(www.rebelo.org)

Peguei a estrada bem cedo, logo quando o céu começou a clarear, saindo de São Paulo com a esperança de chegar a tempo para almoçar em Belo Horizonte. Ia encontrar um amigo de infância, de quem eu não tinha notícias há 20 anos. No dia seguinte, continuaria meu rumo em direção à Bahia e depois Pernambuco.

O percurso é longo até a capital mineira, mas era domingo de Carnaval e a rodovia Fernão Dias (BR-381) estava previsivelmente tranquila. Depois de muita neblina descendo a Serra da Mantiqueira, rodei por mais quatro horas e comecei a enxergar um engarrafamento monstruoso.

Os congestionamentos rodoviários são todos iguais.

A gente espera um tempo dentro do carro para ver se vai andar. Depois de 10 minutos, as pessoas começam a sair dos veículos. Com 20 minutos, chegam as primeiras notícias do que ocorreu. A partir dos 30 minutos, todo mundo já está conversando, trocando lanche e teorizando matematicamente sobre quanto tempo ainda leva até a Polícia Rodoviária liberar a estrada.

Em pleno domingo de Carnaval, um caminhão carregando milhares de litros de perfume entrou errado na curva, capotou, fechou a rodovia dos dois lados e os vidros estilhaçados dos frascos se estenderam por vários metros no asfalto em todas as direções.

Um caminhão de perfume. No Carnaval.

Depois de uma hora de espera, notei meio distante uma placa verde de sinalização das próximas cidades. Andei pelo acostamento até conseguir ler. Logo ali à frente estava o entroncamento que leva à cidade de Três Corações.

Quando criança, eu nunca lembrava de responder “tricordiano” quando meu pai perguntava o nome que se dá a quem nasce em Três Corações, a cidade natal de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, toda vez que a gente fazia o jogo de perguntas e respostas quando viajava de carro nas férias.

Consegui dirigir pelo acostamento até a bifurcação e fui esperar e talvez almoçar em Três Corações. Seria o tempo do perfumado congestionamento se desfazer.

Parei na primeira birosca que encontrei.

Havia umas 10 pessoas. Todas tristes e cabisbaixas.

O rádio estava ligado e alguém pediu para aumentar o volume. Deram a notícia horas antes e agora traziam mais detalhes: naquele domingo de Carnaval, faleceu o Gato Garçom da Calabresa.

O locutor se dividia com outras pessoas que foram chegando na rádio para dar depoimentos sobre o Gato Garçom. Ele era garçom, mas também era um gatão de meia idade, um galanteador à moda antiga. O Calabresa surgiu porque nos últimos anos ele trabalhava na Cantina Calabreza, um restaurante clássico no centro de Três Corações, com mais de 50 anos de história e que eu não tive coragem de ir conhecer.

O Gato Garçom também era conhecido como El Terrible, por ser o terror das viúvas.

E assim, sem perguntar, sem pedir, sem esperar, aquelas 10 pessoas do bar começaram a se aproximar de mim para compartilhar histórias e conversas que tiveram com o Gato Garçom.

Ao mesmo tempo, o locutor também continuava com histórias dele e dos ouvintes.

De todos os dias para morrer, o Gato Garçom não podia ter partido no domingo de Carnaval.

Ele era o “defunto” do bloco carnavalesco Viúvas Atormentadas. Por ser muito magro, as mulheres do bloco conseguiam carregar o caixão de mentirinha com o Gato Garçom dentro. No decorrer da troça, o defunto se levantava e voltava à vida, para alegria das viúvas atormentadas pela morte dos maridos.

Só que exatamente naquele ano, pela primeira vez o Gato Garçom começou a dizer que não seria mais o defunto do bloco. Ao ser questionado pelos amigos, respondia: já morri demais e este ano não quero morrer mais.

Foi com muita insistência das senhorinhas de Três Corações que o Gato Garçom cedeu e aceitou ser o defunto mais uma vez e pela última vez.

As viúvas se desmancharam de alegria e não precisaram desmanchar o bloco. Afinal, o Gato Garçom não era apenas um elegante gatão de meia idade. Era o coração daquele bloco de Três Corações, era um patrimônio vivo da cidade.

Mas o Gato Garçom partiu antes de o bloco sair.

E em toda a cidade, outros tantos corações se partiram ao meio.

Se naquele ano o meu estava partido em vários pedaços, ali em Três Corações ficou estilhaçado como os vidros de perfume pela estrada que me levaram até o Gato Garçom.

Foi um adeus para não esquecer. Do coração da cidade e do meu também. (26 de novembro de 2020)

Obs: Imagem do autor

Foto em destaque:
Barcelona, Espanha | 16 de agosto de 2014.
Enfeites para a tradicional festa do bairro da Gràcia.
Fujifilm x100 | 23mm | 1/250 | f/8.0 | ISO 1600

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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