Refeitório do hotel, em Sauípe, a beira da piscina. O menino, bem pequeno, rejeita o prato que lhe é preparado. Não queria. Não comeu. Sem ninguém observar,  levanta-se da cadeira e vai se pendurar, na ponta do pé, para alcançar o botão do aparelho de sorvete. Todo esticado, a tentativa hercúlea de conseguir o sorvete. Linda a cena.  Foi socorrido e a boca se encheu, meta que lhe interessava. Ainda hoje me dói não ter registrado o lance da tentativa de conquista.

Fui alcançá-lo, depois, no final de um ano, hospedado em hotel, na praia de Atalaia. Na saída da piscina, o menino e o irmão, que é mais velho, ambos de roupão, se retiravam em direção ao apartamento. Eu, na retaguarda, acionei a máquina fotográfica.  Captei o que queria. Os dois, no mesmo tipo de roupa, a harmonia da diferença de tamanho, no silencioso e ritmado caminho de volta aos aposentos, depois da tarde de rasos mergulhos.

Outra vez, no sítio do avô, na peregrinação pelo pouco espaço da propriedade, o mesmo menino e o avô, cada um com vara na mão. Eu, do terreiro da casa, vi os dois se afastarem. Peguei a máquina, e, com a utilização do zoom, os alcancei já perto da cancela. A distância do avô para ele acentuava a diferença de idade. Um lance para se guardar no álbum das boas recordações, na harmonia do quadro, ambos de costas e  com a cabeça baixa, na inspeção que faziam, ao tempo em que, também, deambulavam pelo interior do imóvel.

O tempo passou. Um hotel caiu de produção, dizem. Não tivemos disposição para retornar. O outro, por dívidas infindáveis, terminou leiloado e derrubado. O sítio, a partir de certo momento, perdeu a atração. Ele, o menino que há anos atrás queria alcançar o botão do aparelho de sorvete, mudou de idade várias vezes. Tivesse hoje de passar pela mesma cena, não precisaria ficar na ponta do pé. Aliás, teria de se curvar. Ao avô, arrastando os pés, falta fôlego para reiterar o feito. O menino, quiçá, hoje, não achasse graça na caminhada.

O passado fica atrás, o tempo ganha asas para voar, e, no mesmo voo, o menino crescendo, agora, adolescente, e, a gente, rugas aparecendo, no mesmo ritmo, em outros projetos. De  comum, a trajetória permanente em direção ao dia de amanhã, onde a morte se esconde – Diário de Pernambuco, 18 e 19 de julho de 2020.

Obs: Publicado no Diario de Pernambuco
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Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras   

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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