I – Nicodemos  (Jo 3, 14-21)

O Evangelho de hoje parece estar na contramão da história, pois São João nos fala com muita ênfase de outra vida, uma realidade silenciada ou mesmo rejeitada por muitos de nossos contemporâneos. De fato, a complexidade da vida atual, o desenvolvimento das ciências, as conquistas das técnicas de última geração, as novas linguagens e os incríveis recursos da cibernética, anestesiaram de certo modo a consciência humana, fazendo-a esquecer de que somos mortais, que a duração desta vida é breve e que termina mais rápida do que esperávamos. Passamos boa parte da vida às voltas com desafios mais imediatos, tais como problemas familiares e profissionais, mudanças socioculturais, desigualdades sociais crescentes ou destruições da natureza que, sem dúvida, ocupam bastante nossa atenção.

A irrupção da pandemia do coronavirus, embora já prevista por alguns, mas não levada a sério pelos governantes, fez a humanidade acordar parcialmente do sono letárgico em que se encontrava. A fragilidade da existência humana se manifestou claramente e os sonhos utópicos de um ser humano capaz de tudo dominar, até a própria morte, se desfizeram como metas irrealizáveis. A falta de vida social e a impossibilidade de viagens, espetáculos, compras, restaurantes, provocou em algumas pessoas perplexidades, desânimos, depressões, e até crises familiares.

Neste quadro atual da humanidade a pessoa de Jesus Cristo aparece como luz, isto é, como a verdade sobre a existência humana. Esta não se limita a esta vida atual que tem seu prazo de validade, mas traz em si a semente que irá germinar para a vida eterna. Jesus é muito claro: os que nele crerem, terão a vida eterna (Jo 3, 15). Porém crer em Jesus é assumir sua vida, seu olhar para a realidade, sua conduta na sociedade, sua sensibilidade pelos mais desfavorecidos. Não se trata de um acolhimento racional, mas de uma adesão que se mostra real na vida da pessoa.

Quem age mal, quem vive para seu egoísmo, quem prejudica seus semelhantes, quem procura fugir da luz, ignorá-la mesmo, para que suas ações não sejam desmascaradas, já estão sendo julgados nesta vida. Não é preciso esperar por sua morte, como afirma São João: “quem não crê, já está condenado” (Jo 3, 18), pois já está construindo nesta vida sua própria condenação na outra.

Neste mundo nos impressiona, e nos revolta mesmo, a vitória dos maus, o triunfo dos poderosos, a impunidade dos injustos e dos violentos, diante de certa apatia de uma sociedade, já resignada a esta situação, apesar das reações proféticas de alguns poucos. São João nos convida a ter outro olhar: Jesus, o derrotado foi o vencedor, o crucificado é o ressuscitado, o morto goza de uma vida eterna. Destino não só de Jesus Cristo, mas também de todos os que procuram construir suas vidas como Jesus construiu a dele.

Como cristãos missionários nos incumbe hoje transmitir esta luz de Jesus, esta esperança da vida eterna em Deus, para nossos contemporâneos, levando-os a relativizar o momento presente, a tomar consciência de que neste mundo tudo passa, e que suas ações pelo próximo estão construindo sua eternidade feliz em Deus. Querendo ou não somos responsáveis pelos que estão a nossa volta. Deus conta conosco para a construção de seu Reino. Que o Espírito Santo, que sempre nos acompanha, nos ilumine e fortaleça nesta tarefa própria de todo cristão. MFM

II –  O grão de trigo (Jo 12, 20-33)

Aos que o queriam ver, certamente para melhor o conhecer, Jesus fala de dois temas centrais para qualquer ser humano: a vida e a morte. Somos os únicos seres vivos que sabem de antemão que um dia irão morrer: a morte paira sempre no horizonte dos nossos dias. Em algumas épocas passa quase despercebida, em outras, como na atual pandemia, a sentimos muito perto de nós, uma preocupação somada às demais que já tínhamos. E Jesus nos fala também da vida, que certamente é o maior bem que temos, pois se a temos, temos todos os demais bens; se a perdemos, perdemos todo o resto, a saber, tudo o que almejávamos para ser felizes.

Entretanto Jesus não apenas toca nestas duas realidades fundamentais para qualquer ser humano, mas nos ensina algo que é da maior importância para nós, seres inteligentes e livres. Ele fala do sentido da vida e da morte. Consciente do que havia sido sua vida e da reação que despertara entre as autoridades religiosas, ele pressentia com suficiente lucidez o seu fim. Portanto seu ensinamento não era teórico, pois se baseava no que ele próprio estava vivendo.

E consegue resumi-lo numa frase lapidar: “Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto.” E Jesus dá, em seguida, a explicação desta metáfora: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem se desapega de sua vida neste mundo, há de conservá-la para a vida eterna” (Jo 12, 24s).

Por instinto natural tendemos sempre a procurar conservar nossa vida, defende-la das ameaças, explorar todas as suas potencialidades. Mas somos seres sociais, somos o que recebemos do nosso meio, da família, de educadores, de amigos, da sociedade. Assim como recebemos também damos o que somos aos que nos rodeiam, queiramos ou não, por nossa modalidade de vida, nossas palavras, nossas opções, enfim nosso testemunho. Inevitavelmente nossa vida promoverá ou prejudicará vidas alheias. Neste particular não existe uma zona neutra. Numa palavra: somos responsáveis uns pelos outros. Não só pais e educadores. Todos nós: profissionais, políticos, governantes, artistas, pobres ou ricos, sábios ou analfabetos.

