I – Conhecemos Jesus Cristo? (Jo 1,35-42)

A cena que nos apresenta o Evangelho deste domingo demonstra sua grande importância pelo fato de que João redigiu seu evangelho muitos anos depois da morte e da ressurreição de Jesus. E, contudo, em sua memória o encontro dos primeiros discípulos com Jesus ficou fortemente marcado, como podemos concluir dos detalhes da descrição. Realmente aqui, em toda sua simplicidade, tem início um movimento, mais conhecido como cristianismo, que irá transformar a história da humanidade. Como tudo começou? Com um encontro pessoal com Jesus Cristo, expresso em palavras muito simples: “Rabi, onde moras? Jesus respondeu: Vinde ver. Foram, pois, ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele” (Jo 1, 38s).

Nós herdamos um cristianismo já enriquecido ao longo dos séculos com sínteses teológicas magníficas e liturgias solenes que ainda nos impressionam, com tradições religiosas, devoções e espiritualidades que nos são familiares, com obras de arte em esculturas, pinturas e músicas que muito admiramos, com estruturas hierárquicas e ritos complexos que também nem sempre entendemos muito bem. Podemos nos contentar em procurar cumprir mandamentos e práticas tradicionais, em meio à agitação, à pressão, à correria e aos imprevistos da vida atual. Daqui nasce a pergunta: somos de fato cristãos?

Pois ser cristão pressupõe um encontro pessoal com Jesus Cristo, um conhecimento existencial de seu projeto de vida, uma convicção muito profunda de que nele temos o sentido último de nossa vida. E ainda mais: uma experiência de felicidade e paz interior, uma nova chave de compreensão da realidade, uma modalidade própria de nos relacionarmos uns com outros, uma capacidade de poder relativizar os infortúnios próprios da condição humana. Porém tudo isso só poderemos alcançar se realmente conhecermos o Mestre de Nazaré, não externamente, mas interiormente.

Trata-se de um conhecimento que provém não de leituras, conferências ou sermões, mas que resulta da experiência pessoal de assumir sua vida em nosso dia a dia e de se comprometer realmente com a causa do Reino de Deus. E igualmente da vivência dos valores evangélicos em nossa vida familiar e profissional, da consciência lúcida da nossa livre opção de fé, da confiança em falar abertamente da própria vida com Jesus Cristo, de tê-lo como amigo fiel. Paulo expressou concisa e magistralmente sua experiência pessoal com Cristo: “Para mim, de fato, o viver é Cristo” (Fl 1, 21).

Nós que conhecemos os evangelhos corremos o perigo de achar que já conhecemos Jesus Cristo, pois suas palavras e suas ações nos são conhecidas desde que éramos crianças. Este conhecimento, patrimônio comum de muita gente, pouco atinge ou modifica a vida de muitos cristãos. Aqui se trata de outro conhecimento, fruto de uma experiência pessoal, realizado numa atmosfera de silêncio e de oração, na qual valorizamos cada palavra e cada gesto de Jesus procurando chegar ao que o motivou a falar ou a agir deste modo, ou ainda como era seu olhar para as pessoas que encontrava. Este conhecimento interno de Jesus despertará nossa admiração por sua pessoa, sua vida, sua fidelidade à missão do Pai, sua coerência contínua em meio às reações contrárias.

Este encontro pessoal com Jesus Cristo implica todo um processo, toda uma vida. Pois estamos lidando com um mistério que, mesmo presente e revelado numa pessoa humana, jamais poderá estar contido em nossa limitada inteligência. Crescemos não só em idade, mas também na perspectiva com que olhamos a realidade, uma perspectiva crescente, mais ampla e mais madura, fazendo emergir o que antes não víamos. O mesmo acontece com nosso conhecimento da pessoa de Jesus Cristo, que não deve ficar presa a uma imagem infantil ou antiquada do passado.

Importante é não nos contentarmos com a configuração externa do cristianismo, satisfeitos em cumprir mandamentos, repetir doutrinas, seguir práticas convencionais. Podemos ser católicos praticantes sem termos uma autêntica amizade com Jesus Cristo, sem termos caído na conta que só em sua pessoa vale a pena investir a própria vida, na esperança de, com ele e com muitos outros, viver uma eternidade feliz.
MFM

II – Convertei-vos e crede no Evangelho (Mc 1, 14-20 )

Certamente o texto de Marcos apresenta a proclamação inicial de Jesus de modo muito abreviado, mas destacando assim os elementos centrais da mesma. Chegou o tempo no qual as promessas dos profetas se tornarão realidade e o Reino de Deus, a saber, o domínio de Deus, o sonho de Deus para a humanidade, está próximo, não plenamente realizado, pois depende da resposta dos homens à oferta de Deus. Daí a exigência de conversão e a fé na boa notícia (evangelho) de um Deus amor e misericórdia que quer uma humanidade feliz.

