Como refletir a fé numa sociedade onde pouco se sente a presença de Deus? Nas sociedades teocráticas essa pergunta seria um absurdo, pois todo o ciclo da existência – nascer, crescer, reproduzir, morrer – era penetrado pelo aspecto religioso. Nas religiões monoteístas, por exemplo, no Islamismo, ao nascer alguém já sussurra nos ouvidos da criança a seguinte profissão de fé: “Alá é o único Deus e Maomé é o seu profeta”. No judaísmo também seria impossível conceber a existência sem a participação de Javé, o Deus dos pais. No entanto, para o cristianismo que tanto se desenvolveu no Ocidente esta evidência da influência religiosa já não funciona mais, pois o secularismo, e não a secularização trabalhou de todas as formas, seja pela razão autônoma seja pelos sistemas políticos totalitários que colocavam a soberania do homem acima de tudo, para retirar Deus do horizonte da vida. Chegou-se a decretar a morte de Deus. Agora, neste clima de ausência e silêncio, evidenciados de modo tão cortante nas duas grandes guerras mundiais e, em nossos dias pela atmosfera mundial de pandemia, nos pomos a seguinte questão: como viver neste clima de luto, sem perder a fé em Deus? Qual seria a nova forma que o cristianismo deveria assumir para não perder a sua credibilidade no contexto atual? O que devemos fazer para encontrar a presença de Deus em sua ausência e no seu silêncio?

Se a teologia deseja ainda ser útil em nossa sociedade, então ela deverá estar atenta para não retomar a sua antiga linguagem religiosa, ou seja, para dar razão da fé hoje (cf. 1 Pd 3,15) a teologia é convidada a usar uma linguagem que dialogue com o mundo secularizado. Isto quer dizer que a mesma poderia optar pela via do não ser, pois a antiga linguagem religiosa detinha-se sobre o ser, tão abstrato, metafísico, totalitário, soberano, poderoso e abissal e, por isso mesmo, diferente daquela fragilidade humana assumida na encarnação de Jesus de Nazaré. Este sim, ao experimentar viver imerso no não ser (sem poder, sem privilégio, sem terra, sem segurança alguma, sem qualquer forma de vida totalitária), falou de Deu de um modo revolucionário e real. Justo na vida concreta de um homem está à nova linguagem – não religiosa, portanto – que nossa época é convidada a aprender para não cair no desespero. Só o Deus do não ser é capaz de dar um novo sentido às lágrimas de nosso luto.

Esta reviravolta em nossa maneira de encararmos a experiência de Deus no mundo de hoje deverá unir o binômio fé/vida. Se insistirmos em separá-lo, caímos outra vez na armadilha do antigo sistema religioso que reduz o sagrado ao aspecto meramente ritual e sacramental. A fé necessita, portanto, assumir a sua dimensão política, ou seja, deve está presente em todas as esferas públicas da existência para não correr o risco de ser engaiolada em situações contingentes.

Quando damos ênfase a experiência do “não ser” sublinhamos os aspectos existenciais até então considerados profanos e indignos de atenção. Aqui entramos num terreno movediço, sobretudo porque fere as sensibilidades dos homens de igreja acostumados com uma linguagem dicotômica, onde tudo passa pelo crivo de categorias do tipo bom/mau, hetero/homo, alto/baixo, gordo/magro, etc. A antiga linguagem do ser acostumou-nos a encontrar a verdade apenas nas realidades positivas, por exemplo, nas categorias mencionadas, o ser verdadeiro está apenas no hetero, alto, magro etc…As demais são suspeitas, pois fogem ao padrão. No entanto, o Deus revelado por Jesus, como assumiu toda a humanidade, dando prioridade ao “não ser”, visto que foge ao conceito de sagrado de seus contemporâneos, revela uma maneira mais intensa de assumir a vida com tudo aquilo que implica.

Uma vez que caminha na contramão das religiões oficiais acostumadas a dar resposta a tudo, o Deus do “não ser” se deixa encontrar sobretudo no não religioso, pois está despido de rótulos metafísicos e cravado na secularização, ou seja, lá onde “o véu do templo se rasga em dois” (Mt 27, 51) e o homem nasce definitivamente para a liberdade.
(Campina Grande/PB, 24 de novembro de 2020)

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. É mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) – Roma.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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