Terminamos relegados à condição de colecionadores da morte. As notícias vão chegando aos poucos, etapa por etapa. A internação em primeiro lugar, depois o ingresso na UTI, e, de repente, o óbito anunciado. E, agora, ao que se demonstra, o vírus tem pressa em ceifar a vida de suas vítimas. Entre nós, a silenciosa lamentação. A preocupação de passar a notícia adiante. Depois, não é um falecimento qualquer. É uma baixa a mais, entre amigos e conhecidos. A  lembrança da última vez que vimos a nova vítima. Acrescente-se ao cesto de recordações a impossibilidade de ir ao velório – local de encontro com velhos amigos até alguns meses atrás. A certeza de que o baque que o fato causa logo será ultrapassado por outro óbito. De morte em morte, o coração da gente se estica, abrindo espaço para comportar todos que se vão, transformados agora em nomes, cada um no campo da saudade com o seu peso específico.

A realidade do dia a dia é imensamente terrível, o cuidado de cada passo, a calcinar os que se bronzeiam de medo, ou seja, nós, sobreviventes e espectadores, trancados em casa, a fim de não sermos descobertos e escolhidos pelo vírus, enquanto, de longe, muito longe, a vacina refulge, como única arma para esfolá-lo, pisá-lo, esmagá-lo, a fim de não mordiscar mais ninguém, ser banido do planeta, enquanto se descobre outros meios de mantê-lo sempre distante, o mundo liberto de seu efeito nefasto, e, em conseqüência, a vida voltar ao normal.

A história, adiante, registrará o que venha ocorrer, se o mundo viverá como antes, ou se teremos de nos prevenir permanentemente para vírus, como esse, cuja origem ninguém me convence estar despojada do dedo do homem. Ou se estamos vivendo agora o inicio do final do mundo, não pela água, nem pelo fogo, mas por um mal totalmente invisível, contra o qual canhão algum lhe faz medo. Não vamos esquecer A Peste, onde Albert Camus, para encerrar, enfia alerta, um tanto profética, que devemos levar a sério: “E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”. Não mandaram ratos, e sim, vírus, com dano centenas de vezes maior. Não se limitaram só a uma cidade feliz. Gulosos, atacaram todo o planeta. E agora? – Diário de Pernambuco, 13 e 14 de março de 2021.

Obs: Publicado no Diario de Pernambuco
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Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras   

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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