Histórico do Irmão Ronaldo David Hein. CSC, no Brasil

Cheguei ao Brasil com 33 anos de idade, em plena ditadura militar, no dia 16 de agosto de 1965, no Rio de Janeiro. Fui para Petrópolis, uma cidade montanhosa perto, para participar do curso de enculturação brasileira e a língua portuguesa. Lá encontrei professores jovens com muita energia.  Alguns deles tinham ficados presos e torturados durante os primeiros anos da ditadura e tentaram nos sensibilizar sobre a situação do País, especialmente a dos pobres.

Ao terminar o curso fui enviado para o Colégio Notre Dame (CND) em Campinas, São Paulo, onde fiquei até dezembro de 1968. Fiz um curso para poder ser registrado como professor no Brasil. Peguei hepatite e fiquei de cama por várias semanas. Ajudava o Irmão Ricardo Morand na manutenção e no cuidado do gramado do colégio.

Fui professor de Física, auxiliar de disciplina e orientador religioso do colégio. Aos sábados, acompanhava os indisciplinados com trabalhos manuais. Foi através deste meio que comecei a conhecer algumas famílias do CND. A Drª Joana, médica e mãe de um dos indisciplinados, foi uma das pessoas que conheci. Ela, comigo e um grupo de mães, começamos a visitar as famílias de alguns funcionários pobres do CND. O grupo ajudou para restabelecer estas famílias pobres, ajudando-lhes a alcançar um padrão de vida melhor. Os filhos deles tinham bolsa integral para estudar no CND. Drª Joana, junto com as mães, ajudavam atender às necessidades das famílias como a saúde e alimentação.

Com a ajuda de alguns pais do Movimento de Cursilho, conseguimos montar o programa de formação do Treinamento de Liderança Cristã (TLC). Pe. Haroldo Rahm, S.J. ajudou para realizar estes encontros com os alunos do Colégio Notre Dame.

Fui orientador do grupo de mães e fizemos muitas promoções no CND e, assim, o meu circulo de amizades com as mães e os pais em geral, foi aumentando. Fiquei convencido que os ricos também precisavam de um sinal do amor de Deus nas suas vidas.

Comecei a aprender o jeito brasileiro de ser. O que mais me marcou na época foi a facilidade de tocar nas pessoas, principalmente o abraço bem carinhoso. Quando consegui me abrir para estes bons costumes da cultura, eu percebi que melhorei no meu desenvolvimento como pessoa humana. Percebi que o meu jeito de ser era também benéfico para os brasileiros. Senti que estava num ambiente de crescimento mútuo e dentro de poucos meses comecei a me sentir em casa.

A língua portuguesa foi um desafio para mim. Até hoje luto com o sotaque. O pessoal do Rio de Janeiro, os Cariocas, falavam de um jeito e os Paulistas de um outro jeito. Quando fui enviado para Santarém descobri que os paraenses também tinham seu jeito especial de falar.  Este jeito de falar diferente em regiões diferentes do mesmo país, também acontece nos EUA.  portanto, não me estranhei com isso.  As vezes misturava os três jeitos de falar numa só expressão e foi engraçado para os Paraenses.

Em 1967, em Campinas, começamos a receber candidatos para a nossa Congregação e alojá-los em algumas salas de aula desocupadas naquela época. Nas salas  separamos um espaço para o quarto do formador e, no resto do espaço, foram colocadas camas para os candidatos. Fui o auxiliar do Irmão Ernesto Turk.

Em 1968 assumi como formador. Os candidatos que estavam em Santarém nos anos anteriores vieram fazer parte deste novo programa em Campinas.

Nesta época de pós-Concílio Vaticano II (1962-65), este Concílio orientava para experimentar novas maneiras de fazer a Promoção Vocacional e Formação na Vida Religiosa Consagrada (VRC).  Fomos incentivados a colocar em prática esta orientação. A primeira tendência foi de querer descartar tudo do tradicional e começar de estaca zero. No processo de discernimento entre nós, determinamos o que deveria continuar de tradição, como valor na Vida Religiosa Consagrada (VRC), e o que deveria mudar.

