I – Epifania (Mt 2, 1-12 )

Epifania significa manifestação, a saber, revelação de entidades ocultas e misteriosas que deste modo se fazem presentes e atuantes na vida dos humanos. Neste sentido pode ser encontrada nas várias religiões. Para o cristianismo sintetiza num termo a vinda de Cristo a este mundo, a saber, o seu nascimento. Assim está intimamente ligada a festa do Natal. Mas estes eventos natalinos passaram por mudanças ao longo dos primeiros séculos até de chegar ao que temos hoje: a manifestação aos magos depois da festa de Natal.

Os relatos da infância de Jesus não gozam do rigor histórico atual, pois esta consciência histórica é bastante recente na história da humanidade. Assim tratam com muita liberdade fatos e situações em vista do que querem realmente transmitir. Importante para nós é procurar fazer emergir a intenção ou o sentido do relato sem se prender demasiado aos detalhes do mesmo. Como dizem respeito a expressões provindas de cristãos, expressões de pessoas dotadas de fé como nós hoje, o sentido das mesmas estará necessariamente no âmbito da fé cristã.

As figuras dos três reis magos, homens dedicados ao estudo dos astros, vindos de longe, orientados por uma estrela, traz implícita uma característica própria do cristianismo, a saber, sua pretensão de se dirigir a toda a humanidade, não se limitando a ser a religião de um povo ou de uma região do planeta. Israel como Povo eleito e a Igreja como Novo Povo de Deus constituem mediações da mensagem da salvação dirigida a toda humanidade. Entretanto esta pretensão esbarra no evento do nascimento, necessariamente localizado no tempo e no espaço, portanto particular ou não universal.

Entretanto o relato resolve esta questão através do protagonismo da estrela, que guia os magos em direção a Belém. Embora sem nada saber sobre o menino que acabara de nascer, eles chegaram até ele por meio da estrela. Aqui encontramos um importante sentido desta festa. A salvação de Deus através da pessoa de Jesus Cristo é realmente oferecida a toda a humanidade. E a estrela que guia aqueles que a desconhecem, levando-os até Cristo, é o Espírito Santo presente e atuante em todos os povos, culturas e religiões. Como Espírito presente e atuante ao longo da vida de Jesus iluminando-o e fortalecendo-o em sua missão, do mesmo modo procura levar os seres humanos a terem uma vida semelhante a de Cristo.

A longa viagem dos reis magos, certamente cheia de acidentes, com momentos de incerteza e de euforia, de lucidez e de incerteza, de paz ou de tensões, retrata bem nossa vida de cristãos. Pois, no fundo, ela é uma caminhada rumo a Deus no seguimento do Mestre de Nazaré. E a nossa estrela é o próprio Espírito Santo, que nos acompanha todo o tempo. Deveríamos estar mais atentos a sua ação, como os magos no seguimento da estrela. Pois nesta longa caminhada passamos por momentos bem diversos e não podemos perder o rumo da nossa viagem. É o Espírito que nos faz relativizar as inevitáveis decepções, resistir nos momentos de desânimo, recomeçar depois da queda, ultrapassar desavenças, saber perdoar, vencer o medo de se comprometer, perseverar na oração, sensibilizar-se pelos mais necessitados, tomar decisões que anos mais tarde se revelam fecundas.

Sem a assistência do Espírito Santo não teríamos fé (1Cor 12,3), não invocaríamos Deus como Pai (Rm 8,15), nem saberíamos rezar como se deve (Rm 8, 26), e a Palavra de Deus seria mera palavra humana (At 16,14). Mais do que a obediência a normas e mandamentos, o que alimenta nossa caminhada deveria ser a fidelidade ao Espírito, como bem expressa São Paulo: “Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também sob o impulso do Espírito” (Gl 5, 25). Fiéis à estrela os magos chegaram até Jesus. Fiéis ao Espírito Santo também nós chegaremos até Jesus plasmando nossa vida pela dele.
MFM

II – Batismo de Jesus  (Mc 1, 7-11) 

Só podemos entender o sentido profundo do batismo para nossa existência se soubermos avaliar a importância do batismo de Jesus para sua vida. A cena descrita pelo evangelista Marcos já deixa emergir a verdade de fé subjacente à mesma, que certamente seus espectadores não captaram. Pois o relato pressupõe a fé na pessoa de Jesus Cristo, sua vida, morte e ressurreição e, portanto, em sua dignidade de Filho eterno do Pai plenamente dotado do Espírito Santo. Assim o evangelista apresenta o Pai confirmando Jesus em sua missão através da voz vinda do céu e a força do Espírito Santo que o acompanhará nesta sua missão na figura da pomba.