De fato, a iniciativa é de Deus, pois é a proclamação da boa-nova que nos estimula a responder a Deus pela fé verdadeira, demonstrada em nosso comportamento. “Convertei-vos e crede no evangelho”. E a razão é simples. O Reino de Deus, esta nova humanidade sintonizada com o querer divino, não consiste somente na diminuição dos males físicos ou mentais (Mt 10, 1), mas igualmente numa nova modalidade das relações humanas, caracterizada pelo cuidado com o outro, condição indispensável para uma vivência humana fraterna, justa e, consequentemente, feliz.

Tanto as curas efetuadas por Jesus quanto seu programa do sermão da montanha (Mt 5-7) constituem componentes intrínsecos para a realização do Reino de Deus. Daí sua palavra: “Convertei-vos” (Mc 1,15), porque Deus sempre atua na história através de intermediários humanos, de colaboradores efetivos, de fieis autênticos. Aqui se encontra todo o sentido da Igreja, que afinal somos nós mesmos: viver e proclamar os valores do Reino de Deus, de tal modo que sejamos os artífices de sua vinda.

Mas quando confrontamos nossas vidas com o programa do Reino, constatamos que o imperativo da conversão não se cumpre num só momento, mas paira sobre toda nossa vida. Podemos mesmo considerar nossa existência como um processo contínuo de crescente coerência da nossa conduta de vida com a fé que professamos. Ou, com outras palavras, a conversão ao Evangelho não significa um ato, mas uma atitude de fundo que deve nos acompanhar ao longo da vida, estimulando-nos sempre a uma maior coerência com o projeto de Deus. O importante aqui não é chegar, mas caminhar sempre, pois a perfeição é meta irrealizável simplesmente porque somos humanos, e busca-la exageradamente pode ser sinal de que confiamos demasiado em nós mesmos, sem deixar espaço para a misericórdia de Deus (Lc 18, 9-14a).

A conversão cristã nos pede primeiramente uma mudança em nosso modo de olhar a realidade e as pessoas, na compreensão que temos dos outros, vencendo preconceitos arraigados, mentalidades fechadas, convicções retrógradas, ares de superioridade, posse exclusiva da verdade. Só assim poderemos nos aproximar mais do modo como Cristo via a realidade e as pessoas, e consequentemente contribuir para uma humanidade fraterna (Reino de Deus). A conversão cristã pede também uma retidão moral, uma vida coerente com os valores professados, uma consciência lúcida, para não exigir dos outros, o que não vivemos. A conversão moral aponta para nossas incoerências e falhas, nos faz crescer em humildade e nos capacita a uma maior indulgência com as limitações de nossos próximos.

Finalmente a conversão cristã propriamente dita, de cunho muito pessoal e místico. Se existimos, se temos fé, se conhecemos o sentido último da vida, se temos a companhia constante de Deus em nossa existência, se vivemos na esperança de uma vida plenamente feliz em Deus, tudo isto se deve ao fato que Deus nos amou primeiro, nos chamou à vida e nos assiste sempre através de seu Espírito Santo. Temos que ultrapassar o nível das normas e dos mandamentos e buscar corresponder ao amor primeiro de Deus, fundamentando nossa conduta também no amor a Ele que, como sabemos, não pode prescindir do amor fraterno (Mt 25, 34-40). Ajo ou não ajo deste ou daquele modo, não porque seja pecado ou proibido, mas porque decepciono o amor primeiro por mim, que enviou seu próprio Filho para me guiar (Jo 1, 9) e para me salvar (Jo 3,16), e que me envia continuamente seu Espírito para que eu possa corresponder a seu amor primeiro (Gl 5, 25).

O amor, qualquer que seja sua modalidade, na família, entre amigos, por um ideal ou pelos mais sofridos, é sem dúvida a motivação mais forte que temos para moldar nossa vida. Só somos verdadeiramente cristãos, quando vivemos nossa fé “enraizados e bem firmados no amor” (Ef 3, 17). Tarefa que nos acompanha por toda vida, pois nossa liberdade deve lutar com hábitos adquiridos, com pulsões corporais, com forças inconscientes, com o contexto sociocultural que nos condiciona, conseguindo vitórias parciais e lento progresso. Tarefa que nos acompanha também por estarmos inseridos  na história humana, sempre a nos colocar diante de novos cenários e desafios, que nos desinstalam e nos lançam na aventura de vivermos nossa fé a partir de um relacionamento muito pessoal com Deus, expresso na oração e no cuidado com nosso próximo.
MFM

