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Neste momento de repique ou de novo pico da pandemia em todo o país, governos estaduais decretam lockdwons; comerciantes se preocupam em não lucrar tanto. E, aliado implacável do governo federal, o vírus continua matando. O papa Francisco tem repetido que “não podemos sair desta pandemia como entramos”.

Por trás dessa afirmação está o fato de que, em quase todo o mundo, a sociedade não estava preparada para enfrentar uma pandemia. Sistemas de saúde desarticulados. A própria vacina que deveria ser considerada bem comum de toda a humanidade se tornou motivo de concorrência entre empresas e mesmo entre países.

Apesar de que a maioria dos estudos liga a difusão do vírus à destruição do ambiente natural do planeta e à crise ecológica, o governo parece irredutível no seu propósito de construir novas usinas nucleares e desta vez na pequena cidade de Itacuruba, às margens do rio São Francisco, no sertão de Pernambuco, às margens do rio São Francisco.

Se essa tragédia humana e ecológica se consumar será a segunda grande agressão aos pobres habitantes daquela região. Na segunda metade da década de 1980, os habitantes da cidade de Itacuruba ficaram sabendo que iriam ser deslocados pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF) para a instalação da Usina Hidrelétrica de Itaparica. A velha cidade ficou debaixo d’água e seus moradores foram reassentados em uma “nova” cidade. A população viu comprovado o descumprimento das promessas, os insucessos das medidas mitigadoras e as diversificadas formas de fazer as pessoas de bobas. O slogan da campanha da CHESF tinha sido “Mudar para melhor”.  Para saber os efeitos reais daquele êxodo forçado, basta saber que, ainda em 2006, portanto 30 anos depois do deslocamento, o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (CREMEPE), apontava que, em todo o Brasil, Itacuruba era a cidade com o maior índice percentual de suicídios e detinha 63% de sua população com algum problema de sofrimento mental.

É nessa cidade e com esse quadro histórico que o Ministério de Minas e Energia (MME) decidiu construir a Central Nuclear do Nordeste, com seis reatores nucleares e capacidade total de 6.600 megawatts elétricos. Para isso conta com um investimento de R$ 64,404 bilhões. Quanto ao que isso significará para a população do entorno e para a toda a região e o ecossistema, o Ministério fala muito pouco.

Além do debate ambiental do que significam usinas nucleares, a estocagem de lixo radioativo e a real possibilidade de acidente às margens do São Francisco, todos os poderes envolvidos sabem que a legislação de Pernambuco proíbe a construção de usinas nucleares “enquanto não se esgotar toda a capacidade de produzir energia hidrelétrica e energia oriunda de outras fontes”. Ora, durante anos, Pernambuco tem sido o sexto maior produtor de energia eólica do país. Conforme dados da Abeeólica,  tem o terceiro maior fator de capacidade de geração de energia. Além disso, uma possível justificativa seria o esgotamento da produção de eletricidade. Todos sabem que isso está longe de ocorrer. Portanto, não há nenhuma razão que justifique usina nuclear no Nordeste, menos ainda nas margens do rio São Francisco que não merece tal castigo.

Remanescentes de Quilombos que vivem no município de  Itacuruba, como os grupos Negros de Gilu, Ingazeira e Poço dos Cavalos e  os Pankará no Serrote dos Campos, Tuxá Campos e Tuxá Pajeú, os três povos indígenas que, desde tempos imemoriais, convivem com aquela terra, se unem aos movimentos e diversas organizações sociais e políticas que protestam contra essa política, na qual os poderosos continuam impondo seus interesses sem levar em conta o povo da região e a natureza.

Em profunda solidariedade ao povo de Itacuruba e aos grupos ameaçados, Dom Gabriele Marchesi, bispo de Floresta, a diocese a qual pertence a paróquia de Itacuruba e toda a Igreja Católica, representada pela CNBB Nordeste II, formada por 21 arquidioceses de quatro estados, se juntou à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e se manifestam contrários à instalação do empreendimento e a escolha do sertão nordestino como destino da nova usina.

Uma usina é nuclear quando para gerar eletricidade utiliza o calor proveniente da fissão dos átomos do urânio. O urânio é um recurso mineral não renovável encontrado na natureza, que pode se usado para produzir eletricidade e pode também ser usado na produção de armamentos, como a bomba atômica. O maior problema das usinas nucleares é que os riscos da utilização da energia nuclear são imensos. E além do risco de acidentes nucleares, há o grande problema do descarte do lixo nuclear (resíduos compostos de elementos radioativos, gerados nos processos de produção de energia). Além disso, a contaminação do ambiente provoca danos irreversíveis à saúde, como câncer, leucemia, deformidades genéticas, etc.

Em 2016, a Conferência Episcopal do Japão (CBCJ) fez um apelo ao mundo para o fim da produção de energia nuclear. Em 2020, foi publicado em inglês o livro: “Abolição da energia nuclear: um apelo da Igreja Católica no Japão” e o livro foi lançado na presença do papa Francisco no Vaticano em julho de 2020.

O Japão é um país que sofre até hoje consequências das duas bombas atômicas jogadas pelos norte-americanos em Hiroshima e Nagazaki em 1945 e há poucos anos sofreu o vazamento de uma usina nuclear. Precisamos, nós, aqui no Brasil, evitar esse caminho. Temos de concretizar assim a nossa defesa da vida e o cuidado com a Mãe Terra e com o nosso povo.

Obs: O autor é monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares.
É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 57 livros publicados no Brasil e em outros países. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes).

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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