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Penso que não fui só eu a ficar muito impressionado com a crise da falta e oxigênio nos hospitais de Manaus e a morte por asfixia de muitos pacientes que estavam hospitalizados, na segunda semana de janeiro de 2021. Além do colapso da saúde pública na capital amazonense, com a falta de leitos clínicos e de UTI, a crise de abastecimento do oxigênio hospitalar, tão essencial para a manutenção dos pacientes internados em UTIs e dependentes de oxigenação mecânica artificial, foi uma notícia surpreendentemente chocante.  Pior ainda saber que as autoridades, principalmente o Governo Federal, através do Ministério da Saúde, já sabiam semanas antes, que haveria uma crise de falta de oxigênio no Estado do Amazonas e nada fizeram para prevenir o caos e o colapso.  Já há cerca de um mês antes, em fins de novembro, uma equipe de técnicos do SUS tinha constatado o risco da falta de oxigênio na capital amazonense, dada a evolução da segunda onda da pandemia no Estado.

Sem dúvida que a situação desastrosa do Brasil nesta pandemia e a tragédia em ato, com os números de óbitos avançando rapidamente para a cifra dos 220.000 mortos e, infelizmente, mais ainda nos próximos meses, se deve à condução incompetente e criminosa do Governo Federal, que assumiu desde o início da pandemia uma politica negacionista e de sabotagem das tentativas dos governos estaduais e municipais de implementar politicas de prevenção, mediante promoção dos principais meios de frear o contagio em massa: evitar aglomerações (e consequentemente, os lockdows), uso de máscara obrigatório, campanhas de higienização das mãos, etc.  Grande parte do povo brasileiro também não se mostrou consciente e disposto a colaborar e assumir as práticas de prevenção apregoadas e impostas pelas autoridades locais. Neste sentido, dois fatos emblemáticos marcaram o final do ano de 2020: em Manaus, as manifestações ruidosas, unindo empresários do comércio, comerciários e vendedores ambulantes contra o decreto do governo do Estado para fechar as atividades não essenciais depois do Natal por quinze dias; no litoral de São Paulo, o Presidente da República pulando no mar, para incentivar multidões de pessoas que desobedeciam às determinações do governo do Estado e das prefeituras, que proibiam o uso das praias, a fim de evitar aglomerações… Isso faz a gente pensar no que alguém falou, em meio à primeira onda da pandemia em 2020, quando a mesma coisa acontecia em muitos lugares, com o incentivo do Presidente: “o povo brasileiro é um povo que não deu certo”. O povo inconsciente e alienado tem sua parcela de responsabilidade, mas as maiores autoridades da República têm responsabilidade maior, porque legitimam atitudes que prejudicam a toda a sociedade. Massas de alienados que parecem viver numa realidade paralela não é privilégio do povo brasileiro, mas aqui parece que a alienação atingiu o seu ponto mais alto.  Muita gente só percebe sua alienação quando é batida diretamente pela dor da tragédia.  E prosseguimos atravessando o túnel do terror, sem vislumbrar uma luzinha…

O Brasil atravessou as sucessivas ondas da pandemia do novo coronavírus, em 2020, enfrentando outras pandemias dentro da pandemia, com mortes incontáveis de milhões de vidas da natureza, nos biomas do Pantanal, que perdeu cerca de trinta por cento de sua cobertura vegetal para incêndios infernais, a partir de agosto, e a floresta Amazônica perdeu quase doze mil quilômetros quadrados de cobertura vegetal, com centenas de milhares de focos de queimadas fora de controle. Quantos milhões de vidas de espécies animais e vegetais foram ceifadas nesta pandemia dentro da pandemia! E o país e o mundo assistindo toda esta devastação terrível sem ver ações significativas dos órgãos federais responsáveis pelo meio ambiente! Povos indígenas e populações tradicionais viram seus territórios serem invadidos e depredados com incentivo oficial. Moradores do pantanal sofreram com tempestades de cinzas. No Sul do Brasil, o medo das nuvens de gafanhotos vorazes, que chegaram até as fronteiras da Argentina com o Rio Grande do Sul, além da longa estiagem que se abateu sobre os Estados do Sul.  Alguém chegou a comparar a situação com as pragas bíblicas do Egito! A pandemia escancarou a realidade perversa das desigualdades que se aprofundam entre os brasileiros.  E agora, neste triste início de 2021, testemunhamos esta segunda onda da pandemia, castigando duramente as populações da região amazônica, com um sintoma assustador: pessoas doentes morrendo asfixiadas por falta de oxigênio!  Seria importante refletir sobre a ligação deste fato trágico com o que dizem ser a principal causa das pandemias no mundo atual: a devastação das florestas e a degradação ambiental, que faz os vírus pularem dos animais selvagens para as pessoas, passando por mutações que tornam os vírus ainda mais perigosos e agressivos para a saúde humana.  O planeta pode demorar para ter uma crise geral de falta de oxigênio, mas o processo acelerado de degradação  das florestas, dos oceanos e do meio ambiente em geral, junto com outros males causados pela chamada civilização do “antropoceno”, está minando os pulmões do mundo como um vírus letal que se alimenta da alienação e da cobiça sem limites de acumulação de bens e do consumo inconsciente e perverso dos recursos da natureza, como se fossem inesgotáveis.

Diante de toda esta situação, facilmente se pode perder a esperança. A sensação de impotência parece sobrepujar todos os outros sentimentos. Foi possível ver isso muito claro nos rostos de profissionais de saúde com semblante cansado, muitas vezes desesperados, chorando as perdas dos pacientes que acompanharam nos momentos de agonia e que, infelizmente, foram ceifados pela pandemia. Muitos trabalhando nos limites de suas forças e contando com recursos escassos nos hospitais públicos, carentes dos insumos mais essenciais e de equipamentos de proteção individual. A desesperança pode se manifestar também em outras atitudes e comportamentos alienados e alienantes, em indiferença mórbida, que leva as pessoas a se fecharem no seu mundo, tentando viver em bolhas de ilusória proteção. Mas a desesperança pode levar as pessoas a viverem à deriva, sem direção e sem Norte em sua travessia. Sem porto para ancorar.  A desesperança pode ter consequências imprevisíveis na vida das pessoas e da sociedade. A esperança é revolucionária, mas a desesperança pode ter um potencial muito explosivo.

A esperança, com efeito, é para nós qual âncora da vida, segura e firme…  (Hb 6: 19)
25 de janeiro de 2021.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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