Toda esta solenidade num batismo que, talvez, tenha passado despercebido em meio de tantos outros, se justifica pelo sentido decisivo deste momento. Pois insatisfeito com a tradição religiosa que recebera e também não se ajustando ao ensinamento severo de João Batista, Jesus inicia uma nova caminhada em sua vida. Sua pregação e suas ações irão refletir sua experiência pessoal de Deus, um Deus apaixonado pelo ser humano, infinitamente misericordioso, sempre a oferecer seu perdão, a lutar pela felicidade do ser humano numa sociedade fraterna e justa. Nesta caminhada será continuamente iluminado e fortalecido pelo Espírito Santo com o qual procurará sempre sintonizar em noites de oração solitária, como narram os evangelistas.

O batismo de Jesus significa, portanto, o início de sua missão que ele caracterizará como o anuncio do Reino de Deus, de uma humanidade que acolha e viva o projeto de Deus. Passará assim por este mundo fazendo o bem, curando os males físicos, injetando esperança, ânimo de viver, cuidado com o outro, paz profunda provinda de Deus, que atrairá as multidões em sua procura. Toda a sua existência consistirá em ser fiel a seu batismo, mesmo que esta coerência lhe custasse a própria vida. Portanto, para Jesus ser batizado significou assumir a missão do Reino de Deus.

Do batismo de Jesus podemos inferir o sentido do batismo cristão. Trata-se de dar visibilidade, já que é um ato social, ao compromisso pessoal de colaborar com Cristo pela causa do Reino. Como todo sacramento pressupõe adultos que tenham consciência do compromisso e liberdade para assumi-lo. Portanto ser batizado é dever ser militante, ativo, protagonista, enfim missionário do Reino. Ou, com outras palavras, não existe cristão passivo, como já indicara o Concílio Vaticano (Decreto sobre o Apostolado dos Leigos 3), o Documento de Aparecida (213) e o Papa Francisco na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, quando afirma que todo cristão é um missionário (120).

A Igreja é a comunidade daqueles que continuam ao longo da história a missão de Jesus: comunidade de batizados, de sujeitos ativos de evangelização, de pessoas que devem ser ouvidas, que devem ter iniciativas, que têm autoridade em se âmbito de vida, que gozam de carismas (dons) próprios que devem ser exercidos. Pois se a vida cristã não consiste propriamente em praticar atos religiosos, mas em fazer do amor ao outro o eixo central da própria existência, então este amor será exercido conforme a respectiva situação existencial, contexto profissional, dotes ou carismas pessoais, ambiente familiar ou social de cada um.

Esta ação evangelizadora não parte de um mandato recebido da autoridade eclesiástica, mas do simples fato de que fomos batizados e temos autoridade para leva-la a cabo. Todo cristão a tem, como reconheceu o Concílio Vaticano II (LG 33). Nos primeiros séculos o cristianismo cresceu e se propagou através dos contatos pessoais entre companheiros de viagem, entre amizades verdadeiras, entre colegas de profissão, sempre pelo exemplo de vida cristã autêntica. Com outras palavras viver a própria vida familiar, profissional, cultural, no respeito e no testemunho dos valores cristãos, mesmo que nada tenha de explicitamente religioso, já é evangelizar, porque somos seres sociais, o modo como nos comportamos desvela aos demais o que cremos.

Portanto fomos batizados não para receber um nome, escapar do pecado original, ou entrar para a Igreja. Fomos batizados para sermos colaboradores de Cristo, na obediência ao Pai e na fidelidade ao Espírito Santo, que nos ilumina e fortalece nesta missão. Um compromisso nada fácil depois de séculos de um laicato passivo, de um clericalismo dominante, de uma mentalidade já incrustada, mas um compromisso que Deus espera de todos nós que somos Igreja.
MFM

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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