscitado que nos revelou o Pai e nos deu o Espírito – mas quer dizer que encontra novas formas de ser comunicada e interpretada de acordo com cada momento histórico em que vive. Por um lado, a Teologia sempre vai desafiar o Magistério a dar passos adiante e, por outro, o Magistério sempre vai frear a Teologia para não sair do trilho. Não podemos esquecer, nós que professamos a fé cristã, que é o Espírito Santo quem guia e garante a fidelidade da Igreja ao amor do Pai e à entrega de vida do Filho, mesmo quando em meio às crises achamos que tudo está perdido.

É por tudo isso que, enquanto houver história e tempo, a pergunta “o que é Teologia?”, ficará sempre em aberto. Teologia vai sendo feita e conforme é feita vai sendo refeita. Varia dependendo do seu ponto de vista… É como essa imagem que postei aqui. Tirei essa foto do Cristo Redentor com uma câmera analógica que tem 4 lentes. A foto foi uma só, do mesmo cenário, com uma câmera só, mas cada uma das lentes revelou uma perspectiva diferente sobre a mesma realidade. Temos três opções diante disso: ser indiferentes, rejeitar completamente, ou se aventurar em novos horizontes.

Vamos nos aventurar?

*Acesse https://www.facebook.com/suzitheologian/ para ler a versão em Inglês

Obs: Suzana Moreira é mestra em Teologia Sistemático-Pastoral e bacharel em Teologia pela PUC-Rio. É Animadora Laudato Si’ pelo Movimento Católico Global pelo Clima e integrante da TeoMulher, rede de teólogas e cientistas da religião feministas. Ela trabalha como tradutora e intérprete de português, inglês e espanhol, e pesquisa sobre teologia latino-americana, teologia do corpo, ecoteologia e teologia feminista. Atua no Instagram, Facebook, YouTube e Twitter como Suzi Teóloga ajudando a divulgar conteúdo teológico de maneira acessível e atrativa.

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Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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