I – Amor ao próximo (Jo 15, 9-17)

No Evangelho deste domingo São João sintetiza de modo brilhante o que foi a vida de Jesus Cristo e o que deve ser a vida do cristão. Ele vai ao núcleo do que caracteriza um autêntico discípulo de Jesus Cristo. Confrontado com este núcleo, tudo o que a Igreja nos oferece para nossa caminhada neste mundo, a saber, ensinamentos, normas, celebrações, só têm sentido se nos ajudam a viver realmente o amor ao próximo. Pois o próprio culto a Deus se esvazia quando privado da caridade (Mt 5, 23s), sem falar que ela constitui o critério decisivo para nossa salvação (Mt 25, 31-46). Uma verdade bastante clara para qualquer cristão consciente de sua fé, mas que experimenta enorme dificuldade em torna-la realidade em seu dia a dia devido a vários fatores.

A começar pela sociedade atual agitada por transformações rápidas e sucessivas que geram instabilidade e medo com relação ao futuro, levando-nos a buscar ansiosamente seguranças que nos acalmem, vendo nos demais meros concorrentes que disputam as mesmas e limitadas oportunidades. Além disso, estamos hoje dominados por um individualismo de cunho cultural que busca garantia econômica e satisfação imediata de prazeres. Com isso diminui a atenção ao bem comum, ao cuidado com os demais, aos gestos realmente gratuitos para os menos favorecidos. Paira uma indiferença generalizada com relação ao sofrimento alheio. Triste característica cultural que não só atinge indivíduos, mas também nações como constatamos hoje com a recusa em acolher refugiados ou com a resistência das grandes indústrias farmacêuticas em aceitar a quebra de patente das vacinas.

Outra dificuldade provém do próprio termo, já que amor hoje recebe em geral uma compreensão limitada à dimensão afetiva ou sexual, enquadrada numa perspectiva individualista ou hedonista. Trata-se de um vocábulo bastante gasto e impreciso. Deste modo a característica principal do ser humano que é a sua liberdade mal aparece. Pois amor implica uma opção livre, desinteressada, gratuita, que busca o bem do outro. Significa procurar fazer feliz o outro e não buscar o outro para alcançar sua própria felicidade (Mt 5, 46).

Como temos a tendência de nos fazermos o centro de tudo, de buscarmos nossas próprias satisfações, de eliminarmos nossas inseguranças, de lutarmos para sobreviver numa sociedade de forte concorrência, de realizarmos nossos sonhos, de tudo olhar numa ótica egocêntrica, consequentemente a vivência da caridade sem dúvida implicará renúncia a esta tendência. Portanto, amar exige morrer um pouco para si mesmo, para seus próprios interesses. Também significa sair de sua zona de conforto em benefício do outro, se desinstalar de seus hábitos e comodidades, o que realmente não é nada fácil.

Pois o amor na Bíblia aparece sempre como amor efetivo, e não meramente afetivo (1Jo, 3, 17s). Já no Antigo Testamento, depois de enumerar normas bem concretas de justiça para com os outros, um texto termina afirmando: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18).  Amor efetivo, real, como insiste o próprio Jesus: “Quem conserva e guarda os meus mandamentos, este me ama” (Jo 14, 21). Pois podemos facilmente nos iludir nesta questão, qualificando como amor o que não passa de um impulso afetivo sem raízes profundas. Neste sentido me parece mais verdadeira uma celebração de bodas de prata ou de ouro que visibiliza um amor real, maduro, construído e provado através dos anos, do que uma celebração de casamento que significa o início de uma caminhada ainda a ser percorrida.

Viver a caridade é sem dúvida o grande desafio da vida cristã: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns para com os outros” (Jo 13, 35). Implica uma batalha diária contra nossa tendência egocêntrica que parece estar acima de nossas forças. Só podemos vencê-la com a graça de Deus, com o dinamismo do Espírito Santo que atua em nós (Gl 5, 22-25). Consequentemente ela deveria ser o objeto central de nossas orações, já que consiste no que mais nos identifica com Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12).

