A orquestra se apresenta. O cantor, à frente. Um pouco atrás, o piano, e, de um lado e de outro, os músicos, trompetes, trombones, clarinetes, sax´s, tubas, bateria, tambor, pratos e outros penduricalhos, aqui e ali, invocados e usados. A câmara, a depender do momento, focaliza um músico, ou outro, que se levanta e faz o canto por um ou dois minutos. Até a tuba tem seu realce. Eu, atento, na cadeira, concentrado nos sons, apreciando, algumas inovações que não conhecia, como, por exemplo, por rápidos instantes, dois trompetes sendo tocados num recipiente de água. Em suma, tudo bem diferente dos meus tempos de banda em Itabaiana, quando três bancos de um metro e pouco eram suficientes para todos os músicos se sentarem, ficando os da pancadaria em pé, como em pé ficava o maestro Antonio Melo.

Naqueles tempos, eu, arranhava os sons num trompete, bom fôlego, que a idade ajudava, e pouco talento, valendo só o esforço e a permanente teimosia. Da trompa, inicialmente, pulei para o trompete, ambos instrumentos de pisto, como se dizia por lá, e até que participei de muitas boas tocadas, na banda e fora da banda, em bailes em outras cidades, tocando, inclusive, em mercado de carne,  depois da feira, o cheiro de carne podre invadindo o nariz quando a gente, rapidamente, parava para respirar e tomar fôlego. Como incomodava!

Os amores não são eternos, pelo menos, os meus. O trompete repousa em local especial no meu gabinete, a minha embocadura  desapareceu, e sopro nenhum consigo mais, a não ser que insistisse, diariamente, num treino, para o seu retorno,  o que está fora de cogitação. O trompete é apenas um pedaço dos tempos do ginásio e um pouco do clássico. Só. Ficou para trás.

Há muito que o coração foi ocupado por um novo amor, e, este, impossível. Fico só no olhar,  fazendo declaração pública, de quando em quando, sem efeito algum. E pronto. O alvo é o sax tenor, no qual Antonio Melo era mestre. O sax tenor me provoca, o mesmo não ocorrendo com o sax alto nem com o sax barítono. Só o tenor, amor que me espeta sempre que vejo uma banda ou orquestra tocando. O anjo da guarda me chacoalha. Desse mato não sai coelho. É amor sem correspondência. Nem ao menos, um beijo. Eu, calado, a cara de amante desprezado – Diário de Pernambuco, 31 de outubro e 1º de novembro de 2020.

Obs: Publicado no Diario de Pernambuco
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Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras   

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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