Acordo todos os dias pensando em parar de assistir aos noticiários. Me questiono porque muitos não acreditam na letalidade do vírus. O mundo inteiro padece, passa pelas mesmas experiências e sofre com os resultados dos que negligenciam os mínimos cuidados, o básico, como usar máscara.

Quando sou obrigada a sair para fazer supermercado, observo todas aquelas pessoas que estão transitando, vejo pessoas sem máscara, outras com a máscara no queijo, na mão, pendurada em uma só orelha, e vejo muitos motoristas, com vidros abertos e sem máscara. Penso que eles acreditam porque estão dentro do carro, estão protegidos.

A incerteza gera o medo.

No dia 2 de abril, fez 7 meses que enterrei meu pai. Sofro, choro, sinto um vazio imenso. Sinto falta, e a dor é maior quando penso que nunca mais vou encontra-lo ao viajar para o Paraná e nunca mais vou vê-lo me esperando no portão para o abraço de saudade. Ele não morreu de Covid-19, mas de demência, em 6 meses aflorou e fez com que ele perdesse o maior prazer que tinha, comer. Foi perdendo os movimentos para deglutir. E a coisa mais gostosa desse mundo era ver meu pai comer. Ele comia gostoso. Herdei dele o gesto de amassar o feijão para misturar ao arroz, e o gosto pela manga coquinho.

Por isso, olho com carinho essa foto que tirei em um dia tão feliz em que passeava com meu pai na cidade vizinha de onde ele morava, no Paraná. Na cidade onde nasci, Paranavai, na casa da minha avó paterna, Rita.

Perdi outra pessoa da família mês passado, irmã do meu avô paterno, minha tia-avó, aos 94 anos, com Alzheimer. Não fez parte da estatística pandêmica, mas teve, como todos, um sepultamento rápido com velório de somente 3 horas.

O sentimento de incerteza é que sufoca. Tem ocasiões em que nos sentimos culpados pelo privilegio da família estar bem, independente de ter tido três casos de contaminação pelo vírus em sobrinhos e primos, e, os mesmos saíram ilesos.

Muitas vezes temos que administrar o emocional, pois conseguimos nos colocar no lugar do outro e compreender sua dor e seu luto.

Todos os dias devemos nos reestruturar para seguir em frente com o pensamento que um dia tudo vai melhorar e tudo vai passar, mas, temos que lidar com as consequências ou os efeitos colaterais, que virão com certeza.

Quando os entendidos dizem que o medo é o mecanismo de defesa do organismo para preservar o cérebro, penso que tem muitos jovens com “TILT” cerebral. Tilt para quem não sabe, é uma expressão que usávamos a quase duas décadas para determinar uma pane em um computador ou qualquer aparelho eletrônico. Então, na minha visão, muitos jovens estão com pane mental, não conseguem assimilar, absorver, pensar no perigo em que colocam seus pais, tios e avós. Estão preocupados somente com seu próprio bem-estar para festas clandestinas. Quantos casos conhecemos ou já ouvimos falar.

Para terminar, quero deixar registrado que meu pensamento mágico (é assim que alguns chamam o meu positivismo), é que devemos tentar a todo custo, ressignificar nossa existência para um mundo melhor. Consolidar nosso amor ao próximo. E podemos fazer isso a distância mesmo. Pare e pense em quantas pessoas estão isoladas e sozinhas. Do meu rol de amigos conheço pelo menos umas cinco pessoas. Não custa pegar o telefone de vez em quando para ligar e ter esse contato que fará bem ao próximo e a você também. É uma forma de nutrir esses elos de amizade que certamente nos trarão fortalecimento afetivo. A preocupação com o outro. Plantando amor, colheremos gentilezas, carinhos, afagos e quem sabe, tantas formas de gratidão.

Deus te proteja! Deus nos proteja!

https://dibonetti.com/

Obs: Jornalista, fotógrafa, escritora, curadora e pesquisadora cultural.
Atua hoje como assessora de comunicação nas Academia Paulista de Letras Jurídicas e Academia Cristã de Letras. Biógrafa do poeta Paulo Bomfim, é responsável pelos direitos autorais, pela obra e pelo site.

 Imagens enviadas pela autora

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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