resomar 1 de outubro de 2020

Contida nos passos e nas palavras, nem sempre se revelava, talvez por prudência, timidez…
Importava simplesmente o desnudar-se diante da sombria espera, onde todas as fronteiras opacas se diluiriam pela ousadia do enfrentamento, onde arriscaria perder o colorido da primavera em troca de sua essência rebelde…
… e o grito de dor dos oprimidos a sufocava em circunstâncias diversas…

Lembro-me da poeira impregnada no olhar, da inconsolável solidão a invadir inquieta madrugada, da amargura cambaleando, torcendo-se silenciosamente para não espantar os embriagados desnorteados…
Lembro-me quando caí na calçada enlameada e minha boca ensanguentada não conseguia articular sensatez…
Tentei correr atrás da sombra que me perseguia esquecendo de quanto estava frágil…
Eu me sentia alheia e amarga…

Buscava tua mão no desabrochar da luz em céu aberto e exausta, o corpo tombava…
Inquieta, o pensamento não se atrevia a murmurar o inexplicável, e na incerteza de tua chegada, a ternura me carregava em sonhos…
Urgente cicatrizar os desencantos!
Urgente esquecer a plenitude vivida…

A melodia do amor ecoava no coração em todo o percurso e enxugava as lágrimas restituindo a força e a serenidade…
Talvez um dia entendas porque tamanha dor invadiu o discernimento ao ponto de tropeçar temendo rupturas…

Joguei-me ao mar para disfarçar a enigmática dimensão ora vivida, e tua maldita indiferença seguia firme e perfurava a estrada, como vermes infestam o pão…
Já não me ferem teus sentimentos descontrolados…
Já não me espanta a água suja de tuas inquietações…
Em passe de mágica aparecias e tua voz aproximava-se da cicatriz ainda aberta, rasgava todas as janelas enferrujadas da casa… e o vazio paralisado convertia-se em lamento, e os pés se enraizavam na terra rachada e molhada…
Tudo havia fugido como fumaça apodrecida a embaçar todos os vidros…
Escutava a sonoridade dos teus sussurros, e tentava balbuciar um pouco do nada febril vivido…
Continuava aprisionada às escolhas…
Cada opção nos possuía ao embaralhar instantes…

Existir requer um alto preço e basta estarmos em uma tempestade para constatarmos tal realidade.
É necessário bem mais do que motivação ou argumentos teóricos…
Somente a sabedoria calará a controvérsia das palavras e a aspereza de sensações (in)visíveis.

“Explicar o afeto é o delírio da razão”, e assim nossas cicatrizes continuam vivas em cada mergulho da caminhada, não para retroceder, mas para manter-se acordada…
A tua existência me impregna de ternura e um estranho sentimento me faz prosseguir como “oposição” aos meus contrários…

Somos tremendamente vulneráveis diante da desafiadora verdade sobre a tênue condição humana…
Tentarei fincar minhas garras no jardim enfurecido e celebrarei o meu trêmulo renascimento emergindo como um lindo pássaro às estrelas que nos aquecem ao brindar o teu colo no inesperado reencontro…
Na travessia, o sentimento supera a razão e atropela tensões…

… no mormaço de nossas mãos (entre)laçadas sussurro emoções e amargas saudades…
21.07.2018 – 11.12h

Obs: Imagem enviada pela autora (retirada de Pixabay)
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Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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