Um dos primeiros conflitos entre nós, Irmãos da CSC, foi gerado pelo documento do Vaticano II, Perfectae Caritatis (Caridade Perfeita), sobre a VRC e o que o documento constatou sobre o voto de pobreza. Segundo o documento este voto deveria ser vivido de fato e não somente na teoria. Vivendo num ambiente como Colégio Notre Dame, entre famílias ricas, foi difícil sensibilizar os postulantes sobre a vivência, de fato, de uma vida simples e pobre. Somente quando foram para o noviciado em Santarém e tiveram contato com famílias pobres, através das aulas de religião que deram na Escola Santa Cruz perto do Noviciado, e visitas domiciliares, é que foram despertados sobre o que é viver na simplicidade e no espírito do pobre, e querer experimentar a pobreza de fato.

O documento de Medellín, em 1968, da CELAM (Conferência Eclesial Latina Americana) deu orientações de como os novos conceitos do Vaticano II deveriam ser colocados em prática na América Latina. Este documento trouxe, pela primeira vez, a Opção Preferencial Pelos Pobres. A interpretação desta OPP foi muita diversificada e causou muitas dificuldades entre nós em Santa Cruz e entre os padres,  leigos e o Povo de Deus em geral da Diocese de Santarém. Muitas mudanças que foram provocadas pelo Vat. II causaram dificuldades para muitos, especialmente para quem estava buscando algo seguro para orientar os noviços e outros jovens em formação. Eu senti isso durante os primeiros noviciados dos quais fui Mestre de Noviços: 1969, 1970 e 1971.

O desentendimento entre nós, os irmãos, foi marcante, pois não encontrávamos sempre meios para manter um diálogo aberto sobre os assuntos em questão.

Nestes primeiros anos após o Vat. II, havia poucos livros de autores brasileiros sobre formação. Também existiam poucos  cursos para formadores. Precisava usar livros estrangeiros e fazer a tradução  para o Português. Eu precisava traduzir muita matéria do inglês para usar nos primeiros noviciados.

Conversava com outros formadores, dos Frades OFM e das Irmãs dos Dois Corações de Jesus e Maria, para tentar conseguir um apoio mútuo entre nós. Formamos uma equipe de estudos e fizemos juntos uma parte da formação dos noviços das três Congregações. Este entrosamento entre candidatos e candidatas para a VRC foi uma novidade para todos.  Antes, os programas de formação eram sempre separados, masculino e feminina.

Não demorou muito e esta situação começou a mudar. Começaram a surgir livros brasileiros e cursos para ajudar na formação. Eu aproveitei muitos destes cursos durante os anos de 1975 em diante, principalmente em Belém. Lá, os Frades Franciscanos na Batista Campos sempre me recebiam como hóspede durante estes cursos.

 Em 1984 decidimos juntar o programa de formação com os Padres de Santa Cruz. Pe. Ricardo CSC, representando o Distrito dos Padres e eu, representando o Distrito dos Irmãos, montamos um Guia para ser usado na Promoção Vocacional (PV) e Formação dos dois distritos. Com isso, e mais a participação do Pe. Ricardo e eu nos encontros promovidos pela CSC da América Latina e Internacional, começamos a ter maior segurança naquilo que deveríamos colocar em prática. No Guia tentamos tanto conservar do tradicional em CSC, como adaptar o tradicional ultrapassado para a realidade presente e o que de novidade deveria entrar no novo programa.

Ao longo desses anos a Administração Geral da nossa Congregação fez um grande esforço para tentar garantir uma boa formação de Santa Cruz, promovendo encontros internacionais e regionais, para nos ajudar no discernimento. Facilitou mais ainda com a publicação do GUIA da CSC de Promoção Vocacional e Formação, em 2004. Este GUIA ainda sofreu modificações e a nova versão foi publicado em 2010. Na medida em que nós, os responsáveis pela Promoção Vocacional e Formação, estamos caminhando e avaliando, sempre será preciso novas adaptações no GUIA.