Autêntico amor ao próximo a ser vivido no interior da família, muitas vezes numa convivência diária muito exigente; amor ao próximo na profissão vivida honestamente; amor ao próximo na vida social evitando maledicências; amor ao próximo na partilha das próprias qualidades, da cultura adquirida, de recursos financeiros; amor ao próximo na assistência às vítimas da pandemia e do consequente desemprego. As inúmeras iniciativas por parte da sociedade em prol de cestas básicas demonstra que o Espírito Santo está atuante, levando muitos de nós a experimentar o que afirmou Jesus: “há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20, 35). MFM

II – Ascensão do Senhor (Mc 16, 15-20)

A solenidade da Ascensão do Senhor tem um significado teológico bem preciso: indica o final da presença de Cristo na história, ainda experimentada pelos primeiros cristãos em suas aparições, e o início da era da Igreja, da comunidade de seus seguidores. Uma nova modalidade de presença: na fé dos cristãos, nas suas celebrações, em seus testemunhos de vida, bem como em suas atividades missionárias em nome de Cristo. Portanto a Igreja continua na história a proclamar e a realizar o Reino de Deus em obediência ao próprio Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Este é o sentido e a razão de ser da Igreja, como tanto acentua o papa Francisco. O cristão, por ser cristão é, consequentemente, um missionário.

Não é necessário que realize ações de cunho explicitamente evangelizador ou que assuma tarefas correspondentes na paróquia. Pois pelo simples fato de ser cristão, suas palavras, seu comportamento, sua visão do mundo, seus valores, têm sua origem e fundamento no Evangelho e contrastam, muitas vezes, com o que apresenta a mentalidade e o comportamento reinante na sociedade. Mesmo sem proferir uma só palavra, sua vida já constitui uma denúncia do egoísmo incrustado e atuante na cultura atual. E é por sua pessoa que Cristo Ressuscitado se faz presente e atuante.

Não nos admira que São Paulo caracterize a comunidade dos cristãos com a expressão “Corpo de Cristo” (Rm 12, 4s; 1Cor 12, 12.27), considerando a pluralidade e a variedade dos cristãos membros diversos de um mesmo corpo, com funções diferentes (1Cor 12, 12-27), caracterizadas por ele como “carismas” diversos, sendo que todos colaboram para a vida do corpo, todos são solidários entre si (1Cor 12, 26), todos são necessários (1Cor 12, 20s). E Jesus Cristo é a cabeça deste corpo que é a Igreja (Ef 1, 22s; Cl 1, 18). Portanto com a atuação imprescindível do Espírito Santo, enviado por Jesus (Jo 20, 22), a Igreja é a mediação humana da ação salvífica de Cristo Ressuscitado na história.

Daqui podemos entender a íntima relação da Igreja com a Eucaristia. Ao se invocar a ação do Espírito Santo (epiclese) sobre as espécies do pão e do vinho para consagrá-las e depois da consagração para que o mesmo Espírito faça dos fiéis um só corpo, emerge claramente o sentido da recepção eucarística: comungamos o corpo eucarístico de Cristo para que melhor possamos ser o seu corpo eclesial. Nas palavras incisivas de Santo Agostinho: “Sede o que vedes, recebei o que sois” (Sermo 272). Fortalecidos pela comunhão do Corpo de Cristo, poderemos melhor atuar como seu corpo na sociedade. Como expressa a liturgia: “E nós vos suplicamos que, participando do Corpo e do Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo”.

Ao se identificar com os mais sofridos da sociedade, como nos apresenta a cena do juízo final no evangelho de Mateus (Mt 25, 31-46), o Corpo de Cristo está presente naqueles mais carentes, indefesos, marginalizados, pobres e desprezados da sociedade. Corpo sofrido pela insegurança de vida, pela insuficiência alimentar, pela violência urbana, pela falta de saúde, pela deficiência escolar, pela indiferença da sociedade. Como diz a música: “entre nós está e não O conhecemos”. Neles que também são Corpo de Cristo, o próprio Cristo está sofrendo, esperando uma reação de nossa parte, sobretudo nesta época em que são atingidos por uma terrível pandemia.

A solenidade da Ascensão nos faz, portanto, tomar consciência de que somos o Corpo de Cristo, responsáveis em continuar a missão de Jesus na história. Só o conseguiremos se nos alimentarmos com o corpo eucarístico de Cristo, que nos sensibilizará para a trágica situação dos últimos da sociedade. Queira Deus que, com a ajuda indispensável do Espírito Santo, possamos celebrar devidamente esta festa da Ascensão do Senhor. MFM

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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