[email protected]
http://ronaldo.teixeira.zip.net/
http://lounge.obviousmag.org/espantalho_lirico/

(para Murilo Mendes – 1901-1975)

Ele trouxe (e manteve)
o olho precoce para os dois mundos:
o visível e o invisível.
O olho de menino antigo.

E ficou largo
de uma mitologia infantil:
prosas e versos
harmonizadores dos contrários
e rompedores da inércia
e do convencionalismo.
E assim construiu a sua metáfora
da criação do mundo.

No início,
entre o dia e a noite,
foi o fogo subindo
no seu pequeno corpo,
com a sentada de Lili
nos seus joelhos.

Começava ali
a captar notícias de Eros,
envolto no ar sonso do mundo.

Depois,
o aprendizado
de todos os nomes do demônio,
crismado de admiração,
terror e espanto pelo Príncipe das Trevas.
acreditando, primeiramente,
na idéia desordenadora do demo
e, só depois,
na idéia ordenadora de Deus.

Em seguida,
Analu e o primeiro beijo
com gosto de bergamota.

Lendo a insaciedade do mundo,
cedo aprendeu que a fome
será sempre analfabeta,
mesmo sabendo ler.

No embate com as religiões,
viu que o desafio delas
é tornar atraente a virtude,
para que esta não se revista
da mais profunda chatice.

Questionando sempre
o destino dos chatos,
e indagando onde Deus
os guardaria.

Porque já estava cheio
das rezas e das beatas,
acossando-as a cuidarem
de suas casas, maridos e filhos,
para ele a melhor receita
de assistência humana.

Bradou que a fé
nunca traz descanso,
mas inquietude.
E que o destino dela
é nos ultrapassar.

Dos loucos,
(que existem no mundo
para chamar o povo à razão,
como disse outro poeta)
acenou que a loucura
só existe nos pobres,
os doidos,
os doidos varridos,
os esquizofrênicos,
os desequilibrados,
os piscas,
os zuretas,
os tantãs,
os tontos,
os dementes,
os alienados,
os psicopatas
e os alterados das faculdades mentais.
Pois que, aos ricos,
só sobrou uma leve alcunha:
são apenas nervosos.

Cortejava os equilibristas dos limites
entre a “seriedade” e a mistificação,
parâmetros flutuantes e alimentadores
de monstros sagrados da literatura mundial.

Quanto às adversidades da vida,
afirmava que ou o nosso anjo da guarda
é um velho cúmplice ou dorme demais.

Mas não transferia para Deus,
seus pequenos casos ou interrogações.
Porque detestava
que o senhor dos altos céus
fosse visto sempre
como um cabide interminável.

Sobre o Amor e o seu inverso,
a Morte, descobriu que todo homem
tem sua eva, sua fênix e sua górgone.

Porque desde a morte
do seu primeiro ser amado,
ele nunca soube se a perdera
ou se a ganhara para sempre.

Num período de ensimesmamento,
(será que saiu dele?)
achava que o passado
era uma projeção anterior do futuro.

Chegou a assinar decretos
exilando o prefeito, o vigário e o juiz,
transferindo-se até de planeta,
tão pertubável se encontrava,
mais que pertubador.

Jovem,
destruiu milhares de fragmentos
de eternidade,
na masturbação anuladora
da posteridade de Adão.
Seguiu disparando
contra seus avós,
mesmo a soma do prazer
sendo diminuída pela do terror.

Pensava
que o castigo do homem
era ser despassarinhado.
Pois, no seu sonho de Ícaro,
se sentia humilhado até
pelas moscas e os besouros.

Dizia que a eternidade
é uma cobra que a gente
nunca vê o rabo.
E que o fantástico poderia ser percebido
(mas não visto)
no traspassar da vigília ao sono,
absurdo esse, afora outros,
que salvam o homem.

Dava graças aos céus
pela existência das mulheres feias
e das sem quaisquer graça,
pois acreditava que os homens
não poderiam respirar
se houvessem apenas as bonitas
e as cheias de charme.

Afirmou que o homem
é um animal reincidente no erro
e que a sua salvação
é nutrir-se de metáforas,
porque sempre rodeado
de signos, intersignos, alusões,
mitos e alegorias.

Ilustrando que,
segundo Voltaire,
depois do primeiro poeta
ter comparado a mulher a uma flor,
os que tentam repeti-lo
são todos imbecis.

Cético,
desconfiava que o homem
fora criado à dessemelhança de Deus,
depois de intuir que,
utilizando-se das distorsões
das palavras de Deus e do homem,
os indivíduos, via instituições ou entidades,
procuram sempre asfixiar no outro
as suas originalidade e genialidade,
por meio dos mais variados tipos de tortura.

Percebeu que a realidade
anda sempre com a sua irmã gêmea:
a ilusão, geradoras de formas
e situações múltiplas.

Seguiu,
bocagianamente,
odioamando as mulheres,
mesmo desconfiando que,
todos nós, homens,
um dia teremos que comparecer
ao Tribunal de Vênus.

E que o maravilhoso,
além da metáfora,
está no imediato,
porque só assim podemos manter
o olho armado para ver e rever
coisas, bichos e gente
e transfigurá-los.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços

ExposiçãoDesenhos

Série "Natureza"

Série Natureza

DeJanelaEmJanela

DeCostas

Série "Detalhes"

Série "MoradaImprovisada"

Série Morada Improvisada

Finados

Tratando de peixe

Série Flores

Série Flores

Esporte na Colônia

Série Natureza 01

Série Natureza 05

Caxambu

Caxambu

Caxambu - 02

Caxambu - 01

Penumbra...

Aglomeração...

Portão florido...

Barra Palace

Conjunto Harmonioso...

Reunião privada...

Espaços ocupados...

Arquitetura Perfeita...

Convergência II

Convergência I