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Neste sete de setembro, calmo por causa da pandemia, que não permitiu os desfiles e bandas militares e de colégios nas ruas, fui caminhar de novo na orla de Santarém, às margens do Tapajós, que um dia já foi azul…

Pouca gente no início da caminhada, pelas cinco da tarde, ainda bastante quente aqui onde o sol se põe entre dezoito e trinta e dezenove horas! Fomos colocados no mesmo fuso horário de Belém e Brasília, quando estamos há cerca de mil quilômetros para o Oeste, mais próximos de Manaus.

De novo, chamou-me a atenção o lixo que vai aparecendo, enquanto as águas do rio vão refluindo, baixando aos poucos, como acontece neste tempo do ano. Muito lixo acumulado nas áreas das margens, em pontos onde a praia é um pouco mais alta. O mesmo lixo que estava ali há alguns dias continua no mesmo lugar, indiferente a quem passa na orla ou a quem embarca nas canoas e barcos que ancoram por ali.

Uma única diferença neste dia da Pátria foi que um pequeno bando de urubus estava por ali, limpando a praia pelo menos do lixo mais fétido, os resíduos orgânicos. Estes “trabalhadores”, que não exigem salários, nem direitos trabalhistas, mas apenas a liberdade para catarem a parte do lixo que lhes interessa… E eles trabalham bem! Não deixam as carcaças de peixes ou outros resíduos orgânicos lançados ali pelos racionais pensantes, que têm uma massa cinzenta um tanto mais volumosa dentro do crânio. A inteligência e a racionalidade são cada vez mais irrelevantes e, talvez, mais precárias!

Além do lixo produzido pela humanidade no seu mais alto grau de evolução e desenvolvimento tecnológico-científico, podemos acrescentar outras maravilhas desta civilização: a terra revirada e degradada pela mineração, o uso de elementos contaminantes perigosos para a saúde humana e para todas as formas de vida, a destruição da biodiversidade, com as queimadas criminosas e em grande escala, a devastação das florestas, com a retirada da madeira e o abate das árvores que levaram dezenas de anos e até séculos para crescer e chegar às dimensões atuais, a pesca predatória, que acaba com todas as espécies de peixes e animais aquáticos, a exploração impiedosa dos semelhantes, mantidos em condições análogas ou mesmo caracterizadas como escravidão….  O lixo é apenas um dos sintomas de uma cadeia de ações predatórias que está levando o planeta à exaustão e, em poucas décadas, a um colapso total, que colocará em risco, se não selar mesmo o fim, da vida da humanidade.  Infelizmente, o predador mais feroz do planeta não se contenta em caminhar como gado para a morte: mata primeiro a vida em sua diversidade – biodiversidade. Quem se opõe a este processo é cada vez mais considerado como louco ou, no mínimo, como ingênuo.

Ainda neste sete de setembro, quando voltava para casa, andei olhando para os cestos de plástico, inúteis, presos a alguns postes. Alguns vazios e muitos já arrebentados pelos predadores, que hoje são comumente chamados (talvez com injustiça àquele povo que tinha este nome) de “vândalos”. Além de ver muitas garrafas de plástico, latinhas de alumínios, sacos plásticos, etc. jogados por aí, vi também pelo menos uma máscara descartável na calçada. Por coincidência, encontrei dois trabalhadores da limpeza pública – dois garis. Um na frente, juntando o lixo espalhado pelo chão, o outro arrastando um enorme balde (me falta o nome apropriado) com rodinhas para ficar mais fácil de puxar, sem sentir tanto o peso. Tive uma rápida vontade de fazer uma fotografia com eles, mas passei rápido demais por eles e eles estavam ocupados demais na tarefa inútil de recolher o lixo de tanta gente que não para de produzir sujeira! Os garis passam e deixam tudo mais ou menos limpo. Mas, poucas horas depois, pode passar por lá, que já mais lixo estará espalhado por toda a parte, até o dia seguinte. A limpeza publica se torna um serviço inútil onde a população é mal educada, incivilizada, predadora do meio ambiente.

Seria interessante se houvesse mais do que os urubus para fazer a faxina das áreas das praias do Rio Tapajós, no lado de baixo da orla…  Os poucos garis – em seu trabalho muito digno e importante, embora que para a maioria das pessoas eles sejam invisíveis – não dão conta de manter limpa nem a parte do passeio onde nós, predadores do meio ambiente, fazemos nossas caminhadas, alegremente, aspirando largamente a brisa que sopra da terra para ir, nestas horas de calor. Andamos despreocupadamente, vivendo avidamente o presente, como  quem não pensa no amanhã. Mas afinal, a quem pertence o amanhã? Tanto faz como tanto fez, diz o ditado popular que expressa a indiferença.

Viva a Pátria Brasileira, queimando em dez por cento do Pantanal! Viva a Pátria Brasileira, com a devastação florestal da Amazon Rain Forest também em acelerado processo de incineração! Porque a vida é agora!  07/09/2020

Obs:Fotos do autor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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