Assim é o trabalho de formação hoje em dia, pois muita coisa na sociedade vem mudando rapidamente. No entanto, sempre vão permanecer os valores fundamentais para a formação na VRC da Igreja Católica e, no mesmo tempo, abertura para as rápidas mudanças que estão acontecendo na sociedade.

Eu estou ligado à PV e Formação dos Distritos desde 1967, como Promotor Vocacional, Formador (fui Mestre de Noviços 12 vezes) e Diretor de Formação. Sempre fiz um esforço para priorizar este trabalho na Congregação.

Ao longo destes anos, fizemos a PV e Formação hora separados dos Padres, hora juntos. Agora estamos juntos. Desde 2012 não estou mais servindo como Diretor de PV e Formação dos Religiosos do Brasil.

 Acho importante relatar algo que aconteceu durante o noviciado de 1971. Os noviços eram educadores nas aulas de religião na Escola Santa Cruz, na Comunidade de Diamantino, uma escola fundada por Irmão Kevin Barey, CSC em 1961.

Nesta época dos anos 70, um Interventor Militar, um capitão de exército, (Elmano de Moura Melo), foi nomeado chefe do Município de Santarém após o assassinato do prefeito (Elinaldo Barbosa) em 1969. Os noviços, nas visitas domiciliares, que faziam parte do apostolado deles, descobriram que algumas pessoas da prefeitura tinham iniciado uma nova demarcação dos terrenos das famílias tradicionais da vila de Mararú, comunidade da qual participávamos. A intenção era reservar parte destes terrenos para algumas famílias privilegiadas da cidade, para casas de férias e fins de semana.  Algumas autoridades da prefeitura tinham declarado inválidos os documentos antigos das famílias tradicionais da Vila, e estavam no processo de redocumentá-los.

O povo já estava planejando uma reação violenta, armada, para resistir este plano de alguns da prefeitura. Falamos com este grupo para ter calmo, e fui atrás de alguns conhecidos da sociedade santarena. Assim conseguimos a ajuda do grupo de Cursilhistas de Cristandade, que estava começando em Santarém. Diante da ajuda destas pessoas de influência na cidade, o grupo da prefeitura não tinha apoio suficiente para levar em frente seu plano maléfico, e parou.

Em 1972, os Franciscanos alugaram a casa onde já tínhamos realizado nosso noviciado durante os anos de 1969 a 1971, local denominado atualmente como Emaús. A comunidade dos Irmãos pediu para que o Irmão Leonardo Reeson e eu ficássemos morando lá durante aquele ano, enquanto os Franciscanos estavam usando o local.

Devido o acidente que o Irmão Norberto Lengerich sofreu com o trator em 1970, a parte da Fazenda estava sendo dirigida por leigos de confiança dos Irmãos. Diante desta situação, começamos a conversar sobre o destino deste local. Os Franciscanos queriam usar Emaús somente por um ano, e depois, a partir de 1973, quem tomaria conta?

 Vimos que seria um trabalho de tempo integral somente para manter o local, sem um futuro definido. Nenhum dos Irmãos queria morar lá fazendo isso. O Irmão Norberto estava se recuperando do seu acidente nos EUA, sem data definida para voltar. A solução foi ceder Emaús para a Diocese, por um tempo determinado. A Diocese estava precisando de um local como este para realizar encontros com os grupos da Igreja Católica e para as Assembleias da Diocese. As duas partes entraram em acordo e a Diocese e a CSC firmaram a “cessão” do local por 99 anos.

Durante os anos de 1973 a 1975, Irmão Leonardo e eu moramos na casa do Distrito, ao lado do igarapé em Diamantino. Ajudávamos na Escola Santa Cruz da Comunidade Diamantino e fazíamos parte do Corpo Docente do CDA, também neste período.

