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Sob o sol escaldante cada gota de suor escorre como o juro do agiota.

Mesmo em severas condições Leogácia juntava seu dinheirinho, um pouquinho aqui, outro tantinho ali, nota em cima de nota os recursos iam crescendo. Não demorou muito para Leogácia começar a emprestar a juros. Aquilo era melhor do que sexo! Ver seu dinheirinho render acima das taxas de mercado era o paraíso.

Pobre de quem precisasse deste dinheiro, e sempre tem alguém que precisa. Iria pagar quase o dobro, senão o dobro do que pegou, isso variava de acordo com o desespero de quem precisava. A taxa aumentava conforme o tamanho da necessidade vista nos olhos do solicitante. Pensar em não pagar? As portas do inferno se abririam em pragas maldições e uma interminável e certa seqüência de cobranças.

De namoro recente com Jaconildo ela já havia percebido que dinheiro, não iria arrancar dele, mas as barracas do feirante cintilavam em seus olhos astutos. Valia à pena casar, quem sabe ele morre antes, e assim ela herda o patrimônio. O amor é lindo! Casaram-se na igreja, com direito a álbum de fotografia e tudo, belo investimento! Pensava ela.

Jaconildo de sua parte via a vantagem de morar sem pagar nada na casa de Leogácia. Ele que possuía uma casinha em um bairro mais distante, agora estaria mais próximo da feira. Sem contar que a casa de Leogácia era mais confortável. Aqui ele poderia ir de bicicleta para o trabalho e assim economizar mais algum dinheiro. Estaria também mais distante de seus filhos, que teriam mais trabalho para procurá-lo para pedir ajuda.

Comerciante especialista em tirar vantagem dos outros, vivia fazendo negócios vantajosos quando aparecia algum desesperado vendendo a alma na bacia. Neste caso esfolava o sujeito oferecendo uma migalha pelo que foi oferecido, sem piedade, e como abutre que seca as asas ao sol após o repasto, ele; arfava em regozijo pelo feito.

Para negócios não vantajosos ele sempre dizia “nada disso”, a expressão era sua marca registrada. Jogo duro com os recursos, dor? Pra que remédio, nada disso; ela veio, ela vai embora. Prazer de vez em quando com galos de briga, mas não para apostar e sim para comprar e vender os bichos, era uma oportunidade de lucro.

Agora com um lance de mestre, achava ele, havia casado com uma viúva com bons recursos, com uma razoável pensão, casa própria, tinha até uma casinha na praia, com sorte isso um dia seria dele. A primeira mulher ele já praticamente havia matado a míngua, essa agora não teria fim diferente. Determinação; a sua marca.

No calor do Norte Fluminense a fome estava junto à vontade de comer. O sal da pele aqui curtia mais fundo, numa sociedade empobrecida por anos de exploração canavieira, o ser humano aqui havia aprendido a valorizar cada migalha que era encontrada pelo caminho. A secura da vida com ínfimos recursos deram a esta gente atributos infinitos na arte da sobrevivência.

Sendo assim, ele que iniciou o trabalho desde menino agora era doutor na arte da persuasão. Com seu jeito paciente dobrava qualquer dificuldade e para tirá-lo do equilíbrio só com catástrofe. Para levar vantagem, se fosse preciso à eternidade seria só um momento. Claro que com as vantagens do casamento, e os truques do comércio, passou a emprestar a juros. Dinheiro que dá cria é mais gostoso!

Leogácia e Jaconildo dois especialistas em tirar leite de pedra. Unidos por uma incontrolável paixão; o dinheiro. Habitantes de uma região pobre e sem perspectiva, nem o petróleo mudou muita coisa nesta região, muitas usinas falidas, as poucas que restaram, como sempre pagam mal e ainda atrasam salários. A falta de investimentos deixa a planície com o aspecto que sempre teve. Quente, empoeirada e pobre.

Aqui meus caros; para se dar bem só sendo político ou tendo a fibra de Leogácia e Jaconildo, se é que nos dois casos pode-se chamar isso de fibra ou desvio de caráter. Não deve ser muito diferente de tantos recantos neste nosso país, que é de um jeito na imprensa e de outro, muito mais sombrio na realidade. Compromisso de político aqui meus amigos tem a consistência da fumaça. Primeiro enche o ambiente e fede, depois some, para reaparecer quatro anos depois.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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