Eles estão em todas as partes. Acordam cedo para lutar pelo pão. Perambulam em todas as direções. Nas mãos trazem mercadorias, as mais variadas possíveis. São bons de papo, usam da persuasão para convencer os clientes, fazendo promessas que seus produtos são os melhores. Outros são transeuntes sem rumo e sem teto. Apenas caminham, pois sabem que não existe um caminho pronto. Todos eles, contudo, têm o sol como companheiro. Pele queimada, rosto enrugado, olhos avermelhados. Já no primeiro contato revelam que são filhos do sol.

O povo do sol são os pobres, agricultores, ambulantes, lavradores, boias-frias, gente sofrida que vive às margens. Prestam serviços aos senhores que estão fechados nos escritórios, gozando do bem-estar do ar-condicionado, do cafezinho de sempre. Estes senhores chiques de terno e gravata giram, em suas cadeiras automáticas, de uma mesa a outra para assinar seus projetos de empreendimento. Mas enquanto isso lá fora…o povo do sol não desiste de viver, apesar da carga pesada que são obrigados a carregar sobre os ombros.

Essa gente sofrida, amparada só pelos raios do sol, tem algo a nos dizer. Sabe que não pode parar, deve reinventar-se a cada dia, pois não conta com nenhuma estabilidade. Para essa raça a vida é como artesanato, pois trata-se de uma construção lenta que necessita ser aprimorada. Diferente das conquistas da modernidade que se apoiavam em conhecimento seguro e sólido, basta ver as certezas científicas e tecnológicas que inauguraram um progresso arrogante e seguro de si mesmo, o povo do sol não dispõe de certezas nem de seguranças. Sabe que o amanhã não está garantido. Cada amanhecer é um desafio a ser abraçado com garra. Assim, se encontra nossa humanidade pós-moderna: sem apoio e sem metarrelatos. Tudo é líquido, poucos valores clássicos sobreviveram, até mesmo a verdade tornou-se coisa do passado. No entanto, o povo do sol, a gente simples e ousada que insiste em viver, ainda cultiva uma sabedoria límpida e pura, que nada e ninguém podem lhe roubar: Deus está no comando, vale a pena continuar.

Nas culturas antigas, sobretudo no universo egípcio, Rá é o Deus do sol que irradia luz sobre o cultivo dos alimentos. A luz de Rá era benfazeja e próspera. No mundo Cristão, o sol do oriente veio nos visitar num corpo frágil de uma criança que encarna a presença terna e poderosa de Deus em nosso meio. As águias voam alto em busca da luz do sol que alimenta seus olhos e as lança no infinito. O povo do sol não se deixa deprimir pelas circunstâncias pesadas da vida e dos sistemas que pretendem bloquear os projetos pessoais, pois se trata de um povo sempre em saída que encontra um sentido maior, custe o que custar.

Esta sabedoria não a encontramos em livros nem nas universidades, ela está no rosto das pessoas vividas e nas mãos que trabalham para ter o necessário. Não podem acumular, pois se preocupam com o pão de hoje. Nós, filhos da sociedade do desempenho, pouco entendemos o estilo de vida do povo do sol. Estamos embriagados com as promessas do neoliberalismo. Perdidos no labirinto do consumo e da competição, gastamos nosso tempo com ações empreendedoras que querem nos convencer de um messianismo estéril e vão. Mas o povo do sol, a gente simples que caminha na via paralela dos grandes deste mundo, desfruta os momentos que valem a pena: uma boa conversa, um encontro de amigos, uma pequena ajuda a um e a outro irmão mais necessitado e assim por diante. Parece que descobrem que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena” (Fernando Pessoa).

“Mas ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom” (1 Ts 5,21). E você, como encara a vida? Olhe para o alto e junte-se ao povo do sol!  (São Paulo/SP, 24 de outubro de 2020)

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. É mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) – Roma.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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