 Por causa da dificuldade de transporte na época, os alunos da Escola Santa Cruz, depois de concluírem o curso de Admissão, não tinham condições financeiros para bancar as despesas deste transporte. Com a colaboração do Diretor do Colégio Dom Amando, Ir. José Ricardo, montamos, com a ajuda dos pais dos alunos, um anexo ao CDA, ao lado da Escola Santa Cruz, para os alunos cursarem a 5ª e. no ano seguinte, a 6ª série. Todos foram matriculados no CDA mas estudavam no local do novo barracão do anexo.

 Assim os alunos da Escola Santa Cruz deram continuidade aos seus estudos. Quando o transporte para a cidade melhorou, a maioria destes estudantes conseguiu concluir seus cursos no CDA na cidade  de dia ou de noite, enquanto outros concluíram no Colégio Santa Clara, todos gozando bolsa integral de estudos.

 Wilde Fonseca (maestro Dororó), professor de música do CDA, formou um coral com os 18 alunos desta turma, durante os dois anos. Este coral foi convidado para animar vários eventos, tanto nas colônias da redondeza quanto em lugares na cidade.

Durante estes três anos, Irmão Leonardo e eu fizemos uma experiência de receber rapazes da redondeza para morarem conosco, como possíveis candidatos para a nossa Congregação. A experiência de convivência comunitária foi boa, mas nenhum deles abraçou a proposta de ser candidato para a Congregação de Santa Cruz.

Trabalhei no CDA de 1972 a 1987 como professor de física, ciências, desenho mecânico, moral e cívica, e como coordenador do programa de formação espiritual do Corpo Docente e Discente.

Em 1976, já como diretor dos candidatos que estavam entrando no programa de formação, fomos morar numa casa alugada na Trav. Turiano Meira. Nesta mesma época, Irmão Ernesto e eu fizemos uma pesquisa tentando achar um lugar adequado para uma casa de formação permanente.

 Em 1978 compramos um terreno de 10 metros por 30 metros na Rua do Norte, com duas casas de madeira lado ao lado, para receber os candidatos que queriam fazer uma experiência vocacional conosco.

 Morei em várias casas de formação em Santarém. Na Trav. Turiano Meira, de onde, depois de três anos, saí para morar numa outra casa alugada no Bairro da Esperança. Esta casa servia tanto para o noviciado como para o juniorato, dependendo da situação em que estávamos. Um ano serviu para acomodar cinco seminaristas diocesanos que queriam fazer uma experiência de inserção comigo. Com o aval do Dom Tiago a experiência foi para um ano.

 Quando mudei para a casa na Rua do Norte, em 1985, assumi o noviciado por vários anos seguidos. Enquanto morava nesta casa trabalhei na Pastoral da Igreja do Santíssimo Sacramento como coordenador dos Orientadores de Crisma. A mesma equipe também organizava encontros vocacionais para despertar a importância do chamado de vocação nos jovens.

 Fiquei fazendo este trabalho até a mudança para Diamantino, em 2001, para acompanhar o Irmão Sérgio  Commassetto em preparação para os seus votos perpétuos. Irmão Leonardo também fazia parte desta comunidade. Nesta mesma casa, nos anos seguintes, acompanhei os mestres de noviços (Irmãos: Alberto Bentes, César Ramos e Sérgio Stolf), como assistente deles.

 Em 1974, Dom Tiago Ryan me pediu para coordenar a Catequese Escolar da Diocese. Esta catequese coordenava a presença da Igreja Católica nas escolas do governo através das aulas de religião. Nesta mesma época eu estava trabalhando no CDA, quando iniciamos os encontros espirituais para os alunos do colegial.  Padre Luís Pinto nos ajudou a realizar estes encontros como o principal palestrante. Estes encontros ajudaram firmar uma formação básica, humano – espiritual, que animaram muitos dos jovens a assumirem a prática da sua religião e refletir sobre o seu compromisso cristão de servir na comunidade.

