Djanira Silva 1 de abril de 2021

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Este mundo não é o meu. Finjo-me de viva para aprender a morrer. Por entre as artérias das ruas transita o meu sangue, borbulha e lateja nos movimentos da ida e da volta. O homem passa, passa a mulher, o cão late. Os mosquitos me deixam nervosa, as formigas me obrigam a escrever de pernas para o ar. A barriga da mulher denuncia a passagem do homem.
O retrato sobre o piano conta-me uma história. Um olhar que me persegue subindo ladeiras, fazendo curvas nas esquinas, voltando para o vazio do agora. Sorriso embalsamado em sépia.
Enquanto penso me transformo. Penso em água me transformo em rio, penso em pedra me transformo em barro. Por que esta doidice?
Corro atrás da menina que corre. Sou criança novamente. Tiro os sapatos e piso nas nuvens. Vamos, vamos, diz o professor, chegou a hora. Que hora é esta que não consigo ouvir bater no sino nem vê-la escrita nos ponteiros do relógio? Como partir se nada ainda está pronto? A imagem não quer se acender, a palavra se esconde nas dobras do papel. Terei perdido a menina? Fecho os olhos e escancaro abismos.
Vem-me a certeza de que o tempo não voltará. Por que o sonho sempre termina? E a vida? Sei lá. Por acaso sabem do mundo a praia, o rio avançando para o mar, a areia, o sol a anarquia das ondas?
Por que estou só? Não cheguei aqui sozinha. Tenho que voltar. Onde foi que me esqueci de mim? No banco da praça? No caminho da serra ou no silêncio das igrejas? Será que me matei antes da morte? Que mágoa é esta, meu Deus? O tempo se esvai levando para sempre o agora.
Não sei em qual parede ele se esconde.
Estranha história que se escreve nas covas rasas, nas ruas vazias. História antiga que inventou o esquecimento, história sem importância que não virou saudade, história sem jeito que não pode ser escrita, história que matou um personagem morto.
Se não consigo sorrir, preciso voltar.
Que coisa estranha, meu Deus. Que coisa!

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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