Ao voltar de um longo período de estudos na Inglaterra, na década de 90 do século passado, preocupado com a “submissão intelectual” que grassava em todo o sistema educacional brasileiro (e que, apesar de alguma melhora, continua presente), inclusive na pós-graduação stricto sensu, uma das maiores chagas de nossa sociedade, resolvi criar um instrumento educativo, que fosse simples, mas eficiente para dar escala e popularizar o espírito, a atitude científica e os principais pilares epistemológicos que devem nortear a formação de um pesquisador (cientista) ou de um empreendedor, com consciência cidadã e responsabilidade social, estimulando atitudes proativas à inovação, à produção do conhecimento e ao empreendedorismo do povo brasileiro. O resultado foi uma regra, que batizei com o nome de “Regra dos 10 Cs”, uma ferramenta mnemônica, para ajudar na memorização de dez características ou atitudes que, em minha opinião, são fundamentais e imprescindíveis para atingir os objetivos expressos anteriormente e que começam com a letra C. São elas: competência, curiosidade, ceticismo, criticidade (ou criticismo), criatividade, confiança, coragem, construtividade, coerência e compromisso. A Competência se refere a fazer bem feito, seja lá o que for. Isto é, fazer o melhor do estado da arte de qualquer área do conhecimento, ou atividade humana, que pode ser incrementado por habilidades técnico-científicas específicas que possam vir ajudar a atingir o objetivo desejado ou a tarefa a ser cumprida. Curiosidade, como sendo o continuo desejo de ver, saber e desvendar os segredos da natureza e da realidade, pois como nos lembra Aristóteles todos os homens desejam saber. É querer aprender sempre. Com tudo, com todos, o tempo todo, instigado (e instigando) pelo gosto do “novo” e pelo aprendizado contínuo. Ceticismo que, sendo a “Alma da Ciência”, é a valorização da dúvida como “instrumento” na busca da “verdade científica provisória”. É uma atitude, uma predisposição, para duvidar, respeitosa e tolerantemente, de tudo e de todos, não acreditando em tudo o que está escrito, ou é dito e ensinado. É relevante frisar, reforçando a importância dessa atitude, que a Ciência não permite dogmas nem combina com coerção de qualquer forma ou origem. A ausência de questionamentos, discordâncias, dúvidas, críticas e debates, não é Ciência. É doutrinação, é fanatismo, é cientificismo. Como dizia o grande Cícero (escritor, orador e filósofo Romano), no século I a.C, no seu “De Officiis”, “dubitando ad veritatem pervenimus” (duvidando chegamos à verdade). É ter em conta que “nem tudo que é questionado pode ser modificado e melhorado, mas nada será modificado e melhorado até que se questione” (James Baldwin). No linguajar popular é ter seu “desconfiômetro” ligado o tempo todo. No “cientificês” é não se descuidar da “vigilância epistêmica”, deixando de lado a ingenuidade de acreditar em tudo que lê, ouve e “aprende”, pois ninguém é neutro e os “conflitos de interesse” frequentemente estão presentes em tudo, existindo uma chance, não diminuta, de sermos (ou estarmos) enganados, intencionalmente ou não. Críticismo ou criticidade, é uma outra preocupação que deve ser constante em relação a tudo aquilo que se ouve, lê ou é ensinado. É a atitude de constante e independente discernimento, juízo e julgamento, realizando uma análise crítica e racional, de tudo o que nos é “oferecido”. O ceticismo indica que você precisa exigir a “prova”. Já o criticismo sugere, fortemente, que você analise a qualidade da “prova”. Análise essa que será tão efetiva quanto a sua “competência”. Na Ciência, devemos seguir a visão de Thomas Kuhn, um dos grandes filósofos da mesma, de que uma aparente verdade científica (que é sempre provisória) só merece ser assim considerada se conseguir resistir ao questionamento contínuo da própria comunidade científica. Isto é, “estar verdade” ao invés de “ser verdade”. As informações científicas podem ser tão competentemente manipuladas que até existe um livro famoso, de Darrell Huff, chamado “Como Mentir com Estatísticas” que, aliás, recomendo. Aqui também vale lembrar Benjamim Disraeli que afirmava que existiam três tipos de mentiras: mentiras, mentiras terríveis e as estatísticas. Independente de uma possível má fé, produzir conhecimento de qualidade não é uma tarefa trivial e é realizada por seres humanos, que como dizia Rui Barbosa, “são erros a procura da verdade”. Portanto, a investigação sobre a qualidade do que está sendo apresentado é fundamental e