Um dos resultados destes encontros foi a formação de um grupo de alunos do 3° ano colegial, que passaram a ajudar nas aulas de Moral e Cívica para as turmas de 5a a 8a série. Esta atividade serviu tanto para a formação destes jovens educadores quanto para os seus alunos.  (O Bispo, Dom Geraldo Pastana fazia parte deste grupo de alunos –  educadores.)

 Mais tarde, com alguns destes alunos e com a colaboração do Irmão Ernesto Turk, começamos a atingir algumas escolas públicas com o curso de Orientação Para Vida (OPV). Com esta iniciativa, outras escolas públicas pediam para serem incluídas neste programa.

Em 1980, a Diretora do Colégio Estadual Álvaro Adolfo da Silveira (CEAAS), Professora Nely, nos pediu para levarmos estas aulas de OPV para lá. Iniciamos o trabalho em colaboração com a Professora Benedita Brasil, no 1º colegial, numa aula com conteúdo de orientação em preparação para a vida profissional (POO – Programa de Orientação Ocupacional). Este material coincidia muito bem com o material do programa da OPV.

 Depois, com uma equipe de religiosos e religiosas, formandos e formandas, e mais alguns seminaristas diocesanas, conseguimos atender, também, o 2° e o 3º anos do CEAAS. A matéria OPV constava no boletim do aluno. Este programa durou por cinco anos. Segundo a Diretora e os professores, o programa ajudou a influenciar o ambiente escolar para o melhor.  Em 1985, levamos o programa para a escola recém construída na época, Felisbelo Sussuarana.

 Durante o período que estava trabalhando no CDA, coordenando a Catequese Escolar e acompanhando a equipe que dava aulas de OPV no CEAAS, aderi ao recém formado Sindicato dos Professores de Santarém. Com a força desse Sindicato conseguimos organizar uma GREVE em Santarém, reivindicando melhores condições de trabalho e melhores salários para os professores das escolas públicas. Dom Tiago se pronunciou na Praça do Relógio apoiando a greve. O CDA também aderiu para fortalecer as reivindicações dos professores das escolas públicas.  O Diretor do CDA, Irmão José Ricardo, fez uma reunião com os professores do CDA para esclarecer o motivo de suspender as aulas por um dia em apoio aos professores das escolas públicas. Com todo este apoio a greve deu resultados positivos para os professores de Santarém, com melhores salários e condições de trabalho.

Em 1980 Dom Tiago me pediu para acompanhar cinco seminaristas que queriam fazer uma experiência de inserção. A nossa Congregação estava entregando a casa alugada que serviu como casa de formação, no Bairro de Esperança, e a Diocese resolveu alugar esta mesma casa. Após seis meses de acompanhamento, o Reitor dos seminaristas maiores no “Tiagão”, Pe. Edilberto Sena, foi transferido para fazer um curso e Dom Tiago me pediu para assumir a formação e acompanhamento desses seminaristas. Fiquei mais um ano e meio neste trabalho e, durante este tempo, continuava com minhas atividades no CDA.

 Neste período, com o apoio da Congregação de Santa Cruz e do Dom Tiago, fiz um retiro de 30 dias em Itaicí, São Paulo, para me ajudar a discernir entre ficar na CSC ou me formar como padre da Diocese de Santarém. No discernimento com o meu Diretor Espiritual e os meus superiores decidi ficar na Congregação de Santa Cruz onde tive raízes e experiência como educador vivendo o Carisma do nosso fundador por muitos anos, e a grande demanda de educadores religiosos da Igreja Católica principalmente nas obras sociais.

