A influência do éros grego é nítida em nossa cultura ocidental não apenas como elemento inerente à condição humana, mas também como fator que condiciona a qualidade de nossas relações. O éros, como força vital do desejo, impulsiona a uma saída de si rumo ao encontro de um “tu” que completa e preenche o vazio do ser humano. Éros é desejo ardente pelos belos corpos, como insistiam os gregos, e remédio que cura nossa dor de solidão. Todo ser humano deseja estar com um outro para preencher-se e realizar seu projeto de vida.

Em plena pandemia foi nítida a agonia do éros. Confinados em nossas casas, sentimos na alma a dor oriunda da separação e do distanciamento daqueles que amamos. O resultado foi a exploração das doenças da mente, como a depressão. Nossa energia erótica torna-se salutar sempre que estamos ao lado daqueles que desejamos. O éros completa nossa existência vazia e solitária, dando-nos aqueles momentos de alegria que nascem da convivialidade, pois ninguém deve ser condenado a viver sozinho e isolado da comunidade humana. Enquanto houver pandemias, infelizmente, nossa energia erótica estará enferma, clamando por libertação, ou seja, gritando em nosso interior por momentos de presença e de toques humanos.

A nível teológico, dirá Bento XVI em sua primeira Encíclica, Deus caritas est, que uma das novidades da fé cristã é o próprio Deus desejar encontrar-se com a humanidade. O Pai, possuído pelo éros, envia o Filho para que o mundo experimente aquele amor que as três pessoas divinas desfrutavam no interior da Trindade imanente. Assim, o Papa Bento recordava a toda a Igreja que Deus conhece não só ágape, mas também éros, presente desde as origens em suas entranhas maternas. Todavia, a revelação divina em Jesus faz novas todas as coisas, inclusive no que toca a natureza da energia erótica. Jesus de Nazaré usou o seu éros para desejar estar com os preferidos de Deus, aqueles corpos feios e descartados da sociedade: pobres, coxos, surdos, cegos, leprosos, etc. O Filho sente-se atraído por eles, por isso subverte a lógica do desejo erótico grego, onde o corpo do outro servia meramente para satisfazer relações sexuais momentâneas. A energia erótica de Jesus deseja o corpo do outro para ungi-lo com o óleo da compaixão e do cuidado, como bem se vê na parábola do bom samaritano.

O ser erótico de Jesus o conduz, como prova máxima de seu desejo pelos corpos esquecidos, até a cruz. Sim, vê-se já naquele último ato comensal que precede o seu calvário a agitação do seu éros quando ele se dirige aos discípulos: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer” (Lc 22,15). Ali, naquele ato de entrega, Ele se dá todo e, em cada Eucaristia, nós continuamos comendo e bebendo daquele corpo erótico que nos inflama deste mesmo desejo que nos faz estar com os outros.

No entanto, não é ainda naquela ceia derradeira que vemos a explosão do ser erótico de Jesus, mas sim na sua cruz. Nela, o éros liberta-se completamente de sua agonia, ou seja, leva à plenitude o desejo de estar com o outro. Como assim? Na cruz tem-se um corpo de um homem despido. Desprovido da beleza exterior, tão cara aos gregos, vê-se um jovem suspenso num madeiro. Todavia, e aqui reside a novidade daquele éros crucificado, um corpo feio e desprezível atrai todos a si, pois ele mesmo havia dito: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).

Com o corpo flagelado de Jesus, a cruz banha-se de éros. Na cruz está uma beleza diferente, pois há um corpo que se torna estranho aos nossos olhos, mas é só assim que pode ser solidário conosco. Um corpo feio por fora, mas belo por dentro. O éros da cruz está nas entranhas de um crucificado que inverteu a lógica do desejo corrente: não mais a atração pelos belos corpos, mas a entrega em favor das vidas crucificadas; revela-se um Deus que deseja estar ao nosso lado, sobretudo quando estamos com a cruz sobre os ombros. O elemento erótico da cruz traz uma boa notícia a todos: Deus só pode ser Deus se se importa com a cruz que aniquila a beleza de nossos corpos. Exatamente aqui está o Deus que nos ama.
(Fagundes/PB, 23 de fevereiro de 2021)

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. É mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) – Roma.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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