Dasilva 15 de janeiro de 2021

Por contraditório que possa parecer, uma pandemia nos devolve o tempo. Ninguém nega que epidemia é tragédia: ceifa vidas, deixa rastro de sequelas, afeta a saúde mental e afetiva das famílias e lhes arranca a liberdade de ir e vir. Mas, assim como uma prisão, esse retiro forçado nos oferta um tempo sem tamanho para ser usado.

Antes, a ocupação era tanta que forçava a diminuir o descanso, a atenção a família, o espaço do lazer, o adiamento de projetos e a avaliação da própria trajetória. Agora, há quem diga não saber mais o que fazer, que precisa inventar coisas para encher o dia, que está cansado de não fazer nada ou viver na obsessão de sair de casa.

Fomos educados a nos impressionar com aparências e a não ver que todo fenômeno traz, em si, perigo e possibilidade. Por não enxergar a permanente e intensa luta dos contrários, no interior das coisas, muita gente subestima ou superestima o inimigo real, virulento, traiçoeiro e letal. A miopia torna uns pretenciosos e outros manada.

Os negacionistas desafiam o Covid como gripezinha que assusta maricas (e alguns pagaram, com a vida, sua ignorância). Na outra ponta, o medo é tamanho que leva muita gente a se refugiar na cabana. Uns se tornam autoritários e insensíveis, outros mergulham no pânico, no estresse, no conflito, na angústia, na depressão…

A pior atitude do preso é se bater contra as grades ou tentar “fugir” delas pela fantasia. Quando descobre que o distanciamento é um imenso ócio, precioso para tramar… Então, encara o real, passa a conspirar e prepara a liberdade. Não se pode desejar a prisão, mas estando lá, é bom ver a solitária como tempo fértil (para o justo ou o diabólico).

Esse tempo longo, impõe o realismo. Os patrões não choramingam. Se reinventam para ter mais lucros com menos custo: home office, vendas online, ensino à distância, delivery, Uber… aproveitam para incorporar negócios arruinados. Fazem assistencialismo como solidariedade S/A para manter ou atrair a fidelidade de incautos consumidores.

Maldita seja toda pandemia! O vírus, nesta sociedade, tem lado: ataca os pequenos – vulneráveis, pretos, mulheres, migrantes. Quem trabalha não pode ter tempo – corre atrás de comida, arrisca a vida para existir. Fragilizados e pouco esclarecidos, viram presa fácil da ilusão. Mesmo assim, há gente que acha tempo de cultivar a compaixão.

Epidemia não é maldição dos céus dita por profetas que fazem da fé um negócio. O vírus não faz a crise, apenas desnuda a avidez do lucro e a miséria que produz ao explorar, gerar guerra, invadir a soberania dos povos, desmontar a rede de proteção social, degradar o meio ambiente e ‘eleger’ faraós insensíveis e genocidas.

Paulo Freire conta que a riqueza do exílio foi saber conviver com a saudade: cultivar o sonho da volta sem deixar a saudade virar nostalgia. Só a impaciência paciente pode gerar a esperança ativa com tempo para conversar, calejar as mãos, caminhar, ver o que não via antes, ouvir mais e projetar o futuro com os pés do chão.

Ó feliz pandemia que traz o tempo de volta! Para quê? Para encontrar(se), retificar a trajetória, ajustar amores e testar discursos de respeito, paciência, diálogo, cuidado comum da casa. Tempo para descansar, meditar, findar projetos adiados, escrever, ler, estudar, fazer atividades novas… Sem deixar de ter um olho no agora e outro, no dia depois.

Esse tempo é para ver e denunciar que, no capitalismo, vidas não importam. Nele não há lugar para a dignidade feminina, indígena, preta, homossexual, migrante, ambiental, cultural…  É ocasião para convocar os pobres para um tempo que é de partilha; reafirmar que só a classe oprimida pode libertar-se e, ao libertar-se, liberta até os opressores.

O distanciamento ajuda a romper com a mesmice, a falta de criatividade. Só permite fazer ações pequenas que se agigantam se mirarem a sobrevivência e o espírito comum. Por isso, prepara para o cuidado da vida, o aprendizado da convivência, a compaixão dos pobres…É um tempo de experimentar, desde já, o que se anseia para a humanidade. 23/12/2020

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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