III – Autoridade na missão (Mc 1, 21-28 )

Os contemporâneos de Jesus perceberam bem que Jesus ensinava de modo diferente, e não como os mestres da lei, mas com autoridade. Esta expressão tem um sentido próprio em nosso texto. Pois o termo grego “exusia” significa propriamente o direito de exercer um múnus que lhe foi concedido por uma instância superior. Tenhamos presente que toda a vida de Jesus foi proclamar e realizar o que ele chamava Reino de Deus, o projeto de Deus para toda a humanidade, a sociedade estruturada na obediência a Deus e, portanto, marcada pela fraternidade e pela partilha. Desta missão que lhe confiara o Pai provinha sua autoridade, uma autoridade em função da implantação do Reino de Deus, distinta do poder dos grandes na sociedade, como deixou claro o próprio Jesus: “não deve ser assim entre vós” (Mt 20, 26), pois ele veio para servir e não para ser servido (Mt 20, 28). Portanto uma autoridade, não apenas para ser exercida com espírito de serviço, pois ela é, em si mesma, serviço.

Responsável último pela diversidade de dons e carismas na comunidade eclesial é o Espírito Santo. Seus carismas são direcionados à missão (Ef 4, 12) e, portanto, conferem autoridade para exercê-los aos que os recebem. Deste modo Jesus enviava seus discípulos em missão, com autoridade para expulsar demônios e curar enfermos, sinais do Reino de Deus já acontecendo (Mt 10, 1). Sabemos que no curso da história cristã esta noção de autoridade se verá deturpada, por influência da sociedade civil, e será vista simplesmente como sinônima de poder. Certamente um erro a ser corrigido, que muito dano ocasiona à Igreja.

Pois o sentido último da Igreja é continuar na história a missão de Jesus Cristo. Portanto somos cristãos, constituímos a Igreja, devemos ser não só membros ativos, mas membros que gozam de certa autoridade de ministros do Reino de Deus. Naturalmente nossa autoridade pressupõe uma vida cristã coerente, uma fé realmente vivida. Se examinamos o elenco dos carismas apresentado por Paulo (1 Cor 12 e 14) vemos que a ação do Espírito Santo respeita e incentiva a realidade de cada cristão: qualidades pessoais, conhecimentos e experiências, hauridas de sua vida familiar, profissional, social, etc. Vivendo sua fé nos numerosos contextos socioculturais da atual sociedade, são os cristãos não só os enviados de Jesus para os diversos setores da sociedade, mas também agentes preciosos para a missão eclesial do Reino de Deus por introduzirem linguagens acessíveis e práticas pertinentes na pastoral.

De fato, a atual indiferença pela Igreja, sobretudo entre as gerações mais jovens, se deve ao desencontro entre o discurso eclesiástico e a vida cotidiana das pessoas, com seus desafios, seus momentos sofridos ou alegres, suas lutas diárias pelo emprego, pela saúde, pela convivência gratificante com os demais, pela paz no meio de tanta instabilidade, pelo sentido da vida no caos das interpelações da mídia. Como já disse alguém: é importante que a vida real apareça em nossas pregações e em nossas celebrações.

Naturalmente não se nega a necessidade de um discernimento, como já havia observado Paulo (1Ts 5, 21; Ef 5, 10), pois alguns mais exaltados, apelando ao Espírito Santo, podem criar divisões e crises na comunidade. Paulo também oferece os critérios para tal discernimento: a edificação da comunidade e a irradiação do Evangelho (1Cor 14). E menos ainda se nega o carisma da direção da comunidade, o ministério ordenado, não como poder, mas como autoridade de coordenar os demais carismas. O poder é obedecido devido ao medo; a autoridade é obedecida devido à confiança.

O Evangelho deste domingo pede de cada um de nós um honesto exame de consciência. Somos realmente colaboradores de Deus em seu projeto do Reino? Irradiamos nossa fé por nosso testemunho de vida ou por nossas palavras? Transmitimos esperança cristã nos desanimados e deprimidos que encontramos? Criamos grupos de partilha da Palavra de Deus em nossas casas? Colaboramos com entidades voltadas para os mais necessitados? Naturalmente sempre a partir de nossas possibilidades, pois os atuais compromissos familiares, profissionais e sociais já nos ocupam bastante, ainda mais neste difícil tempo de pandemia. Mas sempre conscientes que temos autoridade para tal enquanto mensageiros do Reino de Deus!
MFM

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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