A partir de 1980 a Diocese de Santarém, incentivada pela CNBB, iniciou a prática, como em quase todo o Brasil, de formar equipes de coordenação composta do Bispo, dos padres, leigos, religiosos e religiosas. Eu fiz parte da primeira equipe executiva e dela participei por vários anos. Participei em todas as Assembleias Diocesanas até hoje. Numa das primeiras Assembleias, a primeira que o Bispo Auxiliar, Dom Lino participou, houve um desentendimento sobre a organização da Diocese e a participação de leigos(as) não católicos, e de Organizações Não Governamentais – ONG’s, em nossas Assembleias. A discussão foi tão difícil que nenhum dos membros da equipe de organização da Assembleia queria dar continuidade na coordenação, até conseguir terminar o programa planejado. Durante o intervalo, Dom Tiago me pediu para coordenar e dar continuidade na discussão. Eu assumi a coordenação e conseguimos continuar com a discussão até o final da Assembleia, que não foi tranquila, mas, pelo menos, conseguimos terminar oficialmente o programa da Assembleia.

 Eu coloco esta experiência como exemplo do clima de divisão que existia na Diocese na época da Teologia de Libertação. Eu, pessoalmente, estava em favor da prática desta Teologia, que dava preferência para os pobres e excluídos da sociedade, mas não do jeito que alguns (inclusive padres e agentes de pastoral) estavam querendo colocar em prática, tirando a palavra PREFERÊNCIAL, e trabalhar somente com os pobres. Mesmo assim a nossa Diocese conseguiu caminhar, às vezes com incertezas, mas procurando sempre colocar em prática esta Opção Preferencial pelos Pobres.

 Como coordenador da Catequese Escolar Diocesana, fui sondado sobre a possibilidade de fundar um núcleo da Associação dos Educadores Católicas (AEC), na Diocese. Após conseguir o aval do Bispo, fundamos o núcleo. Esta Associação serviu como canal para aprofundar com os educadores uma formação humana e espiritual, preparando-os melhor para esta tarefa importante de educar crianças e adolescentes nas escolas católicas e públicas

A maioria dos educadores que aderiu à AEC era das escolas públicas, com alguns professores das escolas católicas. Elegemos uma coordenação e foi pedido para mim coordenar o grupo. Os encontros de formação foram bem aceitos, conseguimos levar este trabalho para a zona rural e para outras cidades da região. Organizamos um Seminário que atingiu muitos lugares do Baixo Amazonas. Queríamos a presença do Dom Helder Câmara para ser o palestrante principal e dar uma conotação séria de Opção Preferencial Pelos Pobres para o evento.

Na época, como parte do trabalho com os seminaristas do Tiagão, eu precisava viajar para visitar os seminaristas diocesanos que estavam fazendo curso no seminário em Fortaleza. Aproveitei a viagem para dar um pulo em Recife e conversar com Dom Helder sobre a possibilidade de estar na nossa Assembleia, fazendo a abertura, para chamar a atenção da importância da mesma. Quando cheguei no local onde Dom Helder atendia as pessoas encontrei uma fila grande cheio de pobres e alguns bem vestidos, e entrei na fila para poder ser atendido quando chegava a minha vez.  O atendimento era de acordo com a sua chegada, pobres e outros com o mesmo direito.

O Dom Helder não pôde atender o nosso pedido, mas mandou uma benção para os educadores participantes. Dom Helder aproveitou a nossa conversa para renovar a sua prática de conversação em inglês.

Em 1982, Dom Tiago me pediu para iniciar um trabalho com os meninos que engraxavam sapatos na Praça da Matriz. No primeiro contato com os doze engraxates eles acharam tão bom este interesse da parte da Diocese no bem estar deles e pediram para manter o contato. Com um grupo de professores da AEC e, mais tarde, mais alguns educadores da Catequese Escolar, começamos a fazer reuniões com os meninos nos dias de sábado, na Praça da Matriz. Assim foram os primeiros passos do trabalho que hoje é conhecido como a Pastoral do Menor (PAMEN). O grupo cresceu rápido, com a adesão de outras categorias de meninos e dos trabalhadores de rua. Depois o Pe. Valdir Serra cedeu o Salão Paroquial da Matriz para a realização das reuniões.

O trabalho principal no início foi com os meninos em situação de risco. Mas sempre encontrávamos famílias com filhas na mesma situação, irmãs dos meninos da PAMEN, outras que estavam sendo levadas para os Garimpos, e outras sendo violentadas na cidade e, muitas vezes, dentro da própria família.

