Dirceu Benincá 15 de setembro de 2020

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Eis que num repente fui assaltado pela necessidade de escrever. E de escrever sobre as razões, o ato e o significado da escrita. Lembro muito bem do tempo em que escrever era tido como uma atividade para iluminados. A primeira vez que me aproximei de um escritor de livro fiz reverência com se fosse um supra-humano. Na minha cabeça, uma pessoa que escrevia e publicava livros merecia um respeito adicional porque carregava em si um dom incomum. Uma habilidade reservada a poucos, ou seja, a quem fosse capaz de se transcender pelas ideias bem formuladas.

Agora as coisas já não são bem assim. Os tempos são outros. Todos escrevem (ou quase todos), sobre muitos temas e muitos o fazem de qualquer jeito. Não que isso não seja um direito, talvez até uma necessidade. Afinal de contas, todos têm o que dizer, mesmo que seja só repetir o que os outros falam, apenas pela necessidade de mostrar que existem. Porém, há escritas que ferem de morte as regras básicas da língua. E mais do que isso: atentam contra o bom senso, o respeito ao diferente e ao divergente. Defendo que todos escrevam como conseguem, mesmo porque, infelizmente, a grande maioria neste país não escreve melhor em função de que o direito à educação mais ampla e de qualidade ainda segue restrito. Defendo também que todos têm o direito de expressão, contanto que aquilo que dizem ou escrevem não agrida a identidade e a dignidade de outrem.

Lembremos que “verba volant, scripta manent” (as palavras voam, os escritos permanecem). Embora hoje se possa “deletar” com facilidade o que se escreve, não esqueçamos que, antes de apagar, outros já podem ter feito “print”. Uma vez lançadas, as palavras vão produzir seu efeito, mesmo que se procure “recolhê-las” ou desdizê-las.  Isso sem falar daquilo que é dito ou escrito sem ser verdade, sendo meia-verdade (que é sempre meia-mentira) ou omissão total da verdade, apenas por conveniência. E, como se diz comumente, uma mentira dita ou escrita muitas vezes passa a parecer uma verdade, mas nunca a será verdadeiramente.

Voltemos à escrita. Essa é uma arte. Ser escritor ou escritora é ser artista. É diferente de ser escrevente, plagiante, copiante e colante. Escrever é um exercício que exige paciência, ambiente e concentração. Também requer muito trabalho e alguma inspiração. Textos que precisam ser escritos por alguma determinação externa ou mesmo interna, muitas vezes nascem como que em parto revestido de muita dor. Outros textos exigem de quem escreve que largue o que está fazendo e corra para dar-lhe vazão porque, do contrário, nascem “dentro da ambulância”. Aí é mais prazeroso do que doloroso. Escrever é, assim, algo meio sem lógica. Mas, escrever é um exercício de dar lógica às ideias, em qualquer estilo de escrita que seja.

Dizem que Deus escreve reto por linhas tortas. E muitos há que entendem isso lendo as Escrituras Sagradas, mesmo que essas palavras não estejam literalmente em qualquer de suas páginas. Daí que, se escrever é uma arte nobre (quase divina) no rol das linguagens, interpretar o que está escrito é irmã gêmea desta arte primeira. Escrever não é só pôr no papel e nas telas em sentido amplo, mas também inscrever na alma e na mente, no coração e na razão de quem escreve e de quem lê e interpreta. Portanto, trata-se de um ato que pode ser criador ou destruidor. Escrever, ler e interpretar são ações ambivalentes. Daí a responsabilidade de quem escreve ou fala, pois, como ensina o velho provérbio: “palavras ditas não voltam”.

Escrever quase sempre implica um ato posterior, ou até simultâneo, consubstanciado no ato de publicar, mesmo que seja para uma única pessoa ler. Dificilmente escrevemos para nós próprios e guardamos a “sete chaves”. Na publicação está a razão e o prazer de escrever. Escreve-se para publicar. E mais, para que alguém leia. Se gostarem e elogiarem, é ainda melhor. Que triste quando ninguém lê ou, mesmo lendo, não “curte”. Mas, a curtição depende do sentido ou não do que se escreve para quem lê. Vale aqui lembrar o que outrora escreveu Bertolt Brecht: “Um homem que tenha algo a dizer e não encontre ouvintes está em má situação. Mas, estão em pior situação ainda os ouvintes que não encontrem quem tenha algo a dizer-lhes”.

Sobre o que formulamos e a maneira como o fazemos retratam nossa identidade cultural e epistêmica. O que escrevemos, o que falamos ou apenas insinuamos, revelam nosso lugar social. Em geral falamos desde onde nossos “pés” pisam, embora não seja incomum falsearmos pisadas, ainda mais nesses tempos de pós-verdade, com suas abundantes e perniciosas fake news. Estando neste tempo, muitas vezes permeado de “temporais”, escrever é um ato de sobrevivência, de resistência, de persistência e também de desobediência às subserviências. À pergunta “por que escrevo?”, no livro “Ofício de Escrever”, Frei Betto, entre outras razões, afirma: “escrevo para sublimar minha pulsão e dar forma e voz à babel que me povoa interiormente”. Eu também! E para tentar organizar dentro de mim a babel que nos envolve! (08.07.20)

Obs: O autor é Doutor em Sociologia, pós-doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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