E Jesus nos diz: se você quer viver autenticamente sua vida, respeitando seu sentido pleno, numa palavra, se você quer experimentar ser feliz nesta vida ainda imperfeita e ser perfeitamente feliz na vida eterna, então faça de sua vida um dom para os demais. Naturalmente você não mais viverá voltado somente para si próprio, encastelado em seu egoísmo, na busca contínua de satisfações pessoais e de relacionamentos interesseiros, que acabarão por torna-lo um solitário infeliz.

Pelo contrário faça de sua vida um dom para os demais, por eles se interesse e os ajude no que lhe for possível. Faça mais humana, mais suportável, mais alegre e feliz a vida dos outros. Certamente isto vai implicar renúncias, pois exige investirmos nosso tempo, nossa atenção, nosso afeto, gratuitamente. Como o grão, morremos para nós mesmos, levando vida para outros. E experimentamos uma paz, uma felicidade, uma realização, que só nós captamos. Assim viveu Jesus Cristo, assim devemos nós viver.

Vivemos uma pandemia sem precedentes na história da humanidade. São milhões contaminados e milhares que sucumbem ao coronavirus. Seguir as medidas profiláticas nos condena a vivermos mais isolados em casa, privados de relações sociais, encobertos por máscaras. É a nossa contribuição para que o vírus não se propague ainda mais. Desejo mencionar a grande ajuda dada pelos profissionais da saúde: médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, e demais profissionais da área hospitalar. Estão tendo uma atuação heroica, sacrificando sua vida familiar e seus momentos de descanso para salvar vidas em perigo. Um belo exemplo do grão que cai na terra para todos nós. Rezemos por todos eles.
MFM

III – Domingo de Ramos (Mc 25, 1-39)

Jesus Cristo, prevendo já o desenlace de sua vida pelo Reino de Deus, quis realizar três ações simbólicas que pudessem expressar claramente a razão desta sua vida: a entrada triunfal na cidade de Jerusalém, a expulsão dos vendedores no templo e a última ceia com seus amigos. A entrada em Jerusalém acena à entrada espetacular dos grandes vencedores ostentando poder e glória. Jesus reivindica sua condição de Messias e sua missão pelo Reino repetindo uma entrada triunfal, só que no dorso de um jumentinho, de modo humilde e simples em meio às aclamações dos que o conheciam por suas pregações e suas curas. Uma ação apenas simbólica para manifestar sua condição de Messias, pois posteriormente se imporão a paixão e a morte de cruz.

É importante compreendermos bem o sentido da paixão e morte de Jesus, pois podemos ficar presos a sentimentos que brotam das cenas sangrentas e revoltantes descritas pelos evangelistas. Embora eles sejam uma consequência positiva do relato, eles não são tudo. Pois se trata de um ensinamento central para a fé cristã, ainda que expresso num relato dramático e sangrento.

Vejamos. O núcleo da fé cristã é o amor. Deus é amor, como afirma São João, e só a partir desta verdade podemos justificar a criação do mundo, a existência da humanidade e a entrada de seu Filho em nossa história. Sua vida, exemplar para seus seguidores, foi uma vida de serviço contínuo aos seres humanos, especialmente aos mais necessitados. Uma vida de amor que ele mesmo recomendava a seus discípulos (Jo 15, 12) e que seria a característica que identificaria os cristãos (Jo 13, 34s).

Mas esta vida para os outros tem lugar num mundo já marcado pelo pecado, pelo egoísmo, pela busca de poder e de prazeres. Assim a figura do cristão autêntico incomoda e perturba, porque vem a ser uma denúncia diante dos comportamentos e das mentalidades voltadas para vantagens pessoais com prejuízos e sofrimentos dos demais.

Portanto o sofrimento não tem um valor em si, pois é o contrário do que Deus quer para a humanidade. Deus é um Deus da vida (Jo 10, 10). Afirmar que quanto mais sofrimento, maior proximidade a Deus é um absurdo. Este só se justifica como consequência do amor primeiro, seja na vida de Jesus, seja na nossa vida. Pois amar é morrer um pouco para si mesmo. Na atual sociedade amar pode significar incompreensões, incômodos, humilhações, porque ela não mais vive os valores evangélicos.

O relato da paixão sempre desempenhou um papel importante na vida dos santos. Pois ele atesta a coerência de Jesus Cristo com a missão de proclamar e realizar o projeto do Pai, o Reino de Deus na humanidade. Certamente Jesus sabia o que lhe esperava, experimentou medo e repulsa (Mt 26, 39), mas caminhou corajosamente adiante. Deste modo sua paixão é um estímulo e uma força importante para a caminhada do cristão que, talvez em alguns momentos, seja tentado pelo desânimo e pela vontade de desistir.

Pois o desenlace final de todo sofrimento motivado pelo amor justifica o difícil percurso até ele. Tudo termina na vida, como quer Deus. Tudo termina na ressurreição, na vida eterna em Deus. O evento pascal implica sempre vida, paixão, morte e ressurreição, e constitui o núcleo fé cristã, a principal celebração litúrgica do ano. Ela nos convida chegar ao mistério do amor louco de Deus por nós e saber ultrapassar as celebrações externas, sinais sensíveis deste amor. MFM

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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