Descobrimos o fenômeno da “Violência Silenciada” contra meninas. Um exemplo disso foi quando dois irmãos estupraram uma menina da PAMEN de 14 anos dentro da loja da família. Ela foi a última atendida antes de fechar a loja para o almoço. Enquanto um deles atendia ela na compra dela o irmão dele trancou a porta com ela dentro, a mercê das suas más intenções. Ela foi estuprada, usada e despedida depois. Essa menina era filha da nossa cozinheira quando morávamos no Bairro de Esperança e participava na PAMEN. A menina foi ameaçada de morte se abrisse a boca e estava com muito medo. A mãe, abandonada pelo marido, notava uma mudança nela e, depois de muita insistência conseguiu uma confissão da filha. Irmão Leonardo e eu ajudamos a mãe a denunciar o fato e acompanhamos o desenrolar do processo junto com o Advogado da Diocese, Dr. Carlos Rebelo.

A Juíza encarregada da Vara da Infância e Adolescência assumiu o caso e, depois de um processo longo, mandou a prisão preventiva deles. O processo  demorou mas a Juíza estava trabalhando a finco para terminar o  processo  e dá a sentença para os agressores. Com a “promoção” desta Juíza, encarregada do caso, para Belém, uma outra Juíza assumiu o processo.  Com esta Juíza notamos um aparente desinteresse no caso, e, depois de algum tempo,  o  processo parou, e os dois foram liberados.

Com a coleta da Campanha da Fraternidade de 1987: “Quem Acolhe o Menor, a Mim Acolhe”, foi comprado um terreno para a PAMEN. O Irmão Ernesto Turk, CSC, ajudou na divisão do terreno de acordo com ao nosso atendimento.  Assim tivemos mais condições de acompanhar os meninos. O Irmão Ricardo Burgie foi o primeiro voluntário da PAMEN, ensinando os meninos a confeccionarem aviões e fazerem figuras em preparação para iniciar o curso de serigrafia.

 Nessa mesma época, junto com a diretora da FEBESP, formamos o Fórum dos Direitos da Criança e do Adolescente. Conseguimos a adesão de umas vinte entidades para promover o bem estar da criança e do adolescente, principalmente àqueles que estavam em situação de rua. Uma ação deste Fórum foi trabalhar para a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que foi promulgado em 13 de julho de 1990.

 A partir do ECA trabalhamos para a formação do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (COMDCA), que aconteceu logo em seguida. Eu fiz parte da primeira diretoria do COMDCA, como vice- presidente, e, logo em seguida. como presidente, por dois mandatos. Conseguimos formar o Conselho Tutelar para tratar dos problemas concretos das crianças e dos adolescentes, principalmente as que estavam em conflito com a Lei. Também conseguimos um lugar separado dos presos adultos, para os meninos e meninas detidos por estarem em conflitos com a Lei.

 Em 1990 recebi o título de “Cidadão de Santarém” e, alguns anos depois, o título de “Cidadão do Pará”, pelo trabalho desenvolvido na PAMEN.  Com estes títulos me senti cada vez mais brasileiro.

 Nesse mesmo ano visitei o Garimpo Cuiú-Cuiú para ver de perto a situação das meninas que viviam na prostituição. (No ano anterior uma menina da PAMEN foi sequestrada e levada para o Garimpo Novo Progresso, conseguimos o seu resgate através da Polícia Militar.)

 No Garimpo Cuiu-Cuiu tive a oportunidade de entrevistar nove meninas prostitutas. Contei, no mínimo, 60 boates nesta pequena vila, com pelo menos três meninas em cada boate. Mais tarde, em reação ao escândalo internacional devido ao tráfego de meninas menores para os garimpos no Brasil, houve uma intervenção da Polícia Federal nesse mesmo garimpo e 40 meninas e senhoras foram resgatadas. Cinco menores foram deixadas na PAMEN para serem “recuperadas”. Fizemos um grande esforço para recuperá-las, mas, com o tempo, todas voltaram para o garimpo. Foi uma lição confirmando: Prevenir é melhor do que Remediar.

