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Há muitos idiomas no mundo mas poucos têm a doçura, a singeleza, a capacidade de traduzir as grandezas e os mistérios da alma humana quanto esse idioma que nos foi legado como uma dádiva, um prêmio, um tesouro.
Zelemos pela Lingua Portuguesa.

Durante muitos anos fui professor de Português, em Cachoeiro de Itapemirim, a cidade natal do cronista Rubem Braga e do poeta Newton Braga.
Registro, neste artigo, frases que dão o perfil desses dois grandes escritores.

Vou começar citando Rubem Braga.
“Sou um homem quieto, o que eu gosto é ficar num banco sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, umas coisas que nem valiam a pena lembrar.
Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.“

Lembremos agora pequenos trechos da prosa poética de Newton Braga.
“Um pequenino detalhe qualquer, vago, impreciso – o meu modo de olhar, teu jeito de sorrir, um gesto, uma expressão, um desses quês inapagáveis reacenderá, talvez, por um momento, a memória de outros tempos e outros sonhos.
Sim: apenas por um momento.
Voltaremos logo ao presente, voltaremos a nós mesmos, com teimosia, com o sobressalto, o desamparo de quem, mesmo sabendo inútil, vão, quer impor, com o cérebro, o ritmo que o coração deva bater.
E então cada qual continuará o seu caminho, pisando firme, com decisão, obstinadamente; nenhum dos dois olhará para trás.“

Zelemos pela Língua Portuguesa.
Fernando Pessoa disse – “A minha Pátria é a Língua Portuguesa.“
De António Correia de Oliveira colhemos estas frases – “A Língua é Bandeira da Pátria, que reza e canta.
Bendito quem à luz do Sol a levanta!

A Língua é Alma envolvente da Pátria de todos nós.
Um povo que não saiba preservar o Hoje e o Amanhã da sua Língua é um povo destinado à ruína cultural e arrisca-se a desaparecer.“

“Não tem tradução“, de Noel Rosa e Ismael Silva, antecipa, em 1932, o debate atual sobre a autonomia e o valor social do Português brasileiro, de raiz popular, em relação às variáveis consideradas cultas ou européias:
“Tudo aquilo que o malandro pronuncia,
com voz macia, é brasileiro, já passou de português”.
A falta de intimidade com a norma culta da Língua pode gerar pérolas bem-humoradas, mesmo quando se assume uma posição ortodoxa.

É o caso de Orora analfabeta, de Nascimento Gomes, cujo enredo se desdobra em um desencanto amoroso provocado por sucessão de atentados ao idioma.
Primeiro, destacam-se os atributos da musa:
“bonitona, perfeita de corpo e cheia da nota”.
Daí em diante começam as ressalvas:
“Mas escreve saudade com c, pra você ver”.
“Ela fala aribu, arioprano e motocicreta.“

Obs: O autor é magistrado aposentado (ES), escritor, professor, palestrante. 
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520
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Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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