Nem sempre nossa experiência de fé tem a ver com o Deus que Jesus de Nazaré revelou. A civilização ocidental possui forte tendência para o rigorismo e a observância de leis. O modo pelo qual a sociedade educa as pessoas, acaba gerando uma visão maniqueísta da realidade, separando bons e maus. A linguagem torna-se condicionado entre “correto” e “incorreto”, criando-se olhares de suspeitas, o que compromete a convivência fraterna. Consequentemente, é difícil a liberdade interior desabrochar perante as leis. Uma consciência bem formada, contudo, consegue integrar vida e ética como imperativo categórico. Por isso, nossa convivência deveria ser marcada pelo respeito e cuidado com todos, sem necessitar de um código legislativo de repressão.

Todo o acervo de leis e repressão de nossos atos, origina a ideia de um deus justiceiro, que pune e castiga. A própria educação que algumas crianças recebem constata isso. Se a criança, mesmo brincando, faz algo que não agrada aos pais, imediatamente ela ouve: “não pode fazer isso, pois Deus castiga. Papai do céu está vendo tudo. Ele fica triste com você.” Às vezes não se mede o grau dessas afirmações, mas parece que geram indivíduos medrosos, distanciando-os de uma relação filial com Deus. Se a educação não consegue ser dialógica e convencer pelo testemunho e pela ternura, então sempre teremos dentro de nós grandes opressores da nossa consciência.

Jesus teve uma postura diferente diante da lei. Ele não foi contra, mas demonstrou seus limites e, ao confrontá-la com o valor imensurável da vida, deixou claro que existimos para a liberdade e não para as submissões humanas. Nenhum homem deve escravizar outro semelhante com a criação de códigos legais. Nos evangelhos, a ideia de Deus gira em torno do amor, e não da justiça legalista (dar a cada um aquilo que lhe convém). A ideia do Deus amor ultrapassa o rigorismo da lei, por isso o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Já a ideia que fomenta um deus justiceiro, não coloca o ser humano como alguém que necessita da nossa compaixão. Neste sentido, Jesus testemunha que a mesma intensidade do amor a Deus é a mesma do amor ao próximo.

As religiões pagãs adoravam apenas a seus deuses, muitas vezes cometiam crimes horríveis contra o próximo. O que devemos evitar é uma relação exclusivamente vertical com Deus. O cristianismo sempre considera o próximo, ama-o da mesma forma que ama a Deus. Exatamente por isso, precisamos evitar uma relação meramente intimista. A experiência do Deus Amor permite Deus ser próximo e companheiro dos homens, entra na sua história e a redime. Quando esquecemos do Deus Amor, caímos na barbárie. Seria o mesmo que uma ética sem metafísica.

Não esqueçamos do Deus Amor, pois é isso que impede ao tribunal de nossas ideias de gerar falsas noções divinas, sempre distantes da Revelação. Só assim veremos que é possível construir uma civilização da liberdade que supera todo medo; da igualdade que vence todo ato que pretende ser superior aos demais e da fraternidade que convida todos a repartirem o mesmo pão e a própria vida em favor do próximo. Por acaso não é isso que deveríamos descobrir nestes tempos de intolerância?(Camaragibe/PE, 31 de agosto de 2020)

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. É mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) – Roma.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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