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Sobre a mesa a garrafa de café encardida, o cachimbo recém usado e uma velha “poronga” que alumiava o interior do barraco de taipa. Num canto próximo ao camburão com milho e as sacas de feijão e farinha, uma vela acessa. Ajoelhado diante dela seu João Tenório, um velho senhor malacafento, roga a seu santo sorte na mira da espingarda. Terminada a reza, o homem amarra em um dos pés um enorme dente de jacaré para expulsar de si todo e qualquer perigo de ser picado por cobra. Em seguida, senta-se no único tamborete da casa segurando firmemente a espingarda. Acende novamente o cachimbo e assim, calmamente, espera por um novo ataque do maldito bicho. Seria realmente o lendário monstro o responsável pela matança de muitos de seus animais nas noites anteriores? Ou seria apenas a ação de um caboclo vadio, querendo matar a sua ingrata fome e meter medo nesse pobre senhor?
A noite seguiu sem novidades. O silencio era predominante. Até que no principio da madrugada a calmaria deu lugar a tormenta. Os cachorros começaram a latir desesperadamente em direção a mata. Os animais do sitio debatiam-se assustados. Foi exatamente nesse momento que um enorme estrondo vindo da selva seguido de um grito intenso fez o homem acordar e arrepiar-se por completo. Benzeu-se por três vezes fazendo o sinal da santa cruz. Abriu rapidamente a cancela e pôs-se com a espingarda em punho e a lanterna na mão em direção a primeira vereda que viu na mata. Chamou os cachorros, mas esses, com medo, se recusaram a obedecê-lo. Então correu sozinho seguindo o rastro do bicho a quebrar a floresta.
Passada quase uma hora de perseguição o homem cansou-se. Resolveu então esperar pelo bicho até aquele momento, desconhecido. Subiu em uma árvore mediana. E lá fez tocaia por mais de uma hora. A todo instante ele pressentia a presença do bicho. De repente… O mistério de qual bicho seria aquele responsável por dilacerar dez cabeças de gado, cinco porcos, dois patos e sete galinhas desvendava-se. Verdadeiramente, aquele senhor tinha razão. A fera revelou-se: enorme, pra mais de dois metros de altura, pêlo grosso, mais grosso que qualquer couraça que já tenha existido, unhas enormes e afiadas, na testa os olhos medonhos e na altura do umbigo a boca monstruosa. Tratava-se do lendário MAPINGUARÍ.
O ouvido aguçado da fera colossal sentiu a respiração miúda do homem. E eis que o monstro exalou um piché, o que fez com que o senhor João perdesse as forças e caísse próximo aos pés da besta. O medo tomou conta do pobre senhor, mas ainda sim, esse não titubeou por completo. Ergueu a mão trêmula, mirou bem no umbigo do monstro e disparou a espingarda. Porém, a fera moveu-se rapidamente fazendo com que o cartucho atingisse apenas a proximidade de seu umbigo. Ferido, o bicho deu um pavoroso esturro agonizante e disparou, desnorteado, em meio ao breu da mata. Quase incrédulo pelo acontecido, seu João Tenório, ofegante, voltou para casa atordoado pelo confronto com o diabólico ser.
Passado o episódio quase kafkiano, uma aparente paz voltou há reinar no sitio de seu Tenório. O silencio foi quebrado um dia com a chegada de alguns vizinhos que vieram convidá-lo a fazer uma reza na casa do já malacafento Mariano, morador longínquo da comunidade, de quem se dizia virar bicho durante as noites por causa de sua fisionomia fantasmagórica: esquio, barba encardida, cabeludo, olhos amarelados e a boca quase banguela, a não ser pela permanência das presas escuras.  Seu Tenório, de sangue tapuio nas veias, seguiu com os vizinhos até a casa do Mariano, a fim de providenciarem as Exéquias.
A casa era de uma aparência assustadora. Um livro de capa preta em cima do pitisqueiro chamava atenção dos visitantes. Na verdade, aquele morador não convivia com a comunidade. Ninguém sabia de sua origem. Rara às vezes, que acompanhava uma ladainha aqui e outra acolá, mas apenas de dia e sempre com atitudes estranhas. Dirigiram-se ao quarto e encontraram o velho de aparência amedrontante já agonizando na cama. Um lençol encardido cobria um ferimento de cartucheira bem na altura do umbigo. Questionado do ferimento, alegou ter disparado por distração o do badogue que pusera dias antes no quintal de casa com o intuito de capturar um veado. Não tardou e um último suspiro se viu sair de suas narinas. À boca da noite, enterraram-no em um caixão de madeira roliça na outra margem do Rio Tapajós.
Na noite seguinte, o senhor João Tenório não mais acendeu vela, não fez reza, fez apenas o sinal da santa cruz uma vez só e passou a noite inteira, espreguiçado na rede atada sobre o paiol de arroz tomando goles compassados de café amargo. Em fim… o sossego.
E ainda tem caboclo amazônida teimoso que insiste em dizer que isso não passa de uma lenda. 28.09.11

Obs: O autor é poeta e fotógrafo amador. Trabalha na UFOPA / campus de Óbidos.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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