imprescindível. Já Criatividade poderia ser considerada como estímulo à inventividade, a inovação, a imaginação e ao uso pleno, e ilimitado, de sua autonomia intelectual, sempre “olhando o mundo, a natureza e a realidade, com seus olhos e pensando com a própria cabeça”. Olhando para além das estrelas, e não apenas para os pés, dando total poder à sua imaginação inventiva, valorizando seu potencial criativo e inovador, lembrando Einstein, que afirmou que a imaginação é mais importante do que conhecimento. Deve-se ter em mente o seguinte conceito de inovação: fazer bem, diferente e melhor, isto é, maior benefício com o menor custo possível, quer de tempo, dinheiro e energia. Confiança, no próprio potencial de contribuir para o novo, no sentido de “segurança emocional subjetiva” e bom conceito de si mesmo, de seu poder, de suas qualidades e de seus dons. Confiança na linha da autoestima (sou capaz, posso e faço!). Confiança de que você pode estar certo e todos errados. Coragem para pensar diferente, quebrar paradigmas e implementar o novo, mesmo sabendo que a sociedade, de uma maneira geral, e a comunidade acadêmica e científica, de maneira específica, é conservadora. Uma característica essencial para o pleno exercício da criatividade é não ter medo de falhar ou estar errado, valendo a pena lembrar Thomas Edison que afirmou: “Não falhei. Apenas descobri 10.000 maneiras que não funcionavam”. É ter intrepidez e ousadia, acompanhada de bom senso, para defender suas opiniões em qualquer contexto. E também para mudar de opinião, estando ciente de que, para tudo e para todos, existe uma curva de aprendizado. Construtividade, neologismo para ser construtivo e proativo na linha do “fazer o que puder, onde estiver, com o quê tiver”. Dá para fazer muita coisa com pouca coisa. Inclusive ganhar prêmio Nobel sem nenhum investimento financeiro. O próprio Einstein é um ótimo exemplo. Não precisou de nenhum laboratório sofisticado e caro para desenvolver suas teorias. Aliás, de nenhum centavo. Trabalhando num escritório de patentes, precisou de leituras, criatividade, confiança, coragem e discussões com um amigo de trabalho (Angelo Besso) e, principalmente com sua esposa (Mileva Maric), para escrever e publicar um trabalho sobre o efeito fotoelétrico e, 17 anos depois, ganhar o prêmio Nobel em virtude do mesmo, assim como para criar a Teoria da Relatividade. Coerência, com o atual paradigma científico, também conhecido como quântico relativista, eco paradigma, paradigma sistêmico, que defende que tudo está ligado com tudo, tudo e todos estão interconectados, tudo é uma grande teia, uma grande rede de inter-relações e interdependência, onde tudo tem a ver com tudo e tudo afeta tudo. Portanto, tudo o que você faz, fala e pensa ou deixa de fazer, falar e pensar, é importante e pode fazer a diferença, tanto no “agora”, local, regional e universal, quanto no próprio futuro.  E, por último, mas não menos importante, Compromisso com o bem comum e com as necessidades de nossa população e de nosso país, e também com as da humanidade e da biosfera. Compromisso de tornar-se um profissional e um cidadão/cidadã consciente de seus direitos e deveres e, portanto, pactuado com a melhoria da qualidade de vida da sociedade onde está inserido. Compromisso de se tornar um ser humano ciente de suas obrigações éticas e bioéticas, particularmente com a Ética da Responsabilidade, pois se tudo está interconectado e interdependente, eu não posso negar que sou responsável por tudo e por todos. Isto é, não posso fugir de minha responsabilidade universal. E, principalmente se você um produtor ou usuário do Conhecimento, acolher com muito caro o Princípio da Precaução que preconiza que, na produção e utilização do conhecimento, todo cuidado é pouco, valendo a pena também recordar que a Bioética surgiu com a preocupação do potencial de maleficência da Biotecnociência para a humanidade e para toda a biosfera. Finalmente, no caso dos atuais e futuros pesquisadores brasileiros, compromisso com uma política de Ciência, Tecnologia e Inovação que ajude o nosso país a se tornar soberano, justo, saudável, fraterno, livre e feliz, onde todos possam ter, e desfrutar, Vida em abundância.

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra), professor da UPE, membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, da Câmara de Bioética do CREMEPE e Coordenador do Curso de Medicina da FCM/UPE. 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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