Não é tarde demais para voltar às manifestações de domingo, 15 de março pp., que tomaram ruas e avenidas das grandes cidades do Brasil. Poderíamos imaginar uma pesquisa de opinião com a seguinte pergunta: ‘você foi à rua porque pensou que devia ir ou porque sentiu vontade de ir?’. Penso que muitos teriam dificuldade de entender o sentido da pergunta, o que confirma o seguinte: a grande maioria foi à rua, impulsionada por sentimento, não por pensamento. Simplesmente acompanhou a multidão. Ainda bem que Fernando Henrique Cardoso disse que não era o momento de pensar em impeachment de Dilma, senão mais pessoas teriam gritado: ‘Fora Dilma!’. Nesse momento, o ex-presidente fez jus à sua fama de intelectual, ou seja, de uma pessoa que pensa.

Trago aqui outro indício alarmante em torno dessa questão do pensamento. Sem alarde, a TV Globo divulgou na semana passada os resultados de uma pesquisa acerca das instituições mais respeitadas do Brasil. A imprensa (leia: os grandes meios de comunicação) saiu em primeiro lugar, seguida pelas ‘redes sociais’. Em terceiro lugar veio a igreja católica, seguida pelo exército. Suponho que a pesquisa tenha sido tecnicamente bem feita e, nesse caso, o resultado é, mais uma vez, inquietante. O público em geral não sabe nem quer saber como funcionam os grandes meios de comunicação. Simplesmente liga a TV para assistir à novela ou ao Jornal do Brasil.

Quanto às universidades, o quadro não é menos desolador. Percebe-se uma falta de interesse em formar pessoas que pensam, embora a escola exista para ensinar a pensar. Importante, hoje, é formar técnicos e funcionários a ser ulteriormente engolidos por poderosos sistemas burocráticos em troca de um salário. Muitos desses funcionários não se dão ao trabalho de pensar de que modo funcionam as instituições que eles mesmos sustentam com seu trabalho. Basta receber o dinheiro.

Concordo plenamente com a análise feita por Leonardo Boff, quando afirma que há na sociedade um sentimento de ódio irrefletido que, aparentemente, se dirige contra Lula, Dilma e o PT, mas que na realidade expressa o desconforto de pessoas bem situadas que hoje se encontram com pessoas que entram em aviões e shoppings de bermuda, dirigem seus próprios carros e aparecem na cena política.  Aqui também, pensar serviria para superar esse sentimento, mas as pessoas não costumam pensar.

Concordo igualmente com Ivone Gebara quando, por ocasião das matanças em Paris um mês atrás (Charlie Hebdo), lembra o tema da ‘banalidade do mal’, trabalhado por Hannah Arendt em seu livro ‘Eichmann em Jerusalém’. Nesse livro, a autora mostra que o grande ‘carrasco nazista’ não era um monstro, mas uma pessoa de bom trato, polido e educado, enfim, uma pessoa comum. Ele simplesmente não pensava, agia como eficiente executivo dentro de uma complicada engrenagem burocrática que tinha como finalidade matar pessoas. Bastava não pensar para mandar milhões de pessoas para o crematório por meio de expedientes burocráticos. Quando o ‘não pensar’ chega a tais dimensões, ficamos perplexos. Mas, o que fazer com nosso ‘não pensar’ do dia-a-dia?

Como posso estimular hoje a minha capacidade de pensar? Informações não me faltam, mas será que são confiáveis? A notícia do dia que aparece no meu Smartphone é confiável? Por que não largar, de vez em quando, esse Smartphone e ler um livro? Há pessoas em meu redor com quem posso falar sem logo ouvir reações como: ‘você é PT, já sei o que você pensa’? Essa reação significa que é melhor não pensar e seguir o que diz a ‘opinião pública’, ou seja, o que ‘todos dizem’.  Enfim, um bom ponto de partida consiste em reconhecer que eu também, vez por outra, falo sem pensar. 23rd March 2015

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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