O ônibus, pequeno e apertado. Os bancos, essencialmente curtos, e, mesmo assim, em um deles mamãe se ajeitava, Bosco também, ambos sentados, e eu, bem, eu ficava em pé, o olhar curioso na estrada, a fixar a vegetação, a cabeça a ruminar pensamentos no sentido de que um dia todo aquele mato se transformaria em cidade, e, no percurso de Itabaiana para Aracaju, não haveria lugar para mato algum, tudo iria se repimpar de casas de um lado e de outro. Essa transformação, malgrado os mais de sessenta anos transcorridos, ainda não se concretizou, nem acredito que, um dia, por mais distante que seja, se tornará realidade.

Contudo, o que mais me entusiasmava não era a vegetação que via, o horizonte lá longe indo até onde a vista alcançava. O mais não existia na geografia de meus parcos conhecimentos, simbolizando caminhos e terras por onde nunca tinha passado nem pisado. Nada disso. O que mexia em minha mente era o fato de o motorista saber a estrada de cor, saindo de Itabaiana, passando por Laranjeiras, e, enfim, chegar a Aracaju, ato que considerava um fenômeno, embora não manifestasse minhas conclusões, falando só para mim mesmo, a boca fechada o tempo inteiro, apreciando, matutando e planeando, sempre  mudo, sem me cansar de ficar em pé, porque sentado não teria como ver a paisagem no tamanho que meus olhos captavam.

Anos e anos mais tarde, agora no volante, em viagem de recreio para a fazenda de minha sogra, saindo da rodovia asfaltada para percorrer estrada de areia, ora larga, por onde dois carros se cruzavam, ora estreita, onde um teria de aguardar o outro veículo passar, curva a direita, cancelas a frente,  uma descida abrupta para passar em leito de riacho que o verão seca, me emocionei com Pedro, ainda menino, preocupado porque o veículo da tia-avó desaparecia de nossa frente, e, ele a perguntar se eu estava indo certo, se o caminho era aquele mesmo.

A afinidade repousava no conhecimento da estrada, em poses diferentes. Eu, admirando o motorista, porque sabia o caminho de cor. Pedro, a manifestar o receio de se perder na viagem. Ambos em correlata idade. A história se repetia. Sem querer voltei a vestir calça curta, roupa de dia de domingo, feliz da vida, indo para Aracaju, ainda que tivesse de voltar no mesmo dia – Diário de Pernambuco,  7 e 8 de novembro de 2020.

Obs: Publicado no Diario de Pernambuco
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Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras   

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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