 Cada nova experiência nos ensinava a desenvolver um programa melhor para trabalhar com meninos e meninas em situação de risco. No início, trabalhávamos com meninos e meninas de rua, a maioria destes já com costumes ruins enraizados. Com os mesmos recursos humanos e financeiros disponíveis, achamos melhor trabalhar com mais gente, para preveni-los em vez de tentar resgatá-los. As experiências negativas nos mostraram que o resgate é um trabalho muito mais difícil, mais dispendioso e com poucos resultados positivos permanentes..

 Com a intuito de PREVENIR meninos e meninas, partimos para um trabalho de Educação Integral na Fé para Prevenir, seguindo a filosofia do Padre Basílio Moreau, educador e fundador da Congregação de Santa Cruz. Para não caírem numa vida de costumes ruins, já com hábitos enraizados, queríamos oferecer um ambiente de crescimento como pessoa humana e filhos e filhas de Deus, criados na Sua Imagem e Semelhança, num ambiente de aprendizagem, de relacionamento, cuidado e respeito, preparando seres humanos para serem agentes capazes de promover relacionamentos humanos melhores.

Com este novo rumo de prevenção continuamos recebendo meninos e meninas em situação de risco, e notamos que estes, com o contato com meninos e meninas vivendo uma vida com um projeto para ser realizado, os de risco começaram de fazer amizades com eles e começaram de mudar para o melhor.  Até hoje o procedimento na PAMEN continue assim.  Assim, atendemos os de risco também mas num ambiente de incentivo de mudar o seu estilo de vida pelo exemplo dos menores focados num projeto de vida construtivo.

Em 2010 tínhamos formados 14 Núcleos nas redondezas do Município de Santarém. No Centro atendíamos 1.180 crianças e adolescentes, mais 1.200 nos Núcleos e 1.500 famílias. O programa de Educação Integral Na Fé para Prevenir, tem prevenido centenas de crianças e adolescentes ao longo desses 35 anos de trabalho. Tem inspirado a esperança nas suas famílias para perseverarem com Fé na caminhada, enfrentando os desafios (cruzes) com coragem e, assim, aprender transformar cruzes em vida, amadurecendo como pessoa humana, filho e filha de Deus.

Durante o ano de 2010 participei da Campanha Combate Às Drogas, desenvolvida como programa piloto em cinco escolas públicas. Devido a minha experiência de trabalhar nas escolas públicas com as aulas de OPV, fui indicado para montar um esquema para ser trabalhado com um grupo de voluntários, nos últimos meses do ano 2010. Repercutiu muito bem nas escolas, e outras escolas pediram para desenvolverem este mesmo programa de Prevenção com os seus alunos, em 2011.

Não resta dúvida que o trabalho educacional desenvolvido pelo Pe. Moreau na sua época, ainda pode ser aplicado no mundo atual: Educação Integral Na Fé. Tentei colocar esta filosofia de educação em prática, tanto na educação formal na sala de aula, como na educação informal fora da sala de aula. As situações são diferentes, com dinâmicas pedagógicas diferentes, mas com a mesma filosofia de educação integral. Isso tem dado resultados positivos em preparar pessoas para enfrentarem os desafios da realidade de hoje. A convivência com a humanidade, perseverando na caminhada com Fé em Deus, nos traz a Esperança de que é possível alcançar uma mudança no ambiente educacional. Vimos crianças e adolescentes, sem esperança e ânimo de viver, descobrindo a sua personalidade única e rica, animadas para ajudar a cultivar um bom ambiente e evitar o mal. Em sintonia com a metodologia do Pe. Basílio Moreau, educar seria conduzir os outros para serem pessoas de bom relacionamento, consigo e com o outro, com a criação e com o Criador.
Irmão Ronaldo David Hein, CSC

Obs: Texto retirado do Livro do autor Pastoral do Menor, com a sua autorização.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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