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Quando, no Brasil, atingimos a marca de mais de doze milhões de pessoas que contraíram o coronavírus e a cada dia sobe descontroladamente o número de pessoas falecidas, não é fácil falar em esperança. Menos ainda, parece ter sentido em insistir em fazer festa. No entanto, a festa encerra em si mesma algo de terapêutico e profundamente humano que está no coração de todas as culturas. Mesmo em meio a todo sofrimento provocado por esta pandemia, há uma semana, as comunidades judaicas celebravam a festa da Páscoa. Nesta semana, são as Igrejas cristãs do Ocidente que entram no clima da festa pascal.

Até hoje, nas comunidades judaicas, a Páscoa é chamada “Pezah zeman herutenu” : “a estação da nossa libertação”. O cristianismo fala de “festa da Ressurreição”. A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. Na Páscoa judaica se recorda a noite na qual,  antigamente, o Senhor libertou os hebreus da escravidão. Os cristãos celebram essa memória e acrescentam o memorial da morte e ressurreição de Jesus. Ser cristão/ã é testemunhar ao mundo a energia da ressurreição, atuante em Jesus e por seu Espírito, em todas as pessoas que o acolhem.

 Os poderes da morte continuam agindo. O desamor organiza um mundo escravo do dinheiro e do poder. A sociedade dominante se mostra cada vez mais cruel e sem compaixão. Celebrar a Páscoa não vai mudar mecanicamente esta situação social, política e econômica que vivemos. Não transformará os corações empedernidos de quem promove ou apoia as desigualdades sociais e a injustiça estrutural sobre as quais a sociedade se baseia. Nada poderá eliminar a pandemia, nem transformar a realidade se aqueles que dominam a sociedade optam por salvar acima de tudo o comércio, mesmo à custa de milhares de vidas. Mas, no coração de muita gente, os gritos de Páscoa ressoam teimosamente. No meio das mais áridas paisagens, as flores resistem. Mesmo a lagarta mais asquerosa é chamada a uma mudança radical. Rompe o casulo, ganha asas para voar e se transforma em uma linda borboleta. É símbolo da vocação de todo ser humano para o caminho pascal da liberdade.

Na Bíblia, o termo ressurreição sempre aparece como sinônimo de levantamento. Ressuscitar é levantar para a vida e para a liberdade. O termo começou a ser usado para expressar a restauração da liberdade do povo. E Jesus o usou mas sempre para indicar a vida nova que o Pai lhe deu, mas também a energia divina para transformar o universo e renovar a vida de toda a humanidade.

O nosso saudoso mestre e profeta Pedro Casaldáliga dizia que a missão dos discípulos e discípulas de Jesus é espalhar ressurreição pelo mundo. Essa missão se realiza quando se opta por viver em comunidade como parábola de um mundo novo. Essa é a vocação das Igrejas cristãs: ensaiar uma nova forma de comunhão humana. No entanto, essa missão transcende as fronteiras e muros das Igrejas. Quem, durante esta pandemia, deixa sua zona de conforto e segurança e se arrisca a organizar a solidariedade às pessoas e comunidades mais vulneráveis testemunha a ressurreição. Quem luta pela democratização da água como bem comum da humanidade e de todos os seres vivos cultiva ressurreição. Quem luta contra a energia nuclear e defende o progresso humano com justiça e a partir dos mais vulneráveis semeia ressurreição. Quem no dia a dia refaz os pequenos gestos de carinho e cuida dos sinais de delicadeza entre as pessoas e com todos os seres vivos testemunha ressurreição.

Em cada atitude desta, é o próprio Jesus ressuscitado que se revela vivo entre nós. Mesmo com o corpo ferido e as chagas abertas nas mãos, nos pés e no peito, está vivo e resistente. Seus discípulos se alegram em vê-lo vivo e lembram sua palavra: “Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo”(Jo 16, 33).

 Obs: O autor é monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares.
É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 57 livros publicados no Brasil e